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JB Neto/Estadão
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Mostra de Cinema premia filmes de e sobre mulheres

'Preenchendo o Vazio' e 'A Bela que Dorme' venceram categoria de ficção entre júri e crítica

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo,

02 de novembro de 2012 | 14h45

Havia gente rindo à toa no final da cerimônia de premiação da 36.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no Cinesesc, quinta-feira, 1º, à noite. A jornalista Elaine Guerini foi uma que tentou colocar em votação, no júri da crítica, o longa israelense Preenchendo o Vazio, mas se chocou com a intransigência de colegas que não queriam nem ouvir falar do filme de Rama Burshtein. Após a premiação, em que Preenchendo o Vazio foi vencedor do Troféu Bandeira Paulista como melhor ficção, o diretor Cao Hamburger, integrante do júri, disse ao repórter que entendia as restrições, principalmente masculinas, ao feminismo de Rama. Você ainda tem chance de conferir as qualidades de Preenchendo o Vazio. O filme integra a repescagem da Mostra e terá sessão neste domingo, 4, às 21h30, no Cinesesc.

Foi a mais discreta das premiações da Mostra - e sem trapalhadas. Rubens Ewald Filho foi o mestre de cerimônias e Renata Almeida juntou-se a ele, substituindo Marina Person, que chegou tarde. Renata lembrou que Leon Cakoff - seu companheiro de arte e vida - criou o Troféu Humanidade para destacar a contribuição de artistas excepcionais. Há dois anos, Leon e ela tentaram trazer ao Brasil "essa atriz mítica", como a definiu, mas Claudia Cardinale tinha outros compromissos e não pôde aceitar. "Leon ficaria muito contente de que ela esteja aqui para receber o prêmio que agora tem seu nome", disse a emocionada sra. Mostra.

O público levantou-se para aplaudir de pé a estrela que trabalhou com os maiores diretores da Itália e de Hollywood - Luchino Visconti, Federico Fellini, Mauro Bolognini, Marco Bellocchio, Luigi Comencini, Mario Monicelli, Blake Edwards, Richard Brooks, Henry Hathaway. A lista é muito maior e poderia ocupar quase todo o espaço do texto, somente citando os títulos dos filmes e os nomes dos autores.

Claudia foi sucinta. Embora tenha filmado no Brasil (Fitzcarraldo, de Werner Herzog, e Uma Rosa para Todos, de Franco Rossi), disse que lamentava não poder agradecer em português. Em italiano - ela deu suas entrevistas em francês e inglês -, acrescentou que estava lisonjeada e feliz. Claudia gostou tanto de São Paulo que abriu sua passagem e, em vez de voltar ontem para Paris - onde mora -, viaja neste domingo. Quer desfrutar um pouco mais da cidade.

O prêmio da crítica contemplou um grande da Itália - Marco Bellocchio -, por seu drama da eutanásia, A Bela Que Dorme. Definir o filme dessa maneira é reducionismo - Bellocchio usa a discussão sobre o direito à morte para seguir com o que vem fazendo há décadas. Se há um autor que tem dado seu testemunho vigoroso sobre a política do país, e sem transigir com a estética, é ele. A crítica também outorgou uma menção especial a Perder a Razão, do belga Joachim Lafosse, justamente como estímulo à distribuição do filme no Brasil. Lafosse está longe de ser unanimidade - como Rama Burshtein também não é -, mas sua história de um casal de jovens apaixonados que depende financeiramente de um médico mais velho possui defensores ardorosos.

O júri integrado pelo ator Burghart Klaussner (dos filmes de Michael Haneke), pelos diretores Danis Tanovic, Jan Harlan e Cao Hamburger e por Kanako Hayashi, que preside o Festival de Tóquio, outorgou uma menção ao ator Edin Hasanovic, do filme alemão O Peso da Culpa. O outro júri, integrado pelo criador do É Tudo Verdade, Amir Labaki, outorgou a We Came Home, de Ariana Delawari, o Troféu Bandeira Paulista de melhor documentário.

O design do troféu é da artista plástica Tomie Ohtake e a competição da Mostra contempla somente novos diretores (até o segundo filme), pré-selecionados pelo público. Ariana, cantora, compositora e diretora, nasceu em Los Angeles, filha de pais afegãos. Em seu filme premiado, ela conta uma história do Afeganistão, mostrando como os pais voltaram para casa, no clima de paranoia após o 11 de Setembro, para ajudar na reconstrução do país que havia sido invadido pelos soviéticos e era dominado pelo Talibã. A prisão de seu pai foi um duro golpe para Ariana. Ela também é autora de um álbum com músicos de Cabul que foi apadrinhado por ninguém menos que David Lynch.

Casamento perfeito. Embora os júris que contemplaram ficção e documentário fossem diferentes, ambos premiaram mulheres dilaceradas - Ariana, no jogo de dois países, duas culturas, e Shira, a heroína de Preenchendo o Vazio, desconsiderada pela própria família de ortodoxos. Shira está para se casar, realizando um sonho, quando sua irmã morre no parto e a mãe da protagonista cobra dela que sacrifique os sentimentos, por meio de um casamento arranjado com o cunhado, para garantir que o bebê permaneça na família. Sem nenhuma pressão sobre os júris, a premiação da Mostra contempla aquilo que se desenhava no seu começo, há duas semanas.

Primeira Mostra realizada por Renata Almeida após a morte do criador do evento - Leon Cakoff -, a 36.ª de cara se definiu por um olhar feminino, se não feminista. Dos mais de 350 filmes exibidos, 60 foram dirigidos por mulheres e a maioria tem personagens femininas como protagonistas. O olhar masculino, predominante nos dois júris, avalizou a pegada feminina. Foi um casamento perfeito. Assim como o júri e os críticos, o público também contempla seus preferidos. A seleção dos jurados que atribuem o Troféu Bandeira Paulista é feita sobre a escolha do público, num universo restrito - o dos novos diretores. No quadro geral da Mostra, o prêmio do público teve quatro vencedores. Na categoria Nacionais, Colegas, de Marcelo Galvão, foi a melhor ficção, e Sementes do Nosso Quintal, de Fernanda Heinz Figueiredo, o melhor documentário. Entre os internacionais, venceram No, de Pablo Larraín, como melhor ficção, e A Copa Esquecida, de Lorenzo Garzella e Filippo Macelloni, o melhor documentário. Colegas, sobre as aventuras de um trio de downianos, venceu o Prêmio da Juventude.

Pela circunstância de possuir dotação em dinheiro - R$ 45 mil para melhor ficção, R$ 30 mil para melhor documentário -, o Prêmio Itamaraty, para produções nacionais, sempre desperta frisson. Venceram o admirável O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, e Francisco Brennand, de Mariana Brennand Fortes. A Mostra prossegue com a repescagem - até amanhã, na Sala Cinemateca, até quinta-feira, no Cinesesc. Entre os filmes que você pode (re)ver há um programa suntuoso. Amanhã, às 15h50 na sala da Rua Augusta - no esplendor da projeção digital em 4-K do Cinesesc, o deserto de David Lean nunca foi mais grandioso. Obra-prima é pouco para Lawrence da Arábia.

VENCEDORES

Filme de Ficção

Para o júri - Preenchendo o Vazio, de Rama Burshtein

Para a crítica - A Bela Que Dorme, de Marco Bellocchio

Para o público - No, de Pablo Larraín (melhor estrangeiro), e Colegas, de Marcelo Galvão (melhor brasileiro)

Documentário

Para o júri - We Came Home, de Ariana Delawari

Para o público - A Copa Esquecida, de Lorenzo

Garzella e Filippo Macelloni (melhor estrangeiro), e Sementes do Nosso Quintal, de Fernanda Heinz Figueiredo (melhor brasileiro)

 

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