Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Mostra exibe novo filme de Kiarostami

Cineasta iraniano vai ao Japão e fala de casais no longa 'Um Alguém Apaixonado'

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

31 Outubro 2012 | 11h20

Abbas Kiarostami não tira os óculos escuros para falar com o repórter. E ele não abre mão de falar em farsi, o que força a presença do intérprete. O grande diretor também traz um assessor – de repente, são quatro à mesa para a entrevista que perde toda a possibilidade de virar alguma coisa mais íntima e reveladora. Ele responde a tudo. É afável, mas o distanciamento está criado, um pouco como nos seus filmes.

Kiarostami está em São Paulo exibindo o novo filme. Depois de Cópia Fiel, rodado na Itália, mais exatamente na Toscana, ele está de volta com Like Someone in Love, Um Alguém Apaixonado, feito no Japão. Outro casal – uma garota de programa e um homem mais velho. Ela chora porque não pode se encontrar com a avó, mas Kiarostami (o filme) não esclarece porquê. E mantém uma ligação com um jovem mecânico, que tenta agredir o velho (por ciúme?). O idoso, o professor Takashi, não se envolve com a garota pelo sexo. Ele quer algo mais, embora o filme também não esclareça o que é isso.

Como já há algum tempo em sua obra, Kiarostami exige um espectador ativo, coautor do drama. Sua norma é retirar a plateia da zona de conforto. Ou o público participa, e tenta preencher os vazios da narrativa, ou o filme parecerá vago, inconsistente. A própria participação pode ser que não resolva os enigmas propostos pelo autor – o enigma, posto que, como em todo filme dele, o que está em xeque é a linguagem (e a posição relativa do espectador). Uma boa forma de iniciar a conversa é justamente investigando as diferenças culturais.

Houve algum tipo de choque? O Japão parece tão diferente do Irã, ou da Itália. “Existem diferenças, por certo. De língua, de cultura, mas quanto mais você se aprofunda na diversidade descobre que a essência é a mesma. A problemática do casal não muda.” O tsunami teve algum efeito sobre a filmagem? Ele fica constrangido de dizer que foi benéfico. “Como a filmagem atrasou, tive mais tempo de preparação.” A garota aceita o sexo por dinheiro, não teria problemas em se dar para o professor, mas Takashi resiste. Por que? “Homens e mulheres têm expectativas e necessidades diferentes numa relação”, avalia Kiarostami. E aqui ele ajuda a esclarecer o maior enigma de Cópia Fiel. No outro filme, por intermédio de Juliette Binoche e William Shimell, ele discutia o original e a cópia na obra de arte. Certo? Em termos – como no inglês, couple, casal em italiano é copia, la copia, e se Kiarostami falava de algum tipo de arte era a do relacionamento.

O assunto termina caindo em Leon Cakoff, criador da Mostra, morto no ano passado, e Renata Almeida, que agora leva adiante o evento. “Tive um choque ao encontrar Renata sozinha. Sempre a via com Leon. Formavam um casal que parecia indissociável”, ele diz. Casais são complicados, mas quem diz que isso não é bom? Cada relação tem a sua história, como cada filme tem a sua estrutura. Em Cópia Fiel, Juliette e Shimell formavam um casal, ou não? Aqui, se não viram amantes, Takashi e a garota parecem avô e neta. E a história deles não tem começo nem fim. “Depende do olhar de quem vê”, diz Kiarostami.

Uma arte da ambiguidade, que ele constrói no roteiro para desconstruir na filmagem e na montagem. Os filmes são 100% escritos para que seus autores e ele possam ser livres no set – é curioso, mas também foi isso que o bielo-russo, criado na Ucrânia, Sergei Loznitsa também disse para o repórter sobre o seu método, em outra entrevista realizada na Mostra.

Kiarostami tem filmado fora do Irã, mas esclarece que precisa voltar – sempre. “Não conseguiria viver fora”, esclarece. As condições são difíceis, mas os jovens sofrem mais no regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

O próximo filme será feito em parte numa estrada no Irã e na outra parte numa estrada na Itália. De novo entre dois mundos, duas culturas, Kiarostami diz que sai de casa para conhecer a casa do amigo. No processo, o que tenta é conhecer a si mesmo.

UM ALGUÉM APAIXONADO

Espaço Itaú Frei Caneca - Nesta quarta-feira, 31, às 16h50

Cinemark Shopping Cidade Jardim - Quinta-feira, 01, às 21 h

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