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Mostra de Heinz Emigholz lança novo olhar sobre prédios

Exposição em São Paulo traz na íntegra da obra do autor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 Julho 2015 | 04h00

Aaron Cutler e Mariana Shellard compartilham duas coisas - um contrato matrimonial e a atração pelo espaço público como matérias de criação (e reflexão). Ele é crítico de cinema; ela, artista plástica. Assinam a curadoria da retrospectiva de Heinz Emigholz que começa nesta quinta, 30, no Centro Cultural São Paulo. Heinz quem? Embora seja um artista experimental renomado, com uma obra reconhecida internacionalmente - a American Cinematheque dedicou-lhe uma programação especial em sua sede do Hollywood Boulevard, em Los Angeles, o Egyptian Theatre -, Emigholz ainda é desconhecido no Brasil. A partir desta quinta-feira, o tempo do verbo vai mudar - era desconhecido. A mostra Architecture as Autobiography, Arquitetura como Autobiografia, traz a íntegra da obra do autor. Você nunca viu a arquitetura, na tela, como nos filmes de Emigholz.

Há quase 30 anos ele procura transmitir a passagem do tempo no cinema por intermédio da arquitetura. Seus filmes propõem passeios contemporâneos por edifícios e outros espaços arquitetônicos, mostrando como são habitados e como foram transformados pelas pessoas ao longo da história. Os filmes focam trabalhos de arquitetos modernistas como Louis Sullivan, Rudolph Schindler, Pier Luigi Nervi, Auguste e Gustave Perret, entre outros. Estes arquitetos e suas obras são apresentados sempre de um ponto de vista pessoal, oferecendo ao espectador um recorte sobre a herança que o século 20 deixou para o 21.

Na entrevista abaixo, Emigholz se explica. “Arquitetos não escrevem suas biografias. Eles as constroem.” E na maneira como vemos/lemos as obras de arquitetos podemos também, quem sabe, construir nossas biografias. Mariana Shellard conta - “Assistimos a Perret, na Argélia e na França em Toronto, em 2012. Até então, não sabíamos nada sobre Heinz (Emigholz), mas o filme nos causou uma impressão tão funda que fomos atrás dele para uma entrevista. Descobrimos que ele possuía uma obra, e que discutia o espaço público, o que nos interessa. Somos próximos da produtora cultural Mila Zacharias. Ela queria montar alguma coisa, uma exposição, sobre arquitetura. Desse encontro, e de nossas discussões, nasceu a retrospectiva de Heinz.”

O CCSP e o Instituto Goethe incorporaram-se à iniciativa. “Me agrada muito que nosso evento esteja ocorrendo no Centro Cultural São Paulo. O próprio prédio é muito interessante e dialoga com a obra de Heinz, com a maneira como ele nos convida a olhar o espaço, a se movimentar nele, a incorporá-lo. Heinz vem à cidade para a retrospectiva. Tenho certeza de que vai gostar bastante do Centro Cultural.” Em São Paulo, a retrospectiva realiza-se de 30 de julho (amanhã) a 13 de agosto. No Rio, haverá uma versão reduzida, de 8 a 16 (de agosto), no Instituto Moreira Salles. O IMS localiza-se na antiga mansão da família Salles, que o público conhece do documentário Santiago, de João Moreira Salles. É outro prédio que deverá fazer a cabeça de Heinz Emigholz.

Com 24 filmes, entre longas e curtas-metragens, a mostra é a maior retrospectiva de filmes do artista e cineasta fora da Alemanha. Todos os filmes são inéditos no País e serão apresentados em seus formatos originais de projeção (35 mm, DCP e arquivo digital em alta resolução). A retrospectiva contará com a presença do diretor para dois eventos abertos ao público - uma conversa com o curador Aaron Cutler, e um debate com o crítico de cinema Filipe Furtado e o professor e urbanista Renato Cymbalista. “Na maioria das vezes, os documentários sobre arquitetos focalizam mais a vida que a obra dos biografados”, reflete Mariana. “O que mais nos atraiu foi que os filmes de Heinz nos forçam a um outro olhar.” 

Basta prestar atenção na série A Base da Maquiagem. Integrada à Fotografia e Além e alicerce de futuras obras, a série apresenta uma leitura visual dos diários de Emigholz e um diário de seu pai Heinrich Emigholz, assim como colagens, desenhos e fotografias de lugares por onde ele passou. No limite, e de forma muito intensa e pessoal, Emigholz indaga-se sobre a obra e o artista, a destruição nuclear, a degradação urbana, a permanência (ou não) da arquitetura. “Toda obra de Heinz é um diário de viagem que nos embarca num roteiro muito original”, destaca Aaron Cutler. 

E Mariana prossegue - “Eu até acho que ele consegue ser didático, passando informações, mas a maneira como toma tempo, propõe ângulos tortos e nos faz passear pelos prédios, tudo é muito rico e é muito dele. Tem a sua marca.” O filme sobre Perret, por exemplo. “Heinz visita construções na França e Argélia. Nos leva numa viagem de prospecção pelo presente, de olho no futuro. É diferente de Parabeton - Pier Luigi Nervi e o Concreto Romano. No filme sobre Nervi, a relação é com o passado, a forma como o arquiteto utiliza o concreto para dialogar com a arquitetura histórica romana.”

Dos bancos construídos por Louis Sullivan nos EUA às esculturas de animais e deuses greco-romanos que ornamentam o interior da casa de Gabriele D’Annunzio, a arquitetura (auto)biográfica não é só uma conversa sobre prédios, mas sobre outro edifício, o do cinema. Na maioria das vezes, ele prescinde das palavras, mas nunca do som. “E não é um som ambiente. É um som mixado que faz parte da concepção artística da obra. Som das pessoas, de pássaros. Ruídos. É tudo muito elaborado e intrigante. Ficamos (Cutler e ela) seduzidos pelo cinema de Heinz (Emigholz) e só esperamos que o público de São Paulo e do Rio fique também”, Mariana conclui.

ARQUITETURA COMO AUTOBIOGRAFIA - FILMES DE HEINZ EMIGHOLZ

Centro Cultural São Paulo. Av. Vergueiro 1.000; 3397-0001/0002. De 30/7 a 13/8

ENTREVISTA - Heinz Emigholz, Diretor - 'Arquitetos constroem suas biografias'

Heinz Emigholz tem estado muito ativo, filmando. Corre contra o tempo para viajar ao Brasil, mas tirou um tempo para responder, de forma breve, a perguntas enviadas por e-mail.

Você pode esclarecer seu conceito da arquitetura como autobiografia?

Arquitetos não escrevem suas biografias, eles as constroem. Nossas mentes têm de ‘ler’ os prédios quando olhamos para eles e suas cronologias.

A arquitetura não deixa de ser a arte de construir no espaço e inscrever o produto no tempo. Não é o que faz o cinema?

A arquitetura projeta espaço no mundo. O cinema transmite o espaço em filmes que são projetados no tempo. Filmes são construções imaginárias no tempo. Na Arquitetura como Autobiografia, os prédios e espaços criados pelos arquitetos deveriam falar por eles mesmos, sem necessidade de qualquer comentário. Uso o que fica gravado na imagem e no som, que são recursos do cinema. E, nesse sentido, creio que uso o cinema de uma maneira nova - como um espaço de meditação sobre as construções.

Na internet, fiquei sabendo que você começou como artista de vanguarda, fazendo pesquisa de linguagem. O que o trouxe à arquitetura?

Foi meu desejo de descrever espaços complicados. Não como qualquer forma de decoração, ou de fundo para dramas imaginários. Queria que fossem eles, os prédios, os meus protagonistas.

Esta semana também estreia no Brasil o novo Jean-Luc Godard, 3-D. É uma obra-prima. Audacioso, inventivo e ao mesmo tempo o filme mais simples, na sua complexidade, de Godard nos últimos tempos. O trabalho dele foi importante para você?

Para dizer a verdade, não. Ou não muito, mas acho interessante que Godard esteja terminando a carreira dele com um filme tão experimental. É onde outros artistas começam.

Mais até que Godard, Fritz Lang em Metrópolis e Michelangelo Antonioni na trilogia formada por A Aventura, A Noite e O Eclipse refletem sobre a importância da arquitetura no processo de alienação do homem moderno. Em São Paulo, há agora um debate intenso sobre a mobilidade urbana. O que você diria disso? Qual pode ser a contribuição do cinema?

A maior contribuição é mostrar o mundo tal qual é. Isso inclui NÃO ser didático e NÃO ser manipulativo.

Por que você selecionou arquitetos como Nervi e Perret? Que entendimento esses homens, e suas obras, podem dar para o nosso mundo, e as nossas vidas?

“Modernidade” é um termo antigo que não se limita ao século 20 nem à vanguarda. Sempre houve bom e mau design. Temos de ler, estudar, sentir, refletir e fazer novo uso das coisas.

No limite - falando de arquitetura, e arquitetos, você constrói sua autobiografia?

Quando revejo meus filmes, os lugares aonde estive, e lembro o que vi e senti, dou-me conta de que, afinal, minha vida não é sem sentido. / L.C.M.

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