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Mostra de filmes canadenses traz obras de Xavier Dolan e David Cronenberg

Em debate, toda a diversidade da produção autoral do país

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2014 | 02h08

Dois autores cujas obras mais recentes integram a seleção oficial do Festival de Cannes deste ano, anunciada na quinta-feira, também estão na mostra de filmes canadenses que permanece até 4 de maio no Cento Cultural Banco do Brasil. Xavier Dolan e David Cronenberg são dois dos chamados 'abonnés', diretores que parecem ter lugar cativo na Croisette. Tudo, ou quase tudo, que fazem vai, automaticamente, para a seleção, que inclui a competição e a mostra Un Certain Regard. Dolan, um jovem, e Cronenberg, o veterano, vão concorrer este ano com Mommy e Maps To the Stars (com Robert Pattinson). Na mostra canadense, você poderá rever Eu Matei Minha Mãe, feito quando Dolan tinha apenas 20 anos, em 2009, e Cosmópolis, que já reunia Cronenberg e Pattinson, o vampiro da série Crepúsculo.

Tão Longe, Tão Perto - o título que o curador da mostra canadense, Marcos Ribeiro de Moraes, propôs pega carona num filme não muito expressivo de Wim Wenders. No texto que acompanha a programação, ele diz que queria refletir sobre o que há de comum entre Brasil e Canadá, e os cinemas dos respectivos países, apesar da óbvia distância geográfica. Mas talvez seja outra coisa, mais velada. A constatação de que o Canadá, tão próximo dos EUA, faz um cinema tão diverso. Estamos falando de cinema autoral, não das produções independentes que atravessam a fronteira e buscam locações canadenses em busca de menores custos. O tão longe tão perto também pode se referir ao fato de que existem dois Canadás, de língua inglesa e francesa. O cinema canadense de Quebec sempre foi francófono, distante de Hollywood.

Além de Cronenberg e Dolan, o cinéfilo poderá matar as saudades ou reavaliar filmes que fizeram sensação, como Jesus de Montreal, de Denys Arcand; C.R.A.Z.Y., de Jean-Marc Vallée, o mesmo autor de Clube de Compras Dallas; Leólo, de Jean-Claude Lauzon, que se tornou objeto de culto após a morte prematura do cineasta num acidente aéreo, em 1997; e Incêndios, de Denis Villeuneuve. E o evento não só revisa, como também traz filmes que nunca estrearam no Brasil, como waydowton, de Gary Burns.

São 15 títulos no total, e como a mostra não é nenhum Clube do Bolinha as mulheres são muito bem-vindas - Patricia Rozema assina Ouvi as Sereias Cantando e Sarah Polley, de Entre o Amor e a Paixão. Quando se encontrou com o público, durante a retrospectiva em sua homenagem, no próprio CCBB, o produtor Paulo Branco contou como, após se encantar com o livro de Dom DeLillo, adquiriu os direitos de Cosmópolis. Depois de muito pensar, chegou ao nome de David Cronenberg como diretor ideal. Marcaram um jantar. Conversaram, e Cronenberg, para desencorajá-lo, foi logo dizendo que não trabalhava como diretor contratado e só fazia filmes de sua escolha. Paulo Branco, mesmo assim, deu-lhe o livro. Não demorou muito e Cronenberg chamou-o - queria muito fazer Cosmópolis. O colapso do mundo financeiro, sexo e dinheiro dentro da limusine de Robert Pattinson. Esqueça o romance teen de Crepúsculo. A pegada é muito mais intensa quando Juliette Binoche entra no carro.

Denys Arcand já havia feito O Declínio do Império Americano quando surgiu Jesus de Montreal (em 1989). À derrocada do Ocidente seguiu-se o retorno a um misticismo só aparente. O filme traz o personagem bíblico para o mundo atual, por meio de um ator que encena a Paixão de Cristo e se deixa tomar pelo personagem. Arcand foi chamado de demagógico pelos mesmos críticos que se encantaram com Amor e Restos Humanos e As Invasões Bárbaras, em que voltou ao Declínio. O mundo vai de mal a pior, reflete o autor. Não há mudança sem violência. Seu pessimismo, embora lúcido, desconcerta muita gente. Os grandes do cinema canadense, independentemente de língua - Arcand, Cronenberg -, são lobos solitários.

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