Mostra em Londres conta a história da arte de protesto

'Disobedient Objects', em cartaz no Victoria & Albert Museum, revela os objetos que são também armas do ativismo político

Flavia Guerra/ Londres, O Estado de S. Paulo

14 Setembro 2014 | 03h00

Durante a greve geral que parou a Espanha em 2012, entre cartazes, placas, máscaras de gás, gritos de guerra e camisetas com palavras de ordem, um objeto não muito bem identificado, mas extremamente notado chamou a atenção mundial. Era um imenso cubo metálico inflável. Lúdico, ele deslizava pelas mãos da multidão e pelo chão, refletindo a luz e impedindo que fotos dos protestantes fossem feitas. Funcionou também como barreira entre a população e a polícia. O aparato fez tanto sucesso que a mídia mundial logo investigou quem eram os criadores do ‘cubo refletor’. 

Pois era criado pelo artista Artúr van Balen para o coletivo alemão Eclectic Electric Collective. Arma poderosa e, ao mesmo tempo, não perigosa, o cubo metálico entrou para a história dos protestos, do design e, por que não, da arte da década de 2000. 

São objetos controversos como este que integram a mostra Disobedient Objects, que o Victoria & Albert Museum de Londres realiza até fevereiro de 2015. Meca das exposições sobre design e moda, o V&A, mais uma vez, é pioneiro ao realizar a primeira exposição que explora o papel poderoso que os objetos têm na gênese de movimentos sociais e políticos. Os ‘objetos desobedientes’ provam que ativismo político tem tudo a ver com a criatividade e a engenhosidade do design. 

Quem puder visitar a exposição vai se deparar com uma verdadeira arqueologia da arte de protesto. São objetos de todas as partes do mundo, dos folclóricos tecidos coloridos chilenos, que denunciam a violência política, passando por um robô grafiteiro que pinta frases de protesto. 

A Disobedient Objects forma um exército único da memorabilia das lutas sociais. Na coleção garimpada pela curadoria da mostra em galerias, associações e oficinas de artistas de diversos países, há ainda uma bandeira bordada com os gritos de guerra do partido Unite, de Manchester, empunhada durante as manifestações contra os cortes no NHS (Sistema de Saúde Nacional) britânico em 2013. Em exposição, estão também moedas, desenhos feitos para ilustrar barricadas e bloqueios, marionetes, bonecos, bicicletas, vídeos, pôsteres, cartazes, canecas, camisetas até bonecos da Revolução Zapatista no México. 

Apesar da mostra lançar seu olhar sobre o final dos anos 1970 até o presente, fase que trouxe um novo ciclo de lutas sociais e novas tecnologias em todo o mundo, os objetos contemporâneos, como o cubo inflável, exercem fascínio particular. 

Mas é inegável o fascínio que os infláveis do Eclectic Electric Collective exercem. “Sempre trabalhamos em colaboração. Em geral, a gente é convidado por um grupo local de arte ou de ativismo. Com os membros dos grupos, discutimos que figura ou objeto devemos construir para melhor nos comunicarmos. E então fazemos workshops para ensinar a fazê-los. Tentamos sempre encontrar símbolos que dialoguem com o imaginário popular e contenham vários significados”, explicou Balen à equipe do V&A. 

Hoje, o grupo de Balen se chama Tools for Action e continua a preparar infláveis para diversas causas e efeitos. Além do cubo, um dos mais marcantes foi um martelo inflável gigante, que simbolizava os gritos dos que rompiam os muros da ONU, onde, em Cancún, em 2010, autoridades discutiam a mudança climática. “Todas as agências de notícia mostraram as imagens da multidão ‘martelando’ as grades. E a polícia mexicana simplesmente destroçou o balão. Foi o momento em que entendemos que os infláveis podiam criar espetáculos midiáticos, e ser uma metáfora do próprio imediatismo da mídia.”

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