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Mostra Internacional de Cinema de SP resiste a redução com orçamento de R$ 6 milhões

Maratona desse ano homenageia a Film Foundation, organização que preserva clássicos criada pelo diretor Martin Scorsese

Luiz Carlos Merten, Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2015 | 01h00

Havia a expectativa – o medo? – de que a 39.ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo se ressentisse da crise que assola o País. No pior dos quadros alarmistas, a Mostra teria de ser muito pequena, ou nem se realizar. O horror, o horror! Renata de Almeida pode ter perdido algumas parcerias (a Faap) e, num quadro realista, trabalha com uma redução de 30% a 40% do seu orçamento, mas apoiadores tradicionais – Petrobrás, Itaú, BNDES, Prefeitura, Governo do Estado (através da Sabesp) e Sesc –, mesmo que os recursos ainda não tenham sido liberados, permitem que ela respire aliviada. Sim, teremos Mostra. A boa nova, uma das tantas, é que a Mostra de 2015 voltará até a um de seus espaços tradicionais – à sala de cinema do Maksoud, que há tempos não abriga mais aquelas sessões de pré-estreias. O Maksoud reintegra-se ao evento. Aleluia!

Como sempre, Renata de Almeida trabalha com um orçamento ideal – R$ 6 milhões – que nunca é atingido. O importante é que você já pode ir-se preparando. A maratona deste ano ocorre entre 22 de outubro e 4 de novembro. Vamos repassar algumas informações. O cartaz deste ano – e, consequentemente, a vinheta – terão a assinatura de Martin Scorsese e a Mostra vai homenagear a organização não lucrativa que ele criou para garantir a preservação de clássicos do cinema, a Film Foundation. 

A retrospectiva da Film Foundation será formada por 23 títulos, todos restaurados e exibidos em cópias digitais. São filmes de várias procedências. Pense num banquete de (grandes) filmes. Comece a salivar pensando nesses, de diversas procedências – Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, e O Bandido Giuliano, de Francesco Rosi, da Itália; A Cor da Romã, de Sergei Paradjanov, da antiga URSS; Rashomon, de Akira Kurosawa, do Japão; Jian, de Edward Young, de Taiwan; Maynila, de Lino Brocka, das Filipinas; Al Mummia, de Shadi Abdal Salam, do Egito.

Não faltarão clássicos de Hollywood – Como Era Verde Meu Vale, de John Ford; Juventude Transviada, de Nicholas Ray; Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan; Bom-Dia, Tristeza, de Otto Preminger; Um Caminho para Dois, de Stanley Donen. Até um do próprio Scorsese, O Rei da Comédia. E, claro, como o ex-seminarista Scorsese é devoto de ‘são’ Michael Powell (e Emeric Pressburger), nenhuma retrospectiva estaria completa sem um filme deles, e será Coronel Blimp.

Pergunte a dez críticos que tenham estado presentes no Festival de Cannes, em maio, e vai ser difícil achar um que discorde – um dos programas mais importantes deste ano, todas as seções reunidas, foi o tríptico do português Miguel Gomes baseado nas 1001 Noites. O autor de Tabu reconta a saga de Xerezade e busca inspiração em suas histórias para refletir sobre a crise portuguesa, e europeia. A Mostra traz os três filmes. Traz o próprio Miguel Gomes para destacar, mais uma vez, a vitalidade do cinema autoral que se produz em Portugal. Não é o caso de promover nova retrospectiva de Manoel de Oliveira, já homenageado pela Mostra, para lembrar o mestre centenário que morreu em abril. “Mas o Manoel sempre muito querido pelo público da Mostra e não será esquecido. Vamos trazer seu filme testamento, que ele havia feito em 1982 e ficou todo esse tempo depositado na Cinemateca Portuguesa, para só ser exibido após sua morte. Visita ou Memórias e Confissões passou em Cannes Classics e agora vem a São Paulo como o nosso tributo a um grande artista e um ser humano tão imenso que Manoel nos honrou recebendo o prêmio Humanidades.”

Justamente o prêmio Humanidades. A Mostra este ano outorga dois prêmios – ao chileno Patricio Guzmán, que traz seu Botón de Názcar, e ao italiano Ermanno Olmi, que apresentou, fora de concurso, talvez o melhor filme de Berlim, em fevereiro – Torneronno i Prati. Ambos já confirmaram presença – e Olmi, com 84 anos, pode muito bem vir a ser o sucessor de Oliveira como mais velho diretor do mundo em atividade. Tudo isso é muito bacana e deixa o cinéfilo embalado, à espera de que chegue outubro. Mas vamos atiçar ainda mais a fome por grande cinema do público. Veja o quadro. Não há crise que derrube a Mostra, um dos maiores e mais importantes eventos culturais, não só de cinema, da cidade (e do País).

Cine Paradiso vai ser o charme do evento

O grande charme da 39ª Mostra Internacional de Cinema vai se chamar Cine Paradiso – trata-se de um espaço localizado no subsolo do hotel Maksoud Plaza onde antes já recebeu filmes da Mostra e agora será um local que vai abrigar cinema, música e gastronomia. Em janeiro, o empresário Facundo Guerra intermediou a parceira entre os responsáveis pelo hotel e o grupo francês MK2, que vinha buscando um espaço em São Paulo fazia cinco anos.

“Trata-se de um conceito já existente em Paris e que eles pretendem espalhar pelo mundo, começando por São Paulo”, conta Facundo. “A ideia é ter um cinema mais aberto, envolvendo música ao vivo e um serviço gastronômico. Assim, além da exibição de um filme mudo, por exemplo, a programação incluiria também a apresentação de bailarinas ou mesmo de uma banda de jazz.”

Segundo Nathanael Karmitz, um dos diretores da MK2, a ideia é transformar o espaço em um polo cultural. O Cine Paradiso deve abrir oficialmente apenas em janeiro, mas, por causa da Mostra, o espaço vai funcionar em período de pré-estreia. “Eles pretendiam comprar um projetor apenas no próximo ano, mas, com a Mostra, decidiram antecipar a aquisição para agora”, completa Facundo.

Fundada em 1967, a MK2 tornou-se referência mundial de filmes de arte graças especialmente ao trabalho do produtor e diretor Marin Karmitz que, ao longo dos anos, manteve encontros com gênios criadores, de Godard a Kielowski e Kiarostami. Seu catálogo de mais de 400 filmes inclui os direitos de Charles Chaplin, François Truffaut, Claude Chabrol, Gus Van Sant.

As salas da MK2 contabilizam 17% do mercado da França, com cerca de 5 milhões de espectadores/ano. Nelas, há espaço também para a produção de Hollywood.

No ano passado, a Mostra realizou uma homenagem aos 40 anos da abertura da primeira sala da MK2 em Paris, com exibição de alguns filmes que fizeram a glória da companhia. Marin era esperado, mas, como não pode vir, seu filho Nathanael recebeu por ele o prêmio Humanidades.

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