Nereu Jr/Universo Producao
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Mostra de Tiradentes celebra a trajetória de Dira Paes

A paraense que atua na adaptação do livro ‘Órfãos do Eldorado’, do escritor Milton Hatoum, recebe o troféu Barroco

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 Janeiro 2015 | 19h18

TIRADENTES - Sexta-feira à noite, 23, no Cine-Tenda da 18.ª Mostra de Tiradentes. Dira Paes recebe a homenagem do evento, o troféu Barroco, por sua carreira de 30 anos no audiovisual brasileiro. Tudo começou quando o diretor inglês John Boorman fez da jovem paraense a índia por quem se apaixona o garoto inglês criado na selva, seu filho Charley Boorman. Dira hesitou depois. Virava engenheira, seguia atriz? Seguiu. No dia seguinte, sábado, num debate para celebrar sua trajetória, refletiu. “O que seria meu algoz (o tipo físico, a morenice da mulher do Amazonas) terminou sendo meu aliado.”

Não havia muitas atrizes como ela. Não havia nenhuma como ela. Uma atriz brasileira. As imagens projetadas no Cine-Tenda não deixaram dúvida. Cangaceira (Corisco e Dadá), gaúcha dos pampas (Anahy de las Misiones), crente do Recife (Amarelo Manga), até madame (a série Amores Roubados), Dira tudo faz, tudo pode. E ela revelou. Não gosta de mudar a aparência física. Algum detalhe de penteado, de roupa, para servir à personagem, sim, mas a mudança tem de vir de dentro, tem de ser interior. É assim que tem brilhado na tela, como no novo filme que abriu oficialmente a 18.ª Mostra de Tiradentes.

Ainda não era a Mostra Aurora, menina dos olhos de Tiradentes, que começa somente nesta segunda, 26. Naquela noite houve a apresentação especial de Órfãos do Eldorado, que Guilherme Coelho adaptou do romance de Milton Hatoum. Belas imagens, pesquisa sonora (não apenas musical) elaborada, o erotismo de Dira e a intensidade de Daniel de Oliveira, mas poderia ser a intensidade de Dira e o erotismo de Daniel – os dois têm tórridas cenas de sexo. Tantas qualidades podem atrair o público, quando o filme chegar às salas, no segundo semestre. Podem até encontrar defensores, mas uma versão (de um livro, uma peça) é sempre um olhar.

Encantaria. O de Guilherme Coelho faz escolhas (inusitadas?) em relação às personagens femininas e é discutível que o diretor tenha conseguido colocar na tela a encantaria amazônica do escritor. Daniel de Oliveira faz o herdeiro de uma família da elite que entra em choque com o pai por causa de uma mulher. Volta, anos mais tarde, para vivenciar a derrocada de sua classe e perseguir miticamente outra mulher. Outra? Existem mais mistérios na ficção de Guilherme Coelho que na encantaria de Hatoum, mas então por que o filme não arrebata? Será tema para se discutir no lançamento.

A Mostra de Tiradentes exibiu no sábado à tarde, na retrospectiva dedicada a Dira, um filme que não apenas resistiu como cresceu com o tempo. Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry, tem o desequilíbrio de seu protagonista masculino, mas a visceral atuação de Chico Diaz, a trilha, a paixão de Dira, tudo faz dele um filme mais rico e fascinante que pareceu ao repórter em 1996, quando ganhou as telas. Anteontem à noite, passaram dois filmes já consagrados em outros foros – A Despedida, de Marcelo Galvão, no Festival de Gramado, e Obra, de Gregório Graziosi, no Rio. Com a Mostra Aurora, Tiradentes começa para valer. O Animal Sonhado é obra de um coletivo do Ceará.

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