Mostra exibe cinema independente em SP

A 2ª Semana do Cinema Brasil & Independentes, organizada pelo Espaço Unibanco de Cinema, traz a São Paulo a partir desta sexta-feira algumas das melhores (e piores) produções cinematográficas do mundo com baixo orçamento. Muitas vezes dirigidos por diretores de renome, como Paul Thomas Anderson (que fez Magnólia), Augustín Villaronga (El Niño de La Luna) e o brasileiro Sérgio Rezende (Canudos), os filmes serão exibidos no Espaço Unibanco e na Cinemateca, entre os dias 7 e 13 de julho. A abertura, nesta sexta-feira, será com a projeção de Quase Nada, longa de Sérgio Rezende que custou por volta de US$ 390 mil, quinze vezes menos que suas superproduções Mauá - O Imperador e O Rei e Canudos. O diretor é da opinião de que no Brasil não existem de fato filmes independentes, mas sim filmes baratos, "pois raramente há por aqui filmes subsidiados por grandes companhias e distribuidoras. O caixa é quase sempre conquistado a partir de alguma concorrência legal", explica."Dependentes" ou não, o fato é que todos os filmes participantes da semana foram produzidos com orçamento abaixo dos US$ 500 mil, e a grande maioria é inédita para o público paulista. O filme Hard Eight, por exemplo, é o primeiro longa de Paul Thomas Anderson, de 1996 (anterior até mesmo à Boogie Nights - Prazer Sem Limites, de 97), e conta com Gwyneth Paltrow e Samuel L. Jackson no elenco. No total, serão oito filmes estrangeiros e três brasileiros na mostra principal; mais três brasileiros que integram a categoria Fora de Circuito (feitos com orçamento baixíssimo, por diretores amadores); e 13 brasileiros que integram a categoria Os Independentes no Tempo, com filmes feitos no país no período de 1956 a 1982. Debates, workshops e bate-papos com os realizadores e gente especializada no assunto também acontecerão no decorrer da semana (veja abaixo link para o calendário de atividades).Independência ou morte - A brasilidade da Semana de Cinema está mais que aparente, dado o número de produções nacionais que serão exibidas. "É importante que se estimule o cinema independente brasileiro, pois é principalmente nessa área que deveria ser incentivado o apoio financeiro", opina Paulo Caldas, diretor de Baile Perfumado (1997), que está trazendo o premiado documentário O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, que dirigiu ano passado junto com Marcelo Luna. Segundo Caldas, fora o fato de existirem profissionais extremamente competentes no cinema independente, há três razões essenciais para que o mercado preste atenção nestes filmes: são mais baratos, são mais lucrativos, e dão maior liberdade criativa. "Muitas vezes você vê megainvestimentos que não obtêm retorno comparável. No independente você investe muito menos que a metade na produção, e já tem retorno... Se houvesse mais verba para distribuição, o lucro seria ainda mais significativo", diz Caldas. Ele reforça que o público também tem procurado mais inteligência nas telas brasileiras, por isso é importante a liberdade criativa. "A maioria que viu Baile Perfurmado e Rap do Pequeno Príncipe... preferiu o segundo, que é bem mais reflexivo".Rezende concorda: "existe uma burrice de mercado em achar que público gosta só de filme caro. Na verdade todo diretor procura fazer filmes com maiores orçamentos, mas qualidade acaba saindo independente disso". Como o grande mito para a maior parte dos cineastas brasileiros da atualidade é a palavra "captação", diretores acabam cada vez mais partindo para produções de orçamento mais modesto. "Tenho dificuldades em captar, mas ao mesmo tempo não quero deixar de filmar, então essa acaba sendo a alternativa", afirma Caldas. "Tinha muita vontade de fazer este filme, e iria concluí-lo com o quanto conseguisse de dinheiro", confirma Rezende.A Semana de Cinema acaba mostrando que a realidade do cinema brasileiro é muito mais independente do que o contrário. Na categoria Fora de Circuito estará, por exemplo, o longa No Eixo da Morte, que se tornou um clássico para os garimpeiros de cinema alternativo brasileiro. O diretor, Afonso Brazza, é um bombeiro brasiliense que raramente gasta mais de R$ 5 mil em seus filmes, nos quais geralmente faz o papel principal - um valente rambo do cerrado. Brazza está sempre tentando fazer cinema, quase sempre filmes com títulos bizarros, como Índios Navarros em Trevas de Pistoleiros Entre Sexo e Violência. Outros participantes da paralela são o camêlo Simião Martiniano, de Recife, que fora A Moça e o Rapaz Valente - participante da mostra - tem outras seis produções na sua filmografia; e o professor de caratê Marcos Ferreira, de Cascavel (PR), que traz para a mostra Fronteira Sem Destino, filme que fez depois de ganhar algum vendendo sua academia. Na mostra Os Independentes No Tempo estarão títulos marginais de cineastas como Walter Lima Júnior e Inácio Araújo (Na Boca da Noite, de 1970, e o média-metragem Aula de Sanfona de 1982, respectivamente). Também merecem destaque Cassy Jones, o Magnífico Sedutor (1972), de Luís Sérgio Person, Um Caso de Polícia (1959), de Carla Civelli, O Pacto (1965), de Eduardo Coutinho e Blá, Blá, Blá (1975), de Andrea Tonacci.Os debates e workshops trarão convidados como o jornalista Marcelo Tas, Elena Vilardell (representante do Fundo de Cultura Hispanoamericano Ibermedia), o diretor mexicano Jorge Sanchez, o diretor espanhol Agustín Villaronga e o cineasta argentino Fernando Solanas, diretor de A Nuvem.

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