Leo Lara/Universo Producao
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Mostra de Tiradentes traz debate sobre as múltiplas 'telas' do cinema

Em três dias de evento, muito já se discutiu sobre o lugar da arte num período de mudanças técnicas e estéticas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2015 | 18h42

TIRADENTES - Em apenas três dias de Mostra de Tiradentes – de sexta a domingo –, muito já se discutiu, aqui no interior de Minas, a questão das múltiplas telas e do lugar do cinema num período de transformações técnicas e estéticas como o atual. Tiradentes é o território por excelência do novo. E o curioso é que é uma cidade histórica. Essas ladeiras, casas, pedras têm histórias no Brasil. E aqui se celebram novos autores, novas linguagens. A Mostra Aurora é a menina dos olhos de Tiradentes. Começa nesta noite de segunda-feira, 25. Portanto, quando o repórter escreveu esse texto, a Mostra Aurora ainda era uma promessa.

Mas a discussão já vinha de antes. O Cinema na Praça virou palco da velha rivalidade entre Atlético e Cruzeiro. O Dia do Galo, documentário de Cris Azzi e Luiz Felipe Fernandes, transforma um jogo decisivo do Galo numa jornada épica. Atlético e Olímpia, final da Copa Libertadores, um título inédito no Mineirão. A dupla de diretores vê o jogo pelos olhos de diversos personagens emblemáticos da paixão de uma torcida. Um padre, uma vovó, suas netas, um locutor esportivo que nem pensa em ser isento, um velho garçom que até parece desligado, servindo os clientes do bar, um torcedor solitário, em casa, outro que comanda a torcida, no meio do Mineirão. Talvez você precise gostar mais de cinema que de futebol, mas o filme é bem filmado e, principalmente, montado. Tem ação, emoção, suspense, humor. Os cruzeirenses fugiram da praça. Os gritos de ‘Galo!’ ecoavam a cada gol, como se o tempo na tela fosse real e o jogo estivesse ocorrendo naquele momento.

Também na praça passou Nervos de Aço, o musical de Maurice Capovilla inspirado em músicas de Lupicínio Rodrigues, o compositor gaúcho cujo centenário se celebrou no ano passado e cujas letras são a súmula da dor de cotovelo. Já existe Vingança – O Musical, em que as letras do velho Lupi se misturam para construir uma trama daqueles amores atravessados que o inspiraram. No filme de Capô, é a montagem de um espetáculo e as paixões, os ciúmes e demais sentimentos viscerais dos que participam do projeto. Arrigo Barnabé lidera o elenco e propõe, como é do seu feitio, uma releitura atonal das músicas. Não é para todos os gostos, e com certeza, não foi para o do repórter, que prefere o Lupi menos distanciado, mais passional.

Dos destaques já testados em outros foros, A Despedida, de Marcelo Galvão, premiado em Gramado, fez o público se emocionar com a história do velho Nelson Xavier que tem um tórrido affair com Juliana Paes. Nelson contou que estava em pleno processo quimioterápico durante a filmagem e que foi fundo no desejo de vida que o idoso experimenta no sexo com a mulher mais jovem. Galvão disse que busca recursos para o lançamento, e não acredita que ele venha a ocorrer antes do segundo semestre, um ano depois de Gramado. É pena, porque se trata de um filme belíssimo, emocionante, e com potencial de público. 

Obra, de Gregório Graziosi, premiado no Festival do Rio, ganhou uma singular atualidade com o escândalo do Lava Jato. No filme, o arquiteto Irandhyr Santos é confrontado com a evidência de crime nos corpos encontrados no canteiro de obras do terreno de sua família. A produtora Zita Carvalhosa devia aproveitar o embalo para tentar lançar logo o filme. Outro atrativo – Graziosi acaba de ganhar um prêmio de direção no México. Tudo isso soma pontos.

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