Mostra itinerante exibe as fronteiras dos povos americanos

Haverá algo que marque mais a fronteira entre México e Estados Unidos que a perseguição americana contra os imigrantes clandestinos? E será que não existe uma fronteira direta e permeável, que permite uma invasão cultural dos EUA, desmedida sobre o Brasil? Ou mesmo entre o Paraguai e Brasil, que mais define essa fronteira que não o contrabando comercial? São discussões como estas que tentam colocar - ou confirmar - a mostra Fronteiras, Um Olhar Investigativo, que começa no próximo dia 26 (terça-feira), no Itaú Cultural.A mostra é uma viagem audiovisual sob a perspectiva das divisões geográficas, culturais, comportamentais e sexuais que separam ou aproximam os diversos povos das Américas. É também uma abordagem metalingüística, que dá vazão em seu entendimento à iniciativa itinerante da mostra. O projeto foi apresentado pelo diretor do Itaú Cultural Ricardo Ribemboim, que espera poder levar a mostra além das fronteiras brasileiras, pretendendo atingir também outros países da América.Para tal, o evento conta com um apoio bastante significativo e raro, no que diz respeito a mostras de cinema e vídeo no Brasil. Trata-se das curadorias do americano Steve Said - promotor de outros 400 programas de audiovisual e curador de vídeo no Pacific Film Archive (Berkley, California) -, e do mexicano Juan Díaz Infante - consultor do Instituto Latino-Americano pelo Conteúdo Cultural, professor no Centro Universitário de Investigações Humanísticas (Cidade do México), escritor, curador e artista multimídia.Said e Infante foram responsáveis pela seleção estrangeira da mostra, que reúne 19 filmes. Os outros cinco são todos episódios da série Viagens na Fronteira, produzidos pelo Itaú Cultural e realizados em conjunto com diretores vanguardistas do país, como Carlos Nader, que realizou alguns trabalhos com Waly Salomão, e Marcello Dantas, que dirigiu junto a Nelson Hoineff o documentário Antes - Uma Viagem pela Pré-História Brasileira, atração do Cinecaverna na Mostra do Redescobrimento.Ensaios - A mostra está dividida em três programas: o brasileiro Viagens na Fronteira; A Fronteira: De que Lado Você Está?, organizado por Said; e As 187 Fronteiras que Não Se Vêem, sob o encargo de Infante. Na noite de abertura, dia 26, será apresentado o vídeo Nativos, do mexicano Jesse Lerner, que discute a fronteira entre México e EUA, a partir de um grupo de nativistas que se organiza para combater a imigração ilegal. Logo depois é exibido Dia da Independência, dos americanos Alex Rivera e Lalo Lopez, uma paródia do blockbuster Independece Day, que põe o imigrante latino como o alienígena invasor. Um debate, onde estarão presentes os dois curadores, acontece logo a seguir.Cada um dos programas nos dias seguintes será acompanhado por textos críticos, escritos pelos curadores e pela doutora em história e professora pela PUC/RJ, Margarida de Souza Neves.Margarida, convidada a dissertar sobre o módulo brasileiro, coloca que a fronteira dentro do léxico português ganha aspectos extra-territoriais, servindo como metáfora para experiências distantes, para situações-limite, ou o limiar do desconhecido. Da mesma forma, a fronteira também ganha a denotação real quando discutida junto à história, relacionada à comunicação ultra-mar com nossos colonizadores. As duas situações, para ela, não são dignas de discussão por que objeto e significado estão em constante instabilidade. Mas o programa Viagens na Fronteira, segundo ela, pretende "possibilitar aos que a visitem uma experiência análoga àquela vivida pelos que partiram em busca de um registro de nossas fronteiras", para que a partir das revelações que surgirem possa-se retirar algo novo. Sem as mesmas causas, todos os outros filmes, porém, podem oferecer o mesmo que o módulo brasileiro: refletir sobre o novo. Nem que o novo não seja para nós, inclusos em nossa realidade, uma verdadeira novidade problemática, mas é surpreendente ter a advertência de que estes fatos acontecem concomitantemente em outros lugares da América. O documentário de 16 minutos dos americanos Matthew Sneddon e Paul Espinosa Nem Uma Gota Para Beber mostra, por exemplo, a situação crítica em que vivem algumas famílias vizinhas das cidades de Ciudad Juarez (México) e El Passo (EUA) que são fronteiriças, e por anos usaram um sistema de abastecimento de água semelhante. Por fatores econômicos diversos, a região começou a ficar superlotada, e a água tornou-se escassa e rara para boa parte da população - alvo da lente dos diretores.Ficções como Dia da Independência, ou o mexicano A Grande Invasão Mojado, também merecem atenção, marcados por uma boa dosa satírica. Este último, dirigido por Guillermo Gomez-Peña apresenta uma situação inversamente satírica, onde os Estados Unidos é um país em colapso, dominado pelos latinos, que impuseram a língua "espanglesa" e governam o lugar pelas mãos de Gran Vato, o primeiro-ministro chicano.Outros filmes que poderão ser vistos são Sinal dos Tempos, também de Alex Rivera e Lalo Lopez; Oiapoque - L´Oyapock, do brasileiro Lucas Bambozzi; Obra em Andamento, do argentino premiado Luis Valdovino, Ñ (Enn-way), do cubano Tony Labat e A Outra Fronteira, da renomada diretora de arte mexicana Leticia Venzor.Itinerância - A mostra Fronteiras, Um Olhar Investigativo, fica em São Paulo até dia 1º de outubro. Logo depois, a mostra ocorre simultaneamente em Campinas e Belo Horizonte (de 2 a 6 de outubro), seguindo para Penápolis (interior de São Paulo, dia 16 a 19) e Brasília (23 a 28). Outras cidades brasileiras e da América Latina devem também ver a mostra. A entrada é gratuíta.

Agencia Estado,

24 de setembro de 2000 | 20h28

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