Mostra de filmes nacionais dá o que falar no Rio

Havia grande expectativa por Árido Movie, o segundo longa de Lírio Ferreira, exibido terça-feira à noite na Première Brasil. O filme passou fora de concurso. Oficialmente, a Première Brasil, a mostra competitiva de filmes brasileiros no Festival do Rio, terminou na segunda, com Vestido de Noiva, sobre o qual talvez seja melhor guardar silêncio. O que o diretor e a diva Marília Pêra (Jofre definiu-a assim) fizeram com a peça de Nelson Rodrigues que inaugurou o moderno teatro brasileiro pertence ao domínio do inacreditável. E veio o filme de Lírio Ferreira, produzido e fotografado por Murilo Salles. O registro é importante porque o visual forte, intencionalmente sujo, áspero, é das qualidades do filme que vale reter. Outra é a interpretação de Selton Mello, num personagem que, quem conhece o diretor, afirma possuir muito dele. Infelizmente, não há muito mais para destacar.Árido Movie possui quatro roteiristas cuja função parece ter sido desconstruir qualquer possibilidade de relato. Começa com um copo d´água, termina com performances ligadas à água numa galeria de arte. Poderia ser interessante, ligar a questão da água à aridez do sertão e partir daí para refletir sobre a realidade e o cinema nordestinos. Mas falta o que se poderia chamar de foco e Árido Movie se constitui numa série de vinhetas, algumas boas, outras nem tanto. Cai num certo folclorismo. Tem uma cena em que Selton Mello ensina como se enrola um baseado (cigarro de maconha). O Cine Odeon BR quase veio abaixo. Legal. Houve quem achasse a cena digna de Jim Jarmusch. Só se for o de Daunbailó, com 20 anos de atraso. O próprio Jarmusch está noutra (e melhor) em Flores Partidas, que você vai ver na Mostra de São Paulo, ainda neste mês.Mas o assunto não é Jarmusch e sim, Lírio Ferreira. Algo que ele disse no palco do Odeon, ao apresentar seu filme, serve como reflexão neste último dia de Festival do Rio, que hoje apresenta os vencedores da Première Brasil e da Première Latina. O júri dos filmes brasileiros (curtas, longas e documentários) é integrado, entre outros, pelo diretor do Festival de Veneza, Marco Muller. O dos filmes latinos, que inclui os brasileiros, é integrado por críticos internacionais e o prêmio é da Fipresci, a Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, não do festival. De volta a Lírio Ferreira, ele atacou os que criticam a regionalização das verbas de produção, em concursos como o da Petrobrás. Existem produtores que, no fundo, defendem a concentração das verbas no eixo Rio-São Paulo. Ferreira considera, corretamente, que a democratização das verbas resulta numa seleção diversificada como a da Première Brasil deste ano.É a melhor Première Brasil da história do Festival do Rio - é a frase mais ouvida na Cinelândia, onde se localiza o Cine Odeon BR, palco das sessões oficiais. É verdade, em parte. A Première Brasil apresentou grandes filmes, mas eles foram poucos. Houve outros pretensiosos e alguns, até, muito ruins. Normal - isso ocorre em todos os festivais. O importante é que os bons foram muito bons e diferentes em tudo, até na origem, embora tenham predominado os filmes do eixo, mesmo que com artistas de outros Estados. Filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes; Cidade Baixa, de Sérgio Machado; Tapete Vermelho, de Luiz Alberto Pereira; A Máquina, de João Falcão; O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho; e Do Outro Lado do Rio, de Lucas Bambozzi, honraram a Première Brasil. Se o júri fizer a coisa certa, os premiados sairão daí (menos o filme de Coutinho, que passou fora de concurso). O documentário de Bambozzi tem, não propriamente os vícios, mas certas características da videoarte, o que se presta à polêmica, mas possui personagens maravilhosos, que o diretor localizou na fronteira entre o Oiapoque e a Guiana.A fronteira é um território metafórico perfeito para se falar dos impasses do mundo em que vivemos. O próprio cinema brasileiro, como um todo, vive numa fronteira, num impasse. 2 Filhos de Francisco, de Breno Silveira, está superando a expectativa e já bateu Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, que é agora a terceira maior bilheteria do cinema brasileiro da retomada. 2 Filhos de Francisco está em segundo e a Columbia revisa projeções, trabalhando com a possibilidade de que venha a ser o número um, chegando aos 6 milhões de espectadores, o que significa bater Carandiru, de Hector Babenco. O cinema brasileiro precisa desses êxitos superlativos, mas a postura de Lírio Ferreira, no palco do Odeon, está correta. Existem as obras excepcionais, do ponto de vista da qualidade como da preferência popular, em todas as cinematografias, mas o cinema brasileiro não pode ficar dependendo só dos grandes filmes para alavancar a bilheteria e apresentar números vistosos de participação no mercado, nas análises de fim de ano. Só será grande quando os 6 milhões forem repartidos entre todos os filmes da Première Brasil, com sua multiplicidade de gêneros, estéticas e propostas que confirmam - o cinema brasileiro está vivo e forte, sim.

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