Videocine/AP
Videocine/AP

Mostra Internacional de Cinema de SP abre com o polêmico filme 'Nova Ordem'

Dirigido pelo mexicano Michel Franco, filme foi premiado em Veneza

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2020 | 05h00

No lançamento da 44.ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, a diretora – e curadora – do evento, Renata Almeida, havia anunciado o filme de abertura. E disse que Nova Ordem, do mexicano Michel Franco, seria um filme polêmico para os tempos duros que estamos vivendo. No ano passado, Cannes e Veneza haviam destacado a revolta dos excluídos, outorgando seus prêmios a filmes como Parasita, de Bong Joon-ho, Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Os Miseráveis, de Ladj Ly, e Coringa, de Todd Philips.

Este ano, Veneza fez uma mostra presencial, marcada por restrições. O júri presidido por Cate Blanchett atribuiu seu grande prêmio ao longa de Michel Franco. O que vem depois da revolta? A Nova Ordem. Os excluídos revoltam-se, roubam e matam. Cria-se o caos. O Exército intervém e instaura um regime de força. Nova Ordem começa com a revolta nas ruas, a invasão do condomínio – ecos de O Som ao Redor, também de Kleber Mendonça Filho. Prossegue com a carnificina na festa de casamento – lembrança de Parasita? Será realmente uma abertura explosiva, e polêmica, para a Mostra de 2020. Após a sessão presencial, para convidados, a partir das 19h30 desta quinta, 22, no Drive-in Belas Artes do Memorial da América Latina, Nova Ordem será liberado para o público a partir da 0h01 de sexta, 23, devendo ficar 24 horas no ar.

Todos os demais 197 filmes de 71 países serão liberados a partir das 20h da mesma quinta, no site www.mostra.org e pela platafortma exclusiva Mostra Play, que direcionará o público para os títulos e as operadoras em que estarão disponíveis. Também estarão ativas as plataformas associadas Spcine Play e Sesc Digital. Pela primeira vez em sua história, a Mostra ocorrerá remotamente, e a boa nova é que os filmes poderão ser acessados de todo o Brasil. E todos os títulos estão liberados ao mesmo tempo, para que o próprio espectador forme sua grade. Cada ingresso – view – custará R$ 6. Diferentemente de anos anteriores, em que sempre trouxe convidados nacionais e internacionais, a 44.ª Mostra até nisso será remota. Os diretores convidados farão suas participações por meio de lives e vídeos gravados.

Dos quase 200 filmes, um quarto deles – cerca de 50 – é dirigido por mulheres. Não por acaso, a Mostra realiza nos dias 29 e 3 o Fórum Nacional de Lideranças Femininas no Audiovisual. Será uma parceria do + Mulheres Lideranças do Audiovisual Brasileiro com a ONU Mulheres Brasil e a Spcine. Um diretor visceral do Cinema Novo – vencedor do Prêmio Multicultural Estadão – ministrará um curso online, A História do Cinema por Ruy Guerra: o próprio. É bom ficar atento porque os filmes têm um número limitado de visualizações – de 1 mil, caso de Nova Ordem, a 2 mil, a maioria dos títulos. A Mostra mantém a tradição de privilegiar o cinema de autor. Nesses mais de 40 anos, tem sido um baluarte em defesa do cinema de exceção no País.

Uma mostra afetada pelo coronavírus não poderia deixar de apresentar filmes em que o tema esteja presente. O chinês Ai Weiwei exibirá as imagens clandestinas – e exclusivíssimas – que conseguiu gravar em Wuhan, onde o pesadelo começou, no documentário Coronation. Abel Ferrara mostra a chegada do vírus à Europa em Sporting Life. E outro chinês, Jia Zhangke, criador do pôster que deu origem à belíssima vinheta, apresentará dois filmes, o longa Nadando Até o Mar Ficar Azul e o curta A Visita, em que a covid sinistramente marca presença. O Brasil contará com 36 títulos, incluindo Casa de Antiguidades, de João Paulo Miranda Maria, que foi o representante brasileiro na edição, também virtual, de Cannes deste ano.

'Nova Ordem' é acusado de racismo

O filme Nova Ordem causou polêmica no México antes de sua estreia e não exatamente por causa de suas realizações.

Desde que seu trailer foi lançado no início de outubro, o filme tem sido criticado nas redes sociais como classista e racista por mostrar uma reunião de pessoas ricas invadida por agressores de classe baixa. 

O diretor defendeu seu filme, vencedor do Leão de Prata do júri de Veneza, e pediu que não se empolgue com o avanço. “Não tenho esse conflito de ser profeta em minha própria terra”, disse.

Para ele, o termo “whitexican” (mexicanos brancos, ricos e pretensiosos) era racista, o que atiçou ainda mais as chamas. Mas na entrevista, ele explicou que a ideia do filme surgiu há exatamente cinco anos para denunciar a desigualdade e a corrupção que podem gerar um surto social no México e que também estão desestabilizando outros países, como Chile e França./AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.