Mostra inclui preciosidades brasileiras

Entre os principais destaques do festival É Tudo Verdade este ano está a retrospectiva brasileira, que reúne 14 documentários produzidos pela Rede Globo e exibidos nos programas Globo Shell e Globo Repórter entre 1971 e 1979. Quem viu o programa nascer, no início da década de 70, sabe que mudou muito ao longo de sua história. O formato atual, com o repórter assumindo o papel de protagonista, nada tem a ver com as origens, fundadas nas experiências de um grupo de cineastas de primeira linha. Dirigidos por Eduardo Coutinho, Hermano Penna, João Batista de Andrade, Maurice Capovilla, Walter Lima Jr. e fotografados por nomes como Dib Lutfi e Walter Carvalho, os episódios eram rodados em película, tinham tempo de realização mais extenso e tratavam de temas mais amplos e sintonizados com o Brasil real. Era um núcleo de resistência dentro da emissora, que como a maior parte da mídia sofria censura do governo da ditadura para deixar passar apenas a imagem de um País sem problemas e conflitos. Responsável pela curadoria da retrospectiva, a produtora e pesquisadora Beth Formaggini teve a idéia de resgatar os documentários do Globo Shell Especial e Globo Repórter ouvindo relatos de alguns diretores que participaram daquela fase. Pesquisou no Centro de Documentação da Rede Globo, nos arquivos pessoais dos cineastas e até em acervos das Cinematecas Brasileira e do MAM. Muita coisa se perdeu, especialmente o material que era adquirido ou encomendado de produtoras independentes. "O material da Globo, por exemplo, está conservado, mas não é objeto de uma política de restauração", diz ela. "Meu objetivo é chamar a atenção para a preservação e divulgação desse material." A origem do Globo Repórter remonta ao início dos anos 70, quando a Rede Globo encomendou um documentário sobre São Paulo para a produtora independente paulistana Blimp Filmes. Dirigida por Guga de Oliveira, irmão de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, a produtora tornou-se a principal fornecedora de documentários e programas especiais da emissora. A partir de então, criou-se o Globo Shell Especial e, mais tarde, o Globo Repórter, que contava com mais dois núcleos de produção. Um no Rio, inicialmente comandado por Paulo Gil Soares. E outro em São Paulo, dirigido por João Batista de Andrade, e, posteriormente, assumido por Fernando Pacheco Jordão. Entre algumas das preciosidades resgatadas para a retrospectiva está Wilsinho da Galiléia (78), de João Batista de Andrade. O filme reconstitui a curta trajetória do famoso bandido, morto pela polícia aos 18 anos em uma emboscada. Andrade conta que começou a rodá-lo quando Wilsinho foi assassinado, misturando cenas documentais com ficcionais. Programado para ser exibido em dois episódios, foi censurado e acabou não indo ao ar, permanecendo inédito até hoje. "Já existia uma crise na Rede Globo por causa da independência do programa", conta o diretor. Outro biscoito fino é Semana de Arte Moderna (71), apresentado na fase do Globo Shell Especial. O documentarista Geraldo Sarno faz um paralelo entre o movimento de 22 e a vanguarda artística do fim dos anos 60 e início dos 70. Sarno entrevista remanescentes da famosa exposição, entre os quais Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, e jovens artistas que se diziam influenciados por eles, como José Celso Martinez Corrêa, Caetano Veloso e Wally Salomão. De Eduardo Coutinho, a quem a mostra foi dedicada, Beth Formaggini selecionou três títulos: Teodorico, O Imperador do Sertão (78), Seis Dias de Ouricuri (76) e Exu, Uma Tragédia Sertaneja (79). Menos conhecido de todos, este foi um dos últimos documentários dirigidos por Coutinho para a Rede Globo. Mostra a rivalidade entre duas famílias influentes na cidade de Exu, interior de Pernambuco. Exemplo do "cinema de conversação" feito pelo cineasta, o filme traz ainda a participação de Luís Gonzaga, que era natural de Exu, dando seu depoimento sobre o conflito. Cangaço - Entre os temas mais recorrentes, estava o cangaço. Dois dos documentários selecionados falam sobre o assunto. São eles O Último Dia de Lampião (72), de Maurice Capovilla, e A Mulher no Cangaço (76), de Hermano Penna. O primeiro reconstitui as últimas 24 horas do capitão Virgulino Ferreira, o Lampião, com a participação de remanescentes dos bandos e das volantes que os caçavam. E o outro fala sobre a participação da mulher no movimento, com depoimentos de algumas delas. São famosos depoimentos de Adília, Cila, Dada - respectivamente, mulheres de Canário, Zé Sereno e Corisco. Penna, que havia ingressado na Blimp Filmes como fotógrafo e tornara-se também diretor, considera A Mulher no Cangaço um de seus melhores trabalhos como documentarista. "Não era exatamente um docudrama, mas um documentário com reconstituição", relembra. "Tinha um formato original, porque as cenas ficcionais eram em preto-e-branco e câmera lenta." Extremamente populares, os documentários do Globo Shell Especial e do Globo Repórter tinham índices de audiência altíssimos. Muitas vezes, eram resenhados a posteriori nos jornais e viravam assunto do momento no País.

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