Mostra Internacional de Cinema de São Paulo começa nesta quarta

Japonesa Naomi Kawase é destaque entre os 345 títulos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2014 | 03h00

Numa recente visita ao Brasil, homenageado pelo Instituto Moreira Salles, no Rio, Jia Zhang-ke saiu para jantar com amigos e terminou fazendo uma confissão. O grande diretor chinês - crítico ácido das transformações capitalistas que transformaram a China em fiel da balança da economia do mundo - será homenageado pela 38.ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo com o lançamento de um livro e do documentário que sobre ele fez Walter Salles. 

A confissão de Jia: foi voto vencido no recente Festival de Cannes, em maio. Integrante do júri presidido por Jane Campion, ele gostaria de ter visto a japonesa Naomi Kawase ganhar a Palma de Ouro por seu deslumbrante Still the Water, que vai passar na Mostra como O Segredo das Águas.

Naomi pode ter sido derrotada pela própria... soberba? Repetidas vezes ela disse, em Cannes, que O Segredo das Águas era uma obra-prima e merecia a Palma. O filme é uma obra-prima, mas ela não levou... Por que? É uma possibilidade que a presidente do júri tenha solapado a vitória de Naomi para continuar sendo a única mulher a vencer o prêmio - por O Piano, em 1993. 

São meras suposições, mas, quando foi entrevistada pelo Estado, Naomi estava cheia de entusiasmo e esperança. A entrevista, a bem da verdade, quase foi cancelada, a poucas horas da premiação. Naomi estava com problemas de coluna. Sentia dores terríveis. O marido, e massagista, colou-se atrás dela e tentava relaxá-la, enquanto falava. Havia algo de erótico na cena. Ela fazia cara de dor. Suspirava e em alguns momentos, como se sentisse prazer, jogava-se para trás, sobre ele. Naomi não tem limites. Filmou o próprio parto, o que levou mais de um crítico a chamá-la de exibicionista.

O Segredo das Águas é uma das atrações da Mostra que começa nesta quarta-feira para convidados, sob o signo do humor, com Relatos Selvagens, do argentino Demián Szafrón. Nesta quinta-feira, o evento começa para o público em geral, com 345 bons motivos - o número total de filmes - para que o cinéfilo se sinta estimulado a celebrar sua paixão pelas imagens em movimento. 

Renata de Almeida, a sra. Mostra, vive dizendo que gostaria de reduzir o número. Mesmo com 200 títulos, seria humanamente impossível para uma pessoa assistir a todos. Mas há quase 40 anos a Mostra é essa maratona. Ter de escolher entre tanta oferta faz parte do show. Só não perca Still the Water/O Segredo das Águas. O filme passa-se numa ilha assolada por ventos e ondas gigantescas. Logo no começo, um jovem descobre um cadáver na praia. Com a amiga, também jovem, vai tentar descobrir o que houve. E sua mãe está morrendo.

“Descobri minhas origens nessa ilha quando lá estive pela primeira vez, há oito anos. Minha bisavó era uma xamã e até por conta disso, quando decidi fazer o filme, senti que ele era especial para mim, mas também teria de ser especial para os outros. Minha bisavó era depositária de mistérios ancestrais. A ilha mantém vivas tradições milenares. Sou adotada, você sabe, e isso pode ser doloroso. Por mais amor que receba, você é produto de uma rejeição inicial. Na ilha, mais que em qualquer outro lugar, compreendi que vida e morte fazem parte do mesmo movimento e que o sofrimento pode ser um estímulo para a superação. A natureza, o mar que provêm o sustento da ilha, também a ameaça. É como uma metáfora do tempo e do turbilhão interior que pode nos tragar.”

O homem moderno, diz a diretora, perdeu seu vínculo com a morte. “Tentamos negá-la o tempo todo, vivendo freneticamente. De que adianta? Desde que nascemos, estamos destinados a morrer. O importante é superar a atitude negativa em relação a isso e viver serenamente.” 

Naomi começou fazendo documentários. “O cinema possui essa capacidade única de captar e expressar a realidade. Você liga a câmera e já tem o mundo ao redor. Queria mostrar personagens verdadeiros, ancorados no sentido da realidade. E também mostrar como a natureza que nos assusta é bela. É o meu filme mais acabado. Sei que pareço competitiva, e nós, japoneses, somos estimulados a competir. Mas para que o filme seja usufruído como gostaria, o público, e você que vem de tão longe, do Brasil, tem de fazer do meu filme uma coisa sua. Só assim ele serás grande, como espero. Começa com o mar bravio e termina com ele calmo. Se há um mistério, é esse. Precisamos viver em paz conosco e com o mundo ao redor.” 

Maratona cinéfila terá sessões especiais, encontros e exposição

Serão 345 longas e quatro programas de curtas-metragens, além de uma série de convidados e programações especiais em toda a cidade. Mais uma vez, a Mostra de Cinema de São Paulo exige fôlego de maratonista dos cinéfilos. 

A 38.ª edição do evento traz uma programação diversa e democrática, que leva seus filmes tanto a redutos do cinema como o Cinesesc quanto a rincões da capital, como unidades do Sesc em Campo Limpo e Osasco, que recebem, respectivamente, Giraffada, de Rani Massalha, na sexta, e filmes que integram a retrospectiva do cineasta Pedro Almodóvar, com Que Fiz Eu Para Merecer Isto, no dia 23, e Fale com Ela, no dia 25.

Enquanto isso, na região mais central, no dia 26, é a vez de uma sessão especial do documentário Domingo, de Karim Aïnouz, sobre o artista dinamarquês Olafur Eliasson, no Minhocão. 

Já no Parque do Ibirapuera, a tradicional sessão ao ar livre na área externa do Auditório Ibirapuera presta homenagem aos 100 anos do personagem Carlitos, de Charles Chaplin. No dia 1.º de novembro, além da exibição do curta Corrida de Automóveis para Meninos, de Henry Lehrman, será projetado o clássico O Circo. 

Para quem quiser conferir o cinema fora das telas, a opção é a mostra México Fotografado por Luís Buñuel, que a Mostra organiza em parceria com a Cinemateca Brasileira e o Governo da Espanha. Com projeto assinado pela cenógrafa Daniela Thomas e Felipe Tassara, a exposição traz uma rara série de fotografias feitas pelo cineasta espanhol entre 1947 e 1965, durante pesquisas de locações para os longas que rodou no país. 

Ainda no foco Espanha, haverá uma série de encontros de coprodução entre os dois países e exibição de clássicos como A Idade do Ouro e Um Cão Andaluz, ambos de Buñuel, Frivolinas, de Arturo Carballo, O Toque da Meia-Noite, de Orson Welles. 

Entre os destaques internacionais, esta edição traz os vencedores dos grandes festivais, como Winter Sleep (Palma de Ouro em Cannes), Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência (Leão de Ouro em Veneza) e Do que Vem Antes (Pardo de Ouro em Locarno)./FLAVIA GUERRA

INGRESSOS

Central da Mostra. Av. Paulista, 2.073, Conj. Nacional Permanentes

Integral: R$ 430 Especial (2ª a 6ª até 17h55): R$ 100 Pacotes 40 ingressos: R$ 315 20 ingressos: R$ 185 Individuais R$ 16: 2ª, 3ª, 4ª e 5ª R$ 20: 6ª a dom. Internet Ingresso.com

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