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Mostra exibe 'Os Campos Voltarão', de Ermanno Olmi

Ermanno Olmi, no entanto, não vem receber o Prêmio Humanidade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2015 | 05h00

Havia, na competição de Berlim, em fevereiro, o deslumbrante Botão de Pérola, de Patricio Guzmán – leia crítica na página ao lado. Os júris, que raramente sabem reagir corretamente quando documentários e ficções concorrem juntos, atribuiu a Guzmán o prêmio de roteiro, certamente baseado no fato de que o texto é poético e forte. Se era para dar alguma coisa que não fosse o Urso de Ouro, esse foi o escolhido. Outro grande também estava na seleção oficial de Berlim, mas o filme do italiano Ermanno Olmi foi exibido numa gala especial, fora de concurso. Poderia ter ganhado, e seria o único filme da seleção a ombrear-se e até superar a obra do autor chileno.

Torneranno i Prati reabre a vertente da guerra no cinema italiano. O filme relata fatos que pertencem à história, e se passaram há quase 100 anos no front ítalo-austríaco, na guerra de 1914/18. Foi a guerra de Stanley Kubrick – o poderoso Glória Feita de Sangue – e a de Steven Spielberg – o magnífico mas subestimado Cavalo de Guerra. O retorno às trincheiras, à carnificina. Embora pertencente à grande história, a guerra que interessa a Olmi é a dos não heróis, dos sobreviventes. Seu filme passa-se numa única noite. Soldados, traídos por seus superiores, precisam buscar uma nova posição.

No ano passado, na comemoração do centenário da 1.ª Grande Guerra, surgiram muitas teses de historiadores sobre as origens da guerra e o redesenho geopolítico que dela resultou, na Europa e no mundo. O pai de Olmi lutou na guerra de 14. Com certeza, transmitiu ao filho a brutalidade de sua experiência. Aos 84 anos – nasceu em 1931 –, o cineasta faz agora mais um daqueles filmes de que só ele parece possuir o segredo. Seu primeiro longa é de 1959, Il Tempo si è Fermato. O Tempo Parou. Já é uma antecipação do cinema exigente e humanista que o diretor de Bérgamo iria continuar fazendo pelos anos e décadas seguintes. O Posto, A Árvore dos Tamancos – que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1978 –, Longa Vida à Senhora, A Lenda do Santo Beberrão – Leão de Ouro em Veneza, 1988. Não é uma obra que se destaca pela quantidade, mas pela qualidade.

Há um tempo no cinema de Ermanno Olmi e é esse tempo ‘fermato’, não no sentido de que os filmes sejam arrastados (ou chatos), mas um tempo que privilegia a reflexão sobre o movimento. Não é por outro motivo que ele está recebendo o Prêmio Humanidade da Mostra. Patricio Guzman é o outro premiado com o mesmo troféu. Nenhum dos dois poderá vir à cidade, mas os filmes permitirão que se comprove a singularidade das obras (e dos autores). Olmi é católico fervoroso. Em 1964, fez ...E Venne Um Uomo. O homem que veio para, de alguma forma, revolucionar a Igreja, foi o bonachão papa João XXIII. Olmi acredita na culpa do homem, mas acredita também na sua consciência. É essa consciência que dilacera os protagonistas de Os Campos Voltarão, lançados num conflito que os supera.

O capitão (Alessandro Sperduti) tem sob sua responsabilidade esse destacamento, tão próximo da fronteira dos austríacos que, como ele diz, “se pode sentir a respiração do inimigo.” Chega o major, Claudio Santamaria, o ator mais conhecido do elenco. Traz a ordem do alto comando de que o posto terá de ser abandonado e a posição, bombardeada. Frio e neve dificultam ainda mais o cumprimento da missão, que se torna suicida. Os homens estão morrendo nas trincheiras. Não são soldados profissionais. A maioria é de fazendeiros. Só o que querem é voltar para casa, para os seus.

Autor do próprio roteiro, Olmi não busca criar situações novas, inéditas para o espectador. Há o conflito entre os oficiais, os homens falam e contam-se histórias. E, como em Spielberg, na admirável cena em que o cavalo fica preso no arame farpado e, de ambos os lados, os soldados esquecem suas diferenças para salvar o animal, aqui um deles levanta-se e canta. Na noite cruel, e independente da letra, o tom da voz permite que a canção seja compartilhada por italianos e austríacos. A guerra e seu cortejo de sofrimentos não são exatamente novidades no cinema de Olmi. Os Campos Voltarão talvez não tenha a complexidade narrativa de outras incursões do cineasta pelo tema, em especial, Il Mestieri delle Arme, O Artesanato das Armas, de 2001, sobre Giovanni de Medici, que comandou o Exército do papa.

Mas se a situação, em si, não é nova, a corda é estirada até o limite e o tom busca colocar o público dentro da cena. É uma experiência radical, talvez seja até chocante. E tudo ocorre naquele tempo característico de Olmi. A Árvore dos Tamancos é sobre o tempo que passa na árvore do título e seus efeitos nos trabalhadores da fazenda. Em concisos 78 minutos, o grande artista nos leva agora a vivenciar outro tempo. A neve, o sangue – mas a fotografia de Fabio Olmi parece preto e branco em cores –, o sofrimento. Tudo passará e os campos voltarão. A frase final (“A guerra é uma besta que fere a terra e cuja voracidade não tem fim”) talvez seja o testamento do vencedor do Prêmio Humanidade de 2015. Olmi fez o filme em família. Fabio, o diretor de fotografia é seu filho. A filha, Elisabetta, irmã de Fábio, é a produtora.

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