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Mostra evidencia os outros tons do arco-íris

Transexuais ganham destaque na programação da 35º Mostra Internacional de Cinema de SP

Marcio Claesen, estadão.com.br

24 de outubro de 2011 | 12h06

Se os LGBT estão cada vez mais inserindo-se na sociedade e conquistando direitos, no cinema, porém, uma das letrinhas desta sigla ainda permanece marginalizada: o T, de travestis e transexuais. Trata-se de um grupo que pode causar estranhamento, medo e repúdio até dos próprios homo e bissexuais.

Aqui e ali, o tema é discutido em cinematografias do Hemisfério Norte. Tímido, o Brasil tateia na questão. Seja num filme histórico para o gênero (Vera, de 1987, deu à Ana Beatriz Nogueira o Urso de Prata de melhor atriz em Berlim) ou em um recente trabalho documental ainda inédito nas telas (Meu Amigo Claudia, de 2009, sobre a travesti Claudia Wonder), tivemos exemplos de que a abordagem bem realizada deste assunto rende excelentes longas-metragens.

A 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está mais enxuta - são 250 filmes contra 400 da última edição - mas mesmo assim oferece boas opções sobre este universo que frequentemente resvala na prostituição, nas drogas, nas igrejas evangélicas e nos consultórios psquiátricos, mas também revela obstinação, caráter incomum e dualidades de personalidade que vão além de seus sexos.

'Olhe pra Mim de Novo', de Claudia Priscilla E Kiko Goifman

"A discussão sobre a transexualidade nasceu com o desejo de discutir famílias", diz Kiko Goifman ao estadão.com.br sobre o documentário Olhe pra Mim de Novo que dirige ao lado da mulher, Claudia Priscilla. O casal foi até o Nordeste e por meio de pesquisas encontrou Sillvyo Lucio, um transexual com uma filha adulta que não o aceita, paquera todas as moças que vê pela frente - mesmo estando numa relação estável com a mulher - e que deseja fazer uma cirurgia de adequação de sexo.

O personagem pareceu tão rico aos diretores que virou o fio condutor do longa. É Sillvyo, acompanhado pela equipe, quem conduz as entrevistas que começa em Pacatuba (CE) e segue por cidades do sertão nordestino. Lá, eles visitam instituições e residências onde encontram pessoas que nasceram "diferentes", por serem portadoras das mais variadas síndromes - em alguns casos, por casamentos consanguíneos - ou mesmo famílias que tiveram bebês trocados no hospital. A maternidade e a paternidade, a aceitação do outro, o ato de se permitir enxergá-lo além das aparências, perpassam o longa que concorreu em Gramado e levou o prêmio especial do júri no último Festival do Rio.

 

'O Céu sobre os Ombros', de Sérgio Borges

Documentário ou ficção? Essa é a dúvida que deixa o espectador inquieto durante toda a projeção de O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges, grande vencedor do Festival de Cinema de Brasília em 2010. Na realidade, "os atores representam o próprio cotidiano", esclarece Everlyn Barbin, após a sessão em São Paulo. O diretor escolheu trabalhar com não-atores e selecionou, através de testes e pesquisas, três personagens que revelaram, à equipe, desde o seu dia-a-dia até seus medos, sonhos e frustrações.

Um deles é a transexual Everlyn. Professora durante o dia e prostituta à noite, Everlyn fala sobre sua dissertação de mestrado, da tristeza de não poder ver a avó e mostra a rotina dos programas sexuais nas ruas escuras de Belo Horizonte. Everlyn não revela se o encontro foi real ou encenado, mas diz que o sofrimento pelo afastamento dos familiares à época das filmagens era real e foi utilizado no processo do longa.

 

'Carne de Neon', de Paco Cabezas

Saindo do Brasil e chegando à Espanha, Carne de Neon conta com um ritmo frenético e explora o submundo do crime e das drogas, lembrando por vezes Guy Ritchie e Alejandro González Iñárritu. O longa de Paco Cabezas mostra a história de um rapaz de 23 anos, Ricky (Mario Casas), criado nas ruas e que sonha em montar um bordel para agradar a mãe que sairá da prisão em breve (participação de luxo da grande Ángela Molina).

Ricky convive com prostitutas e cafetões e vai se envolver com bandidos perigosos que dominam esse "mercado" no intuito de realizar a fantasia da mãe (que nem sequer se lembra do filho já que sofre de Alzheimer). Em meio a tantos tiros e sangue, o conforto da história aparece na transexual La Infanta (Dámaso Conde).

Após ser convencida por um diretor de filmes pornôs, Infanta tem por único objetivo realizar a operação de adequação de sexo para se tornar uma estrela da indústria de filmes adultos. Com diálogos almodovarianos, a transexual, que também tira seu sustento das ruas - como boa parte delas em qualquer lugar do mundo - responde pelos momentos divertidos deste conto de violência e prostituição.

 

 

35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Olhe pra Mim de Novo

29/10 - 15h40 na Cinemateca, Sala BNDES

Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clemententino

02/11 - 22h40 no Unibanco Arteplex 4

Rua Frei Caneca, 569, 3º piso do Shopping Frei Caneca

 

O Céu Sobre os Ombros

25/10 - 18h no Cine Sabesp

Rua Fradique Coutinho, 361, Pinheiros

28/10 - 19h no Cinusp

Rua do Anfiteatro, 181, Colmeia Favo 4

29/10 - 16h20 no Unibanco Arteplex 3

Rua Frei Caneca, 569, 3º piso do Shopping Frei Caneca

02/11 - 19h10 no Cinesesc

Rua Augusta, 2075, Jardins

 

Carne de Neon

24/10 - 20h10 no Cine Livraria Cultura 2

Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional, Jardins

 

Ingressos

Segundas, terças, quartas e quintas: R$ 14 (inteira) e R$ 7 (meia)

Sextas, sábados e domingos: R$ 18 (inteira) e R$ 9 (meia)

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