Mostra exibe o premiado filme mexicano <i>O Violino</i>

Don Angel - você pergunta de onde vem o tratamento respeitoso, quando foi que ele virou Don Ângelo? Don Angel Tavira faz cara de quem não sabe, mas basta conversar cinco minutos com ele para perceber que não há outra maneira de se dirigir a este senhor de 83 anos, que participou, como ´maestro? (professor), da formação de gerações mexicanas nas escolas do departamento de Guerrero, onde mora até hoje com a mulher, Elpidia. Estão casados há mais de 40 anos. "Não somos ricos, mas temos uma boa vida, educamos nossos filhos, que já nos deram netos", ela explica. Velhinho, quando muita gente dá a vida por acabada e só pensa em colocar o pijama para descansar, Don Angel Tavira iniciou uma nova carreira que o levou, em maio, ao Festival de Cannes e o traz agora a São Paulo, para participar da 30ª Mostra Internacional de Cinema. Ele é o protagonista do filme El Violín (O Violino), de Francisco Vargas Quevedo, que venceu o Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino, em agosto. "Foram quatro prêmios, não?", Elpidia pergunta, mas já sabe a resposta. Tem o maior orgulho do companheiro. Chorou em Cannes, quando ele recebeu uma ovação do público e muita gente se levantou, no maior evento de cinema do mundo, para homenagear o ator que faz Don Plutarco. No filme de Francisco Vargas Quevedo, Don Plutarco é este velho que vive fazendo música, com o filho e o neto. Parecem inofensivos, mas levam vida dupla - Don Plutarco e os seus integram a guerrilha campesina que luta contra o Exército opressor. Quando ele vai preso, o oficial o obriga a tocar, numa cena muito intensa. Contribui para o pathos do personagem o fato de o próprio Don Angel não ter a mão direita, tendo de atar o arco para tocar. Ele a perdeu aos 17 anos, num acidente com fogos de artifício. Era um jovem com uma carreira promissora na música, tocando vários instrumentos. A perda da mão o abalou, foi motivo de desespero, mas, como se diz, um dia a vida veio e Don Angel recomeçou com o violino. Toca até hoje. Na segunda à tarde, ele foi entrevistado no quarto de hotel. Repousava um pouco. Em São Paulo desde domingo, havia aproveitado para passear na Paulista. "Compramos sapatos, que aqui são melhores". Elpidia abre o pacote, mostra o elegante calçado preto. Daqui a pouco chega Gerardo Taracena, que também é ator de El Violín. Vem ensaiar com Don Angel, que, à noite, pretendia tocar para o público, na exibição do filme na Sala UOL. Participar de um filme político como El Violín foi algo que lhe agradou muito. "Estive sempre contra a injustiça", define-se. O México saiu de um tumultuado processo que resultou na eleição de Felipe Calderón para presidente. "Houve fraude", diz Elpidia. O repórter lembra que estava na Cidade do México, quando ocorreram aquelas passeatas de protesto. Dezenas de milhares de pessoas, talvez centenas, vindas de todo o México, gritavam em torno da Praça Central do Zócalo, onde fica o Palácio do Governo - "Calderón, ladrón?. Ambos, Don Angel e Elpidia, são partidários de Lopes Obrador, o candidato das classes trabalhadoras. "É como somos", ela diz. Antes do longa premiado em Cannes - Don Angel Tavira recebeu o prêmio de melhor interpretação masculina do júri presidido pelo cineasta Monte Hellman -, ele havia feito o curta El Violín, também de Francisco Vargas Quevedo, e logo o documentário, ambos servindo como preparativos para o a versão estendida que o diretor Vargas Quevedo nunca deixou de querer realizar. Don Angel não ficou intimidado diante da câmera? Mas por que ficaria? Tocando violino ou dando aulas, ele sempre ficou frente a uma platéia. "E Francisco (o diretor) soube contar a história com muita emoção, nos envolvendo a todos no projeto", conclui. O Violino (2006, 98 min.) - Faap. Rua Alagoas, 903, (11) 3662-7332. Amanhã (1), 19 h

Agencia Estado,

01 Novembro 2006 | 10h45

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