Mostra garimpa raridades do cinema soviético

A mostra Cinema Revolução - a Produção Russa de 1925 a 1946, que começa amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, aposta na novidade. Novidade? Mas como, quando o que se vai ver são filmesantigos, a maioria em preto-e-branco, alguns do tempo do cinemamudo? Simples: são raridades, filmes praticamente desconhecidos.E quem os conhece, viu em cineclubes, em sessões precárias, àsvezes semiclandestinas. Quer dizer, no tempo em que se amarravacachorro com lingüiça, para usar a expressão reabilitada porScolari.De Eisenstein, por exemplo, exibe-se o pouco conhecidoA Greve e não a manjadíssima obra-prima EncouraçadoPotemkim, que hoje em dia pode ser encontrado em qualquerlocadora. "A idéia foi essa mesma, resgatar para o públicopaulistano obras havia muito fora de circulação", diz o curadorAndré Sturm, cineasta e dono da distribuidora Pandora. Paraconseguir as cópias de filmes como Tchapaiev, Terra eFlor de Pedra, Sturm contou com a ajuda de colecionadores. Acirculação delas pelo Brasil se deu de maneira subterrânea, numaépoca em que projetar ou possuir um filme de origem soviéticaera ato de alta subversão. Com o fim da guerra fria, são poucasas pessoas que ainda olham em baixo da cama antes de dormir paraver se não tem comunista escondido. E assim, esse tipo de cinemavirou o que simplesmente é - História.E parte da história contemporânea pode ser acompanhadaatravés deste ciclo. No primeiro programa, temos A Greve(1924) e Terra (1930). Serguei Eisenstein e AleksanderDovjenko. Ambos, com estilos opostos, retratam dois momentos dahistória do país. O tema de Eisenstein é uma greve de 1912,duramente reprimida pela polícia czarista. O filme é tido comobrilhante, porém irregular, um precursor de Potemkim. Descritopelo roteiro, Greve parece pouca coisa. Obra partidária,pinta com traços fortes a exploração dos operários pelos donosda fábrica, mostra a associação dos empregados para a luta e arepressão.No entanto, a maneira como tudo isso ganha forma égenial. Eisenstein, convém lembrar, faz um cinema da ação, domovimento, do grafismo. Tudo nele é dinâmico e imprevisto, ecada plano é fruto de um trabalho intensivo de invenção.Dovjenko caminha em outra linha. Terra opta pelolirismo, pela poética da imagem, tentando fixar um momentocrucial da revolução russa, a mecanização do campo e aconseqüente alteração da vida dos camponeses. Sua opção é opostaà de Eisenstein. Decide não usar nenhum artifício, nenhumatrucagem, enquadramentos simples, atendo-se sempre ao meio deexpressão o mais depurado possível. Essa singeleza de registroadapta-se perfeitamente à proposta: Dovjenko focaliza a terra, ocampo, uma casa, camponeses, a rivalidade entre alguns deles, ociclo de nascimento e da morte. Montagem exemplar, cujoresultado é uma pastoral, e por trás dela, a política demecanização e depois coletivização do campo. Tem gente que oconsidera um dos dez ou doze mais belos filmes de toda ahistória do cinema, julgamento defensável.O ciclo permite acompanhar também a involução do cinemasoviético. As primeiras obras de Eisenstein e outros diretoresforam feitas num momento de invenção formal. Se os temas eramescolhidos pelo Partido (Outubro, por exemplo, foiencomendado para o 10º aniversário da revolução) a forma corriapor conta dos cineastas. Durante o período stalinista, noentanto, as asas dos criadores foram cortadas. O "socialismocientífico" virou doutrina. Era o pensamento único daquelaépoca. No plano da arte, o realismo socialista tornou-seobrigatório. Ou seja, a arte regrediu, junto com o pensamento.Prova disso é a Trilogia de Gorki, de Marc Donskoi,que conta a vida do grande escritor, da infância pobre àmaturidade. São três filmes muito interessantes, bonitos,instrutivos. Mas, convenhamos, parecem pobres para quem estavaacostumado às inovações formais de Eisenstein ou à poética de umDovjenko. Ainda assim vale ver esse tríptico formado por AInfância de Gorki, Ganhando Meu Pão e MinhasUniversidades, adaptado das memórias do escritor.Trash - Flor de Pedra é um exemplo excêntrico doperíodo stalinista. Dirigido em 1946 por Alexander Ptushko,baseia-se numa antiga fábula russa. Uma história detrabalhadores, de artesãos da pedra. Um deles deseja fazer umataça de pedra inigualável para oferecer à noiva e para issoprecisa enfrentar uma bela feiticeira da montanha. Os efeitosespeciais são primitivos e os cenários às vezes beiram o trash.Mas a história tem lá seu encanto.A outra obra-prima presente no ciclo é TempestadeSobre a Ásia, de Vsevolod Pudovkin. A história tem uma levadafantástica: um camponês mongol, aprisionado, é condenado àmorte. Mas um general estrangeiro vendo com ele um documento,nomeia-o descendente de Gengis Khan e faz dele um imperadorfantoche. Dovjenko, Eisenstein e Pudovkin constituíam a sagradafamília do cinema de invenção na antiga URSS.Também de Pudovkin, o clássico O Fim de SãoPetersburgo, que usa técnicas inovadoras de montagem paramostrar a tomada do Palácio de Inverno no início da RevoluçãoRussa. É considerado um modelo de narrativa do cinema mudo, comsua capacidade de articular imagens para formar uma história.Finalmente, outra trilogia, a de Máximo (que nada tem aver com Gorki), de Leonid Trauberg e Grigori Kozintzev. Os dois,quando jovens, fundaram a Feks (Fábrica do Ator Excêntrico)movimento de vanguarda que apareceu em 1922. Nesta trilogiaprocuram mostrar a trajetória de um operário do partido,transformando o militante bolchevista num herói romântico. Parao historiador Georges Sadoul, tomada em seu conjunto aTrilogia de Máximo é uma das obras mais importantes docinema nos anos 30.Centro Cultural Banco do Brasil. Local: Rua Álvares Penteado, 112, centro. Tel: (0xx11. 3113.3651).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.