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Mostra em Ouro Preto discute o papel da TV na cultura brasileira

Preservação e destruição das cidades do Brasil também foram tema de debate em evento realizado nas Minas Gerais

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2016 | 20h43

OURO PRETO - Com o documentário Crônica da Demolição, de Eduardo Ades, foi encerrada a 11.ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. O filme tem tudo a ver com um festival que tem sede em cidade histórica, tombada pelo Patrimônio Histórico, joia maior do Ciclo do Ouro mineiro. Fala de preservação, destruição, e da maneira como nossas cidades escolheram crescer ao abordar a demolição do Palácio Monroe, no Rio de Janeiro. O edifício, construído em 1904, abrigou o Senado Federal e perdeu essa função com a transferência da capital para Brasília. Acabou demolido por uma confusa conjunção de interesses econômicos, antipatia dos modernistas pelo estilo eclético da sua arquitetura e pela prosaica razão de que atrapalhava a circulação de veículos na Cinelândia. Hoje, em seu lugar, existe um chafariz sem água e um estacionamento subterrâneo. A fonte permanece desligada para evitar que indivíduos indesejáveis, como moradores de rua e moleques, venham nela se banhar.

Realizada do dia 22 até 27 de junho, a Mostra de Ouro Preto não tem caráter competitivo. Estrutura-se em três eixos principais – preservação, história e educação. Projeta filmes – no telão da Praça Tiradentes e no Cine Vila Rica. E organiza seminário e debates – estes no Centro de Convenções, instalado numa antiga indústria metalúrgica. Os debates começam pela manhã e se estendem até o início da noite. Reúnem professores, historiadores, pesquisadores, cineastas, cinéfilos e críticos de cinema, além da população da cidade. Gente que deseja ainda pensar a cultura e o País. Os debates este ano foram bem intensos e concorridos.

Um deles foi Fragmentos da Vida: sobre Um Dia na Vida, de Eduardo Coutinho (1933-2014), reunindo Cezar Migliorin, Consuelo Lins e João Moreira Salles, com mediação de Francis Vogner dos Reis. Debateu-se o filme enigmático de Coutinho sobre a TV aberta brasileira. Sem preconceitos, Coutinho reuniu várias horas de material dos canais abertos e montou-as num longa-metragem que expressa o horror da nossa TV, mas é também via aberta para a compreensão da mentalidade popular. Em outro debate, falou-se dos filmes de transição da ditadura para a democracia, estudando-se um período que, por boas razões, acredita-se estar na raiz da crise política brasileira atual.

No encontro mais concorrido, celebrou-se a série televisiva Vigilante Rodoviário, grande sucesso nos anos 1960, com a presença do próprio Vigilante, o ator Carlos Miranda, de 83 anos. Foi emocionante.

Bach. Na Praça Tiradentes, uma das atrações principais foi o filme Filhos de Bach, de Ansgar Ahlers, coprodução Brasil e Alemanha filmada quase inteira em Ouro Preto. A história é a de um músico alemão que herda uma partitura original de Johann Sebastian Bach e precisa deslocar-se até a cidade mineira para recebê-la. Entra em contato com os meninos carentes da região, resolve dar-lhes educação musical e formar uma orquestra juvenil que toque Bach em ritmos brasileiros. A parte musical é bem boa.

Como não há mostra competitiva no CineOP, também não há vencidos ou vencedores em Ouro Preto. Todos saem ganhando.

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