Mostra Internacional de Cinema revisita cinema do diretor Victor Erice

Clássicos do cineasta espanhol serão exibidos no evento

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2014 | 17h30

Há que agradecer às apresentações especiais da 38.ª Mostra. É graças a elas que o cinéfilo de carteirinha poderá fazer nesta quarta-feira a revisão da obra (quase completa) de Victor Erice. Em 40 anos de carreira, desde 1974, Pedro Almodóvar fez mais de 20 filmes. Num período só um pouco maior - O Espírito da Colmeia é de 1973 -, Erice fez apenas três longas. Um punhado de curtas, quase sempre episódios para filmes coletivos, complementa sua produção. A Mostra oferece todo Erice longo.

O Espírito da Colmeia, El Sur - contemporâneo do Sur de Fernando Solanas -, O Sol do Marmelo. Três filmes difíceis de classificar, mas que, de alguma forma, estabelecem um conceito rigoroso do cinema como investigação do mundo e da arte. Vale recuar no tempo. Há 41 anos, Francisco Franco ainda era chefe de governo da Espanha. Ele ainda viveria mais dois anos, mas em 1973 fez a passagem numa Espanha que clamava por democracia. Franco, que combatera a República, fez do rei Juan Carlos o seu sucessor. O rei, atendendo ao clamor popular, modernizou a Espanha, coisa que o caudilho se recusava a fazer. Mais recentemente, Juan Carlos renunciou em meio a denúncias de corrupção que envolviam familiares e o próprio governo, mas naquela época ele representava o desejo de mudança.

Carlos Saura era o grande nome do cinema espanhol na época. Para driblar a censura do franquismo, fazia filmes alegóricos que colocavam a Espanha na tela. Foi quando veio Erice. Em 1940, a Falange, partido fascista de Franco, dominava o país, após a derrota das forças republicanas na Guerra Civil. Erice mostrou de frorma enviesada o que ocorrera na Espanha. Duas meninas, duas irmãs, assiostem ao clássico Frankenstein, de James Whale. Ficam perturbadas com o monstro interpretado por Boris Karloff. No seu imaginário infantil, o monstro vira o militante ferido que se esconde no celeiro. No filme dentro do filme, uma menina, sem noção do perigo, brinca com o monstro. Ele, também inocente, a joga dentro d’água, mas é só uma brincadeira - que produz uma tragédia.

Ana Torrent faz a mais sugestionável das irmãs - depois, ela virou atriz de Saura (em Cria Cuervos). O filme constroi-se nesse limite em que inocência e perversidade dão-se as mãos. Explorando o sentimento de insegurança no imaginário dos espanhois - o país, dividido pela guerra fratricida, também antecipara forças em conflito na 2.ª Grande Guerra -, o filme permite entender como o franquismo se constituiu numa ditadura do tipo conservadora, católica e anticomunista. Passaram-se dez anos até o segundo longa, e mais dez até o terceiro. El Sur volta ao imaginário infantil. Adulta, uma mulher do norte lembra sua mítica fascinação pelo sul, tecida nos relatos que ouvia do pai, quando menina.

De novo, Erice volta a um país dividido, e não apenas a Espanha. O conflito norte/sul está na essência de divisões históricas - colonizadores e colonizados, potências capitalistas e nações do Terceiro Mundo. A própria divisão interna é entre industrialização e estrutura agrária. O pai é desterrado no próprio país pela Guerra Civil. Como no Espírito, o autor movimenta-se no território do mito. Há sempre um momento de mistério, ou de terror. A menina, no Espírito, pensa que a irmã morreu. Em El Sur, a garota descobre que herdou o pêndulo do pai. Com ele vem o tempo, e tudo o que representa. Em O Sol do Marmelo, é a luz. No exíguo quintal de seu estúdio, onde há um marmeleiro, o pintor Antonio López tenta captar a luz do sol nos frutos. A tarefa é difícil, senão impossível. Tão poucos filmes, e tão grandes. Erice poderá ser, tanto depois, a grande descoberta dessa Mostra.

APOSTAS DA MOSTRA PARA QUARTA-FEIRA

Vermelho Profundo

Um dos mais belos filmes do mexicano Arturo Ripstein, recontando a história de Amantes da Meia-Noite, de Leonard Kastle, sobre casal bizarro - ele, feio, ela gorda - que se une para uma vida de crimes.

Winter Sleep

O longa do turco Nuri Bilge Ceylan que ganhou a Palma de Ouro, em maio, desagradou a muitos críticos, mas tem grandes cenas que discutem o papel do intelectual e a crise do casal no mundo contemporâneo.

A Noite de São Lourenço

Talvez o maior filme dos irmãos Taviani, um relato carregado de conotações míticas sobre a resistência ao fascismo numa pequena cidade italiana, durante a 2ª Grande Guerra.

Permanência

Irandhyr Santos é sempre uma garantia, ainda mais quando o diretor é talentoso como o estreante pernambucano Leonardo Lacca. Fotógrafo hospeda-se na casa da ex em São Paulo. Velhos sentimentos afloram.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.