Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Mostra de São Paulo oferece possibilidade de experimentar a realidade virtual

'Chalkroom', de Laurie Anderson, é instalação virtual com experiência interativa; 'Ocupação Mauá', de Tadeu Jungle, é apenas um dos 21 filmes em RV disponíveis no Cinesesc

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2018 | 08h53

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo oferece pelo segundo ano consecutivo a oportunidade de o cinéfilo testemunhar os primeiros passos de uma nova linguagem cinematográfica: a realidade virtual.

Como parte da programação oficial, o Cinesesc exibe até a próxima quarta-feira, 31, 21 filmes em curta-metragem em realidade virtual. São documentários, animações e ficções pensados para o formato – os filmes têm uma visão 360º, possibilitada pelos óculos específicos.

No novo espaço anexo ao Cinesesc, fica a instalação Chalkroom, de Laurie Anderson – atração imperdível dessa Mostra. A obra é uma instalação visual, também em realidade virtual, que permite algumas interações e a exploração livre de uma gigantesca estrutura feita de palavras e desenhos feito com giz (chalk). A experiência, que tem entrada gratuita, fica disponível no local até o dia 16 de dezembro, e funciona das 14h30 às 21h30 – as sessões podem durar até 30 minutos, e comportam seis pessoas ao mesmo tempo.

Na obra, uma parceria de Anderson com o artista taiwanês Hsin-Chien Huang, o espectador fica sentado, coloca os óculos especiais, segura dois joysticks – e é então lançado para a “chalkroom”. Ali, há diferentes salas: em uma delas, um cachorro gigante assume novas formas conforme você se aproxima; em outra, você pode capturar a própria fala para formar estruturas menores que, quando tocadas, reproduzem sons digitalmente alterados; em outra, sua mão se transforma num centro de gravidade que retira as letras das paredes para formar um espetáculo com um quê de místico. Tudo isso guiado por uma trilha sonora etérea e pela voz de Laurie Anderson, que dado o contexto adquire um caráter surreal.

“A realidade virtual é geralmente sobre jogos ou tiros, numa estética muito frágil e brilhante”, disse Anderson ao Washington Post quando da inauguração de Chalkroom no Massachusetts Museum of Contemporary Art. “Nós fizemos algo que é cheio de sombras e escuridão. Para mim, é realmente um sonho virando realidade. Porque é sobre o que tentei em todas outras coisas que fiz. Música, escultura, cinema. Ser completamente incorpóreo.”

A interatividade, porém, não é o ponto dos outros filmes de realidade virtual sendo exibidos na Mostra, entre eles o vencedor de um Leão de Ouro no Festival de Veneza 2018 pelo uso da técnica, A Ilha dos Mortos, de Benjamin Nuel.

Uma produção que estreia na Mostra é Ocupação Mauá, curta metragem do diretor paulistano Tadeu Jungle, uma imersão de 13 minutos na ocupação do antigo Hotel Santos-Dumont, abandonado desde os anos 1980, em frente à Estação da Luz. O diretor vem trabalhando há pelo menos três anos com o formato de realidade virtual.

“Temos mais de 100 anos de aprendizado de cinema tradicional. A realidade virtual muda tudo. É disruptiva. Temos que começar do zero”, diz Jungle, por telefone. “Penso a RV com uma proximidade muito grande ao teatro: é o teatro de arena invertido, ou seja, você está no centro do ação, mas a ação tem recursos de cinema. Música, trilha, efeitos, qualquer outra coisa que o digital permite.”

Ele explica que para filmar cenas em RV, a equipe do filme não pode estar no mesmo ambiente – o próprio diretor às vezes tem que ficar afastado e se comunicar com os personagens por rádio, ou se “apagar” da imagem com recursos digitais.

“A qualidade das imagens vai crescer, o tamanho dos óculos vai diminuir, a chegada do 5G vai apresentar facilidades. A realidade virtual vai se consolidar como forma narrativa”, acredita.

Ele afirma que para este filme em específico, o formato era fundamental. “Muitas coisas já foram feitas sobre o assunto (ocupações). Nesse caso, o filme é pertinente porque levo o espectador para dentro daquele local, e nisso existe uma força, porque ele acompanha a narrativa vivenciando aquele espaço”, explica – essa vivência, que o diretor chama de “story-living”, assume o papel do “story-telling”, o jeito tradicional de contar histórias no cinema.

Jungle conta ainda que vai doar para a ocupação, nesta quinta, um óculos de realidade virtual com o filme instaurado. “Pode servir como instrumento de discurso para eles”, explica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.