Mostra de filmes de Margarethe Von Trotta no CCBB

Há 18 anos, no mês de março, no quadro das comemorações do Dia Internacional da Mulher, o Instituto Goethe organizou uma retrospectiva da obra de Margarethe Von Trotta e tentou trazer a diretora ao País. ?Me propuseram uma programação muito extensa, com cinco semanas de viagem pelo Brasil e até pelo Uruguai; não pude aceitar?, ela conta numa entrevista por telefone, de Paris, onde mora. Na quarta-feira, em outro 8 de março, começa mais uma retrospectiva da obra de Margarethe no Brasil e agora ela vem, numa parceria do Goethe com o Centro Cultural Banco do Brasil, que sedia o evento. A cineasta embarcou ontem, em Paris. Chega hoje a São Paulo. ?Ainda não sei a programação, mas fico até dia 12?, acrescentou. Margarethe está ansiosa para conhecer o País que, como ela diz, faz parte do seu patrimônio cinematográfico. Em 1990/91, vinda de um festival na Argentina, ela ficou um dia no Rio, por insistência do amigo Felice Laudadio, que a acompanhava. Ela não sabe de onde, mas criou-se, na internet, a lenda de que Felice e ela eram casados e ele é o pai de seu filho Felix. ?Não é nada disso?, esclarece. Margarethe foi casada com Volker Schlondorff, a quem acompanhou em vários festivais, antes de virar, ela própria, diretora. Com ele conheceu Glauber Rocha, Cacá Diegues, o Cinema Novo. ?Fui muito marcada pela experiência?, ela confessa. O Rio a impressionou, mas ela está louca de excitação por conhecer São Paulo, uma megalópole com perfil e problemas próprios. ?Me dizem que não é bonita como o Rio, mas tem uma diversidade cultural imensa?, justifica. Seus filmes, invariavelmente, tratam de temas ligados à mulher e à política. Por isso mesmo, Margarethe não estranha todos esses convites e retrospectivas ligados ao Dia da Mulher. O rótulo de cineasta feminista não a incomoda, embora ela ache que tenha criado grandes personagens masculinos. Já foi feminista de carteirinha, depois foi mudando o ?ista? - pacifista, ecologista -, sem deixar de ser revolucionária. Margarethe Von Trotta estreou na direção em 1975, com a Honra Perdida de Uma Mulher, feito em parceria com Schlondorff, no período em que foram casados. Maio de 68 é uma referência forte em seu trabalho. Terrorismo, militância política, o conflito entre o público e o privado (quase sempre do ângulo das mulheres) são temas recorrentes em filmes como Irmãs ou A Balança da Felicidade, Os Anos de Chumbo, Rosa Luxemburgo (um retrato da revolucionária), As Três Irmãs, A Promessa (sobre a Alemanha dividida, mesmo após a queda do Muro de Berlim). Nascida em 1942, Margarethe estava em Paris, no começo dos anos 1960, quando teve a revelação, assistindo aos filmes de Ingmar Bergman e da nouvelle vague. Amou O Sétimo Selo. Bergman virou seu deus. Resolveu que queria ser diretora. ?Naquela época, não havia muitas mulheres na direção?, lembra. Foi preciso lutar contra o preconceito, mas a primeira luta foi pela construção do novo cinema alemão. Foi atriz de Rainer Werner Fassbinder e Schlondorff, escreveu roteiros para o segundo, sem nunca se considerar uma roteirista. Além de o objetivo ser sempre a direção, os filmes que escreveu eram projetos próprios, dela e dele. Com Schlondorff, aprendeu a dirigir, mas é bem-humorada a ponto de aceitar a crítica que o repórter lhe faz. Sua fama é de diretora fria e distanciada, ou então de realizadora com mão pesada. Seus temas, em geral, são densos e a direção não os alivia em nada. Torna-os mais pesados ainda. Ela dá uma sonora gargalhada. ?Como poderia ter uma mão leve, um estilo mais solto? Sou alemã!? Gosta de se definir como contraditória, o que se manifesta nos filmes, que muitas vezes expressam dois, três pontos de vista. Margarethe adora as histórias de irmãs, de mulheres que trilham caminhos diversos, até opostos, e que lutam para manter o afeto, para que a afeição que as une não seja rompida. ?Quer ouvir a história??, pergunta. Logo após Os Anos de Chumbo, de 1981, a TV alemã fez um especial sobre ela. Sua mãe havia morrido e Margarethe, que sempre gostou muito da mãe, estava sensível. Falou muito dela e da importância que teve em sua vida. Recebeu uma carta de uma mulher que lhe pedia informações sobre a mãe. Descobriu que eram irmãs. A mãe a havia entregue para adoção. Desde então, mantêm-se em contato. É a típica história que dá filme, observa o repórter. ?Mas eu não teria condições de contá-la?, confessa Margarethe. A difamação acompanha suas mulheres. A Honra Perdida de Uma Mulher baseia-se no romance de Heinrich Böll sobre mulher cuja vida é destruída, depois que ela passa a noite com um homem procurado pela polícia. O Segundo Despertar de Christa Klages, sua primeira direção em solo, mostra essa mulher, uma professora de jardim de infância, que assalta um banco para manter sua escola. Irmãs ou A Balança da Felicidade trata da difícil relação entre duas irmãs, quando uma delas não agüenta a pressão emocional que sobre ela exerce a outra. Os Anos de Chumbo trata de outras irmãs, uma terrorista, a outra, redatora de um jornal feminista. Numa das cenas mais belas escritas e filmadas por Margarethe Von Trotta, a irmã que sobrevive vai conversar com o sobrinho. E conta sobre essa mãe que o abandonou, sobre o pai, que também foi embora, ambos tão obcecados pelo ideal político que se esqueceram do próprio filho. A cena possui um valor de testemunho geracional intenso. Margarethe tem orgulho dela? ?Orgulho é uma palavra muito forte e tem uma conotação que não me agrada. Não tenho orgulho de nada. Tenho consciência de me haver proposto coisas, e de haver realizado muitas.? Seu cinema não é realização só dela. Deve muito às atrizes. Jutta Lampe, Barbara Sukowa, Angela Winckler. Margarethe acentua a pronúncia alemã dos nomes, do outro lado da linha. Iúta, Sú-ková. Trabalhar com atores é um dos prazeres da sua profissão. ?Barbara Sukowa diz que comigo ela vai não importa aonde.? É uma relação de confiança. Margarethe foi atriz. Sabe como levar suas atrizes. ?Dou inteira liberdade, mas elas sabem que eu vou acionar o sinal vermelho se estiverem ultrapassando o limite.? Comenta com o repórter alguns títulos recentes do cinema alemão atual. Também não gostou muito de Réquiem, de Hans-Christian Schmid, que ganhou o prêmio da crítica em Berlim, este ano. Observa, a propósito, que os limites entre cinema e TV estão cada vez mais tênues. Gosta muito mais de Uma Mulher contra Hitler, de Marc Rothemund, em cartaz em São Paulo. O repórter, também. Julia Jentsch, que faz Sophie Scholl, a mulher contra o Führer, é excepcional. ?E é bonita?, acrescenta Margarethe. ?Julia é maravilhosa.? Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112. De 8 a 19 de março. R$ 4,00 e R$ 2,00 (meia-entrada). Cinepasse: (válido para todas as sessões da mostra): R$ 8,00 e R$ 4,00 (meia-entrada). Hoje, A Honra Perdida de uma Mulher, às 15h30, As Mulheres de Rosenstrasse, às 17h30 e debate com Margarethe von Trotta, às 20 horas.

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