Mostra de Tiradentes premia "Lavoura Arcaica"

Comemoram-se, neste mês dejaneiro, 300 anos de fundação da histórica cidade mineira quesurgiu como São José del Rey e trocou de nome, no fim do século19, em homenagem ao mártir da Inconfidência. Com seu casarioantigo emoldurado pelo chapadão da Serra de São José, Tiradentesjá é patrimônio cultural do Brasil e espera ser, a partir do anoque vem, da humanidade, após apresentar sua candidatura àUnesco.Há cinco anos a Universo Produções realiza a Mostra deCinema de Tiradentes. A deste ano ocorreu de 18 a 26. Tevepatrocínio da Telemar e da BR Distribuidora. Terminou no fim desemana com a entrega dos prêmios do público, nas categorias devídeo, curta e longa. O melhor vídeo foi Oscar Araripe, deCésar Tolentino, o melhor curta, Onde Andará PetrúcioFelker?, de Allan Sieber, e o melhor longa, LavouraArcaica.Não deixa de ter sido um resultado surpreendente. Pormais bem aplaudido que tenha sido o filme que Luiz FernandoCarvalho adaptou do romance de Raduan Nassar, a estrondosaovação do público para Samba Riachão apontava para a vitóriado documentário de Jorge Alfredo sobre o compositor baiano.Orçado em R$ 557 mil, o festival teve 47 sessões, durante asquais foram exibidas, gratuitamente, 121 obras para um total de34 mil espectadores.Foram oito dias de projeções e debates. O conceito damostra deste ano privilegiou o cinema de autor e o ator, comhomenagens a Júlio Bressane e José Lewgoy. O cinema brasileiro éautoral? Era uma interrogação que o catálogo da mostra fazia,mas poderia ser uma afirmação. O cinema brasileiro é autoral,até pelas peculiadidades do seu sistema de produção. Apesar dealgumas tentativas, não existe aqui um sistema de estúdio como ohollywoodiano. O diretor é, na maioria das vezes, autor doroteiro, busca os recursos no mercado e, portanto, produz opróprio filme, batalha pela distribuição e pela exibição. Nestequadro, só pode ser um autor.Mas o conceito da autoria liga-se, também, à politiquedes auteurs, defendida pela crítica francesa e formuladaprincipalmente nos Cahiers du Cinéma. O autor é aquele que marcao filme com sua visão de cinema e do mundo. Neste sentido,poucos diretores brasileiros são tão autores como JúlioBressane. Basta comparar sua adaptação de Memórias Póstumas deBrás Cubas com a que André Klotzel fez do mesmo livro deMachado de Assis (e que integrou a programação da 5.ª Mostra deTiradentes).Poderia ter dado uma discussão interessante, até porquehouve uma mesa-redonda sobre cinema e literatura, tentandodescobrir quais os caminhos para uma adaptação literáriafuncionar bem na linguagem cinematográfica. Os debatedores, quedispunham desses exemplos, ignoraram a adaptação de Klotzel e atranscriação de Bressane. Apesar desses percalços - e das chuvasque prejudicaram as sessões ao ar livre, na praça -, a Mostra deTiradentes firma-se cada vez mais e adquire credibilidade. Noano que vem tem mais.

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