Mostra italiana une cinema e literatura

- Houve um tempo em que o cinema italiano, o francês e o japonês tinham importante participação no mercado cinematográfico brasileiro. O neo-realismo e a nouvelle vague exerceram profunda influência sobre os diretores do cinema novo e Carlos Reichenbach, um dos mais ilustres diretores de São Paulo, lembra sempre os filmes do Japão que assistiu no lendário Cine Niterói, na Liberdade. Hoje em dia, o domínio maciço que Hollywood exerce sobre o mercado do País marginalizou esses produtos. São raros os filmes da Itália, da França e do Japão que chegam ao Brasil. Por isso mesmo é bem-vinda a iniciativa do Centro Cultural São Paulo, que promove a partir desta terça-feira, um ciclo de filmes italianos privilegiando o diálogo entre cinema e literatura.Serão exibidos nove títulos até o dia 16. Os de amanhã levam a assinatura de Pietro Germi (Aquele Caso Maldito, às 16 horas), Mauro Bolognini (Caminho Amargo, às 18 horas) e Roberto Faenza (Páginas de uma Revolução, às 20 horas). São adaptações de Carlo Emilio Gadda, Vasco Pratolini e Antonio Tabucchi. A programação de quarta-feira privilegia Marco Bellocchio (O Príncipe de Homburg, baseado em Heinrich Von Kleist, às 16 horas) e Luchino Visconti (O Leopardo, que se baseia em Giuseppe Tomaso di Lampedusa, às 20 horas). Um outro filme de Bellocchio (A Ama-de-Leite, baseado em Pirandello) e obras de Giuseppe Tornatore (A Lenda do Pianista do Mar, adaptado de Alessandro Baricco), Marco Risi (O Último Réveillon, de Niccolò Ammanniti) e Guido Chiesa (O Partisan, de Beppe Fenoglio) completam a programação.Destacando a importância do evento, a Secretaria Municipal de Cultura, à qual é vinculada ao Centro Cultural, e o Instituto Italiano de Cultura estão trazendo a São Paulo o ator Stefano Dionisi, de O Castrado, a roteirista Doriana Leondeff, que escreveu o filme de Silvio Soldini Pão e Tulipas, e o crítico, ensaísta e professor Giorgio de Vincenzi. Eles vão participar de um debate que será realizado na quarta-feira, às 19 horas, Sala Mário Pedrosa, na Rua Frei Caneca 1402, com a participação do pesquisador e doutor em Língua e Literatura Italiana, Mauro Porru.Cinema e literatura - Júlio Bressane, um dos diretores mais autorais do Brasil, gosta de dizer que o cinema quase sempre se preocupa em assimilar as tramas dos filmes, sem se preocupar em propor, na tela, equivalentes para a escrita dos livros. Por isso mesmo, ele diz que suas adaptações são, na verdade, transcodificações. Os filmes que integram a mostra do cinema italiano propiciam ampla munição para o debate. Pode ser que Germi tenha se interessado mais pela trama do que pela escrita de Gadda, mas Visconti e Bolognini, com certeza, preocuparam-se em colocar nos filmes as sutilezas que caracterizam Lampedusa e Pratolini.Germi morreu precocemente em 1974, aos 59 anos. Foi esquecido em detrimento de Ettore Scola e Mario Monicelli, informa Jean Tulard em seu dicionário de cinema, não sem lembrar que ele foi um dos pais da moderna comédia italiana, consolidada pelo sucesso internacional de Divórcio à Italiana, que ganhou até o Oscar (de roteiro). Germi, originário de um meio humilde, iniciou sua carreira de diretor fazendo dramas sociais que tiveram defensores inflamados no País. Em Nome da Lei e O Caminho da Esperança entusiasmaram o influente Moniz Viana no extinto Correio da Manhã. Não era um caso isolado, embora Viana fosse o mais radical, estimulado pela veneração que o mestre americano John Ford lhe provocava e que ele descobria em filmes como O Bandoleiro do Covil do Lobo, de Germi.Aquele Caso Maldito foi o último filme do diretor antes da nova fase iniciada com Divórcio à Italiana. O próprio Germi interpreta o policial que investiga um crime e, do elenco, participam Eleonora Rossi Drago, Claudia Cardinale, Franco Fabrizi e Claudio Gora. O componente social é decisivo na trama e o desfecho oferece um momento forte a Claudia, que iniciava sua escalada para os grandes papéis em filmes de Visconti e Valerio Zurlini. Germi, que era um ator bastante apreciável, está no elenco de Caminho Amargo, cujos protagonistas são Claudia Cardinale e Jean-Paul Belmondo.Mal-entendido - Ele é Amerigho, que desenvolve uma paixão destrutiva por Bianca, a mais bela cortesã de Florença, papel ao qual La Cardinale empresta não só a exuberância física, mas também a do seu temperamento dramático. E Caminho Amargo é o filme que você precisa ver, para inteirar-se do mal-entendido que sempre acompanhou Mauro Bolognini no cinema italiano. As qualidades de seus filmes mais sociais (A Longa Noite de Loucuras, O Belo Antônio e Um Dia de Enlouquecer) eram atribuídas pelos críticos aos roteiros de Pier-Paolo Pasolini e os melodramas históricos (Caminho Amargo e Desejo Que Atormenta, entre outros) eram considerados subviscontianos, no seu cuidado detalhista. Há que fazer justiça a Bolognini, que morreu em maio, pois ele tem filmes notáveis. E era um autor. Ele podia estar adaptando Pratolini, Vitaliano Brancatti (O Belo Antônio), Ítalo Svevo (Desejo Que Atoementa/Senilità) ou Alberto Moravia (Agostino). Seus filmes tratam sempre da impotência do homem às vezes no sentido literal, na maioria das vezes no figurado, e da mistificação da mulher. Claudia Cardinale é um assombro nos filmes do diretor, que com Visconti e Zurlini foi o que melhor soube usar a beleza e o talento da atriz.E há Visconti, o grande, com seu magnífico O Leopardo, que justifica sozinho uma cinematografia inteira. E existem os filmes de Bellocchio, inéditos nos cinemas brasileiros. Bellocchio, nome importante dos anos 60 - De Punhos Cerrados e A China Está Próxima anteciparam Maio de 68, com A Chinesa, de Jean Luc Godard -, vem fazendo um cinema com ênfase no erotismo, mas sem tanta repercussão junto à crítica. Suas adaptações de Kleist e Pirandello estão entre as novidades que fazem do festival italiano um evento merecedor de toda atenção.Serviço - Festival de Cinema Italiano. Terça, às 16 horas, ´Aquele Caso Maldito´/59, de Pietro Germi; às 18 horas, ´Caminho Amargo´/61, de Mauro Bolognini, às 20 horas, ´Páginas de uma Revolução´/95, de Roberto Faenza. Grátis. Centro Cultural São Paulo - Sala Lima Barreto. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 16/8

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