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Mostra de Cinema elege os melhores filmes da edição 2018

‘Las Sandinistas!’, sobre revolucionárias que lutaram e ainda lutam na Nicarágua, 'Sócrates', 'Torre de Donzelas' e 'Todas as Canções de Amor' são alguns dos filmes vencedores da 42.ª Mostra de Cinema de São Paulo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2018 | 21h30

Com a cerimônia de premiação, seguida pela apresentação de Roma, de Alfonso Cuarón, encerrou-se ontem no Auditório Ibirapuera a 42.ª Mostra de Cinema de São Paulo. Encerrou-se em termos. Por mais uma semana, o público terá a oportunidade de (re)ver os filmes premiados e as obras importantes que marcaram esta edição.

Formado, entre outros, pelos cineastas Ferzan Ozpetek, Sérgio Machado, o júri outorgou o prêmio Bandeira Paulista ao documentário Las Sandinistas!, de Jerry Murray, dos EUA. O longa de 96 min. reconstitui histórias de mulheres que lutaram na Revolução Sandinista, que, nos anos 1970, derrubou a ditadura de Somoza na Nicarágua. Hoje, face a um novo governo autoritário que está revogando grandes preceitos e conquistas da revolução, elas se reorganizam para manter acesa a chama da luta. Com o tema do empoderamento feminino na ordem do dia, o júri da Mostra, embora predominantemente masculino, deu sua lição de civismo – e estética.

O filme também levou o prêmio do público, na categoria de documentário. Como melhor ficção, o público da Mostra elegeu Cafarnaum, de Nadine Labaki, que oferece um retrato verista, na vertente de Pixote – A Lei do Mais Fraco, da infância abandonada na capital libanesa. O júri internacional atribuiu uma menção honrosa ao documentário brasileiro Sócrates, de Alex Moratto, sobre a luta de um garoto santista de 15 anos contra a pobreza e a homofobia.

A Mostra também outorgou o Prêmio Petrobrás de Cinema a dois filmes selecionados pelo público. A ficção Meio Irmão, de Eliane Coster, que também aborda o tema da homofobia – após a morte da mãe, uma garota pede ajuda ao meio-irmão, mas ele está sendo ameaçado –, recebeu a verba de R$ 200 mil para ser aplicada no lançamento. Também premiado, o documentário Torre das Donzelas, de Susanna Lira, que receberá R$ 100 mil, traz relatos inéditos da ex-presidente Dilma Rousseff e de suas ex-companheiras de cela do Presídio Tiradentes, em São Paulo, durante os anos duros da ditadura militar.

O Prêmio da Abraccine, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema, foi atribuído a Meio Irmão. O prêmio de toda a crítica presente ao festival foi votado num jantar comemorativo, na segunda à noite. Venceram, como melhor filme brasileiro, Todas as Canções de Amor, de Joana Mariani, e Nuestro Tiempo, de Carlos Reygadas, como melhor estrangeiro. As justificativas. Todas as Canções de Amor, que estreia na próxima quinta, foi escolhido “pela intensidade das interpretações e da trilha sonora, que também é personagem central da trama; pela elegância da mise-en-scène e pela forma intensa e profunda como discute relações”. Nuestro Tiempo mereceu a seguinte avaliação – “A Mostra tem sido a morada dos filmes desse grande autor mexicano, mas ele nunca tocou tanto a intensidade dos temas do amor e do sexo, numa forma que combina o micro e o macro, a intimidade humana e a grandiosidade da natureza. Por tudo isso o prêmio da crítica para o melhor filme estrangeiro foi para o Reygadas”.

A Mostra deste ano teve momentos belíssimos, e uma dessas lembranças que ficarão gravadas no imaginário dos cinéfilos ocorreu na terça-feira à noite, na homenagem aos 20 anos de Central do Brasil, de Walter Salles. Reencontraram-se, no Itaú Augusta, Dora e Josué, Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira. Ele não mais um garoto, mas um homem. Ela, nossa grande dama da representação, uma senhorinha quase nonagenária, de cabeleira toda branca. Fernanda resumiu um sentimento que pode não ser unânime, mas é muito forte, em muita gente. Disse que o filme é sobre um garoto que busca não só um pai, mas um país. “Nós também queremos um país”, disse, e foi aplaudidíssima. Mais aplausos quando dedicou a sessão a Marília Pêra, “que partiu cedo demais”. E, após a sessão, uma longa e cadenciada ovação que parecia que não ia terminar nunca. Ainda é cedo, 20 anos apenas, mas Central do Brasil está vencendo a batalha do tempo.

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