Cult Classic
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Mostra de Cinema de SP: Modernidade e tradição em Varda e Raoul Peck

Os clássicos da francesa e o sublime anacronismo da biografia de Marx pelo haitiano, espelhos do mundo

Luiz Carlos Merten, Impresso

21 Outubro 2017 | 06h00

Tradição e modernidade têm sido as duas faces da Mostra. Como grande evento de cinema, ela aponta tendências e traça um panorama do cinema mundial. E também como um grande evento não dá as costas à tradição. Todo ano, a Mostra presta homenagens, promove retrospectivas. Neste sábado, 21, será possível juntar as duas tendências. Em fevereiro, o haitiano Raoul Peck estava em plena disputa do Oscar de documentário – com Eu Não Sou Seu Negro – quando foi a Berlim mostrar seu novo filme, O Jovem Karl Marx. Impossível imaginar obra mais contra a corrente. Marx, Engels e a criação do Manifesto Comunista.

‘Um fantasma ronda a Europa. O fantasma do comunismo...’ Em 2017! Sob a presidência de Donald Trump nos EUA e o avanço de forças conservadoras em todo o mundo. Boa parte do público não precisa nem ver para dizer que não gostou. Antes visse, com o olhar – e a curiosidade – do cinéfilo. O Jovem Karl Max possui qualidades, e valores éticos, que talvez seja necessário resgatar. Marx vive endividado, cheio de dificuldades. Engels é um dândi, filho de um pequeno fabricante. Engels polemiza com um amigo do pai sobre o trabalho infantil, que na época do filme é um trabalho escravo. Não mudou muito. O tema segue mais atual que nunca no Brasil.

Coescrito por Raoul Peck e Pascal Bonitzer, O Jovem Karl Marx começou a nascer há muito tempo, quando o jovem Peck, que ainda nem era diretor, estudou na Alemanha. Num perfeito alemão, Peck lembrou Marx como filósofo, sociólogo, jornalista e revolucionário socialista. Lembrou que ele nasceu na antiga Prússia – em Tréveris, na Alemanha – e disse que seria absurdo desconhecer suas teorias econômicas e sociais que tanto impacto tiveram no pensamento do século 20. Admitiu que o personagem lhe é totalmente simpático, e acrescentou que os descontentes façam sua(s) versão/versões. Peck toma liberdades, e por um momento você é capaz de pensar que o filme vai virar uma espécie de Jules e Jim – o clássico de François Truffaut –, com Marx e Engels às voltas com a mesma mulher. Há também a figura mítica de Proudhon. Peck e Bonitzer não apenas se expõem, como provocam – e o filme termina com uma montagem de eventos como o Muro de Berlim e personalidades como Che e Nelson Mandela, ao som do ‘nobelizado’ Bob Dylan. Impossível não falar do filme sem destacar os atores – August Diehl (Marx) e Stefan Kornarske (Engels).

Modernidade ou anacronismo (político e ideológico), O Jovem Karl Marx? Veja, e prestigie também dois filmes viscerais na retrospectiva de Agnès Varda. Com Ai Weiwei, de Human Flow, ela está sendo homenageada com a maior recompensa da Mostra, o Prêmio Humanidade. É difícil falar em tradição a propósito de Varda, porque ela foi pioneira/precursora da nouvelle vague e seu filme mais recente, Visages Villages, talvez tenha sido o melhor exibido em Cannes, em maio. Essa mulher sempre esteve à frente. A Mostra resgata neste sábado duas de suas obras-primas – Cléo das 5 às 7 e Le Bonheur/As Duas Faces da Felicidade, ambos do começo dos anos 1960.

No Dicionário de Cinema, Jean Tulard resume a tragédia de Agnès Varda. Nascida em Bruxelas, de pais franco-gregos, estudou na Sorbonne para ser conservadora de museus, mas descobriu a fotografia e o cinema. Foi montadora de Alain Resnais, amiga do jovem Jean-Luc Godard (e há um incidente que faz com que ela fique muito magoada com ele em Visages Villages). Cléo narra, em tempo real, duas horas da vida de uma mulher que espera o resultado de um exame médico. A atriz é uma valquíria, Corinne Marchand. Anda angustiada por essa Paris filmada em preto e branco. Uma obra feita de observação e densidade. As Duas Faces da Felicidade é sobre esse homem casado que se liga a outra mulher. Jean-Claude Drouot ama as duas, deseja as duas, mas a moral burguesa não lhe permite ser ‘feliz’. Um filme machista? Não sob a direção de Varda. A trilha de música erudita, as mais belas cores do cinema. O filme é um assombro.

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