Mostra de Tiradentes começa amahã

O ator Gianfrancesco Guarnieri e o cineasta Eduardo Coutinho são os homenageados da 6.ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que começa amanhã na histórica cidade mineira, berço do inconfidente José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes. Até a Proclamação da República, em 1889, a cidadezinha, patrimônio barroco, chamava-se São José del Rey, em homenagem a dom José, rei de Portugal. Por influência republicana, ganhou o nome de seu filho mais ilustre. Guarnieri e Coutinho receberão o Troféu Barroco pelo trabalho no cinema brasileiro. O primeiro será lembrado com a exibição do filme Eles não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman, que o tem como ator e fonte. Afinal, o filme é baseado em sua peça mais famosa. O segundo terá seu mais novo documentário, Edifício Master, exibido na noite de abertura do Festival. Coutinho, que este ano entra para o clube dos septuagenários, é o mais influente documentarista da história do cinema brasileiro. Durante nove dias (a festa de encerramento será no sábado, 1.º de fevereiro), a população da cidade (de apenas 4.450 habitantes) e turistas assistirão a 26 longas brasileiros, entre eles Rua Seis, s/n, de João Batista de Andrade; Samba Canção, de Rafael Conde; Desmundo, de Alain Fresnot; Seja o Que Deus Quiser, de Murilo Salles; Durval Discos, de Anna Muylaert; Dois Perdidos numa Noite Suja, de José Joffily; Celeste & Estrela, de Betse de Paula; A Festa de Margarette, de Renato Falcão; e Banda de Ipanema, de Paulo Cezar Saraceni. O festival não é competitivo, mas o público elege o melhor longa, curta e vídeo. Para traçar diferencial com outros festivais brasileiros, o evento ocorre sob elaborada curadoria. Este ano, o tema central é Heróis do Cotidiano no Cinema Brasileiro. Roberta Canuto, curadora da seleção de longas, observa: "Presenciamos, hoje, no cinema brasileiro, momento em que a força de grandes épicos protagonizados por heróis oficiais foi demolida." Em seu lugar aparece "a verdade arrebatadora dos anti-heróis contemporâneos". Ou seja, "de indivíduos que são, antes de tudo, personagens do cotidiano e da crônica do anonimato. Gente que poderia estar do outro lado da tela, assistindo à sua vida roteirizada pelo cinema". Para ilustrar o foco adotado, Roberta escalou filmes como Cidade de Deus, com suas crianças e adolescentes que fazem do tráfico de drogas seu ofício; Ônibus 174, sobre o seqüestrador Sandro do Nascimento, que esteve, por cinco horas, na mira das câmaras de TV do País; e Amarelo Manga, com seus anônimos personagens do lumpen-proletariado recifense. Na área do curta, a curadora Daniela Azzi estabeleceu seis blocos temáticos e por eles distribuiu os 42 títulos selecionados. O primeiro prestigia Novos Realizadores. Foram escalados Águas de Romanza, de Patrícia Baía e Gláucia Soares; Cidades Possíveis, de Safira Lyra; Tabaco, de Henrique Rodrigues; Baseado em Histórias Reais, de Gustavo Moraes; Cego e Amigo Gedeão à Beira da Estrada, de Ronaldo Palatinik; No Bar, de Stringhini e Mendonça; e O Encontro, de Marcos Jorge. No programa Geração Curta estão nomes festejados como Patrícia Moran (com Plano-Seqüência, selecionado para o Festival de Berlim); Ana Luíza Azevedo (Dona Cristina Perdeu a Memória), Philippe Barcinski (Janela Aberta), José Roberto Torero (Morte), José Eduardo Belmonte (Um Trailer Americano); Gustavo Spolidoro (Domingo) e Gilson Vargas (Vaga-Lume). Os curtas sintonizados com temas da realidade social, política e cultural brasileira estão no bloco Brasil na Real. A curadora Daniela diz que este programa, "um especial composto só com documentários, é uma extensão da homenagem que o festival presta a Eduardo Coutinho, mestre do gênero". Dele fazem parte os documentários Vaidade, de Fabiano Maciel; À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel; Dadá, de Eduardo Waisman; Uma Pequena Mensagem do Brasil ou A Saga de Castanha e Caju contra o Encouraçado Titanic, de Walter Salles e Daniella Thomas; e Como Se Morre no Cinema, de Luelane Correia. O bloco Curtos Contos de Amor reúne histórias românticas (ou quase). Entre eles, há três títulos escalados para festivais internacionais - O Céu de Iracema, de Iziane Mascarenhas (Berlim), No Passo da Véia, de Jane Malaquias, e Mutante, de Rossana Foglia e Rubens Rewald. Completam o programa, o delicioso Isaura, de Alex Sernambi; Remédios de Amor, de João Vargas; Suspiros Republicanos ao Crepúsculo de um Império Tropical, de Svartman e Lavigne, e Alumbramentos, de Laine Milan. Quem se assustou com as ousadias e amoralidade de Em Nome do Pai, de Júlio Pessoa, poderá revê-lo dentro do bloco Encontros Inusitados, ao lado de Ver Tigem, de José Sette; Equilíbrio e Graça, de Carlos Reichenbach; O Alferes e o Poeta, de Rogério Terra Jr; O Pesadelo, de Tomás Creus; Ofusca, de Flávio Frederico; O Poço, de Tarcísio Lara; Carro-Forte, de Mário Diamante; e A Encomenda, de Alain Minas. Um programa inteiramente destinado ao Curta de Animação será exibido em horário nobre e também na Mostrinha de Tiradentes, que reúne curtas e longas, como Aventuras da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa, e O Cangaceiro Trapalhão, de Daniel Filho, dedicado ao público infantil. Entre os títulos animados estão o belíssimo O Lobisomem e o Coronel, de Elvis Kleber e Ítalo Cajueiro; Em Busca da Cor, de Thelmo Carvalho; Pequeno Perfil de Um Cidadão Comum, de Everson Godinho; O Bloqueio, de Claudio Oliveira; Limpador de Chaminés, de Rodrigo John; El Chateau, de Victor Hugo Borges; e Lasanha Assassina, de Alê McHaddo. O segmento dedicado ao vídeo homenageará a realizadora paulista Inês Cardoso e promoverá a pré-estréia de Dormentes. De acordo com o curador de vídeos, Roberto Moreira, "a escolha da Inês baseia-se no caráter de seu trabalho, basicamente experimental, intimista e sensorial". Além de série retrospectiva da obra da homenageada, a programação de vídeo traz sete programas. Um deles apresenta os frutos das Oficinas Kinoforum de Produção e Realização, promovidas por Zita Carvalhosa em comunidades carentes da periferia de São Paulo. Tiradentes, durante o festival, ocupa 65% de suas pousadas com turistas e chega a 100% nos fins de semana. Muita gente, além de apreciar os monumentos tombados pelo Patrimônio Histórico em 1939, quer ver famosos do cinema, teatro e TV. Este ano, confirmaram presença a jovem e talentosa Débora Falabella; a paraense-carioca Dira Paes; Ary França (o Durval viciado em discos de vinil); a ousada Leona Cavalli; os jovens Alexandre Moreno e Benjamim Abras, de Uma Onda no Ar; e o veterano Daniel Filho, de Querido Estranho.

Agencia Estado,

23 de janeiro de 2003 | 14h32

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