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Mostra de Tiradentes celebra Andrea Tonacci, de 'Serras da Desordem'

Evento celebra a sua 19.ª edição

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2016 | 20h12

TIRADENTES - E a 19.ª edição da mostra na cidade mineira começou na noite de sexta-feira, 22, com a homenagem a Andrea Tonacci e a Serras da Desordem, comemorativa dos dez anos (e não 20) do longa do autor cultuado por sua contribuição ao ciclo do cinema marginal. Bang Bang é um clássico, não pelo formato narrativo, mas pela importância que adquiriu através dos anos. No palco do Cine Tenda, um emocionado Tonacci disse que uma homenagem desse porte “o obriga a repensar tudo”, a vida, a arte. No sábado, dia 23, houve uma coletiva em que o cineasta italiano radicado no Brasil foi tratado como mestre. Não representa pouco e, certamente, faz parte das contradições do ‘mercado’.

Por seu alto teor de invenção, o cinema de Tonacci destina-se a grupos, não a massas. Seu longa mais recente, Já Visto Jamais Visto, é um devir da memória que teve circulação reduzida, mas foi visto no circuito de arte e na periferia, onde esse tipo de cinema tende a ter uma recepção melhor que nos shoppings, nos quais os filmes são consumidos com pipoca e refrigerante. No Serras, em especial, explode na tela o tema em debate aqui em Tiradentes - Espaços em Conflito. 

No catálogo da mostra, o curador Cléber Eduardo escreve que o espaço é uma inevitabilidade do cinema. “Quaisquer corpos filmados estão situados em um espaço, interno ou externo, de estúdio ou em locações, porque o espaço é onde tempo e movimento estão impressos. Em muitos filmes, porém, o espaço é centro nervoso - partem dele os problemas, os mal-estares e as tensões que geram conflitos.”

É esse espaço, o da diferença, que a Mostra de Tiradentes e, dentro dela, a Aurora, celebram (no plural). Após as homenagens iniciais, a Mostra Aurora, que outorga prêmios da crítica e do público, iniciou-se segunda, 25, com o primeiro filme da competição: Índios Zoró - Antes, Agora e Depois?, de Luiz Paulino dos Santos. Figura histórica do Cinema Novo, Paulino foi ator de Nelson Pereira dos Santos em Mandacaru Vermelho e produtor de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Em 1982, ele fez o curta documentário Ikatena? Vamos Caçar, que marcou seu primeiro contato com o povo zoró. Trinta anos mais tarde, em seu regresso à tribo, Paulino reencontra os zorós evangelizados. O local em que vivem é a ilustração perfeita do espaço em conflito conceituado pela curadoria de Tiradentes. Os zorós distanciam-se de suas tradições, tornam-se aculturados na busca de aceitação por uma cultura (branca) e uma sociedade (competitiva) que os marginalizam, é o mínimo que se pode dizer. Não é uma realidade distinta da que Andrea Tonacci documenta, nas bordas da ficção, em Serras da Desordem.

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