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Mostra de Cinema de São Paulo termina com sessão emocionante

Luiz Fernando Carvalho veio à cidade só para assistir e debater como público o cultuado 'Lavoura Arcaica'

aa, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2016 | 23h06

Luiz Fernando Carvalho estava com vontade de falar. No Festival do Rio, e alegando sobrecarga de trabalho na edição de Dois Irmãos – sua minissérie baseada em Milton Hatoum, que vai ao ar em janeiro, na Globo –, ele faltara à sessão comemorativa dos 15 anos de Lavoura Arcaica. Em São Paulo, veio, na quarta à noite, 9, para a mesma comemoração. E veio acompanhado de amigos escritores, Hatoum e Raduan Nassar, o grande autor de Lavoura Arcaica, o livro.

Houve debate, com mediação do editor do Caderno 2, Ubiratan Brasil. Carvalho contou como tudo começou. Estava imerso na TV, em crise, querendo fazer cinema. “Raquel (a pesquisadora Raquel Couto) deu-me o livro, com a sugestão que o lesse. Li de um jato e fiquei tomado. Quando terminei, estava certo de que era o filme que queria fazer e já conseguia vê-lo. Mas foi um longo processo. Tivemos de mergulhar no universo de Raduan. Ficamos quatro meses numa fazenda de Minas. Atores, técnicos. (Andrei) Tarkovski dizia que um filme só se faz quando o mesmo sangue circula em toda a equipe.”

Raduan participou do processo? “Participa até hoje”, Carvalho fez um gesto afetuoso para o amigo que ainda o acompanha, tanto tempo depois. E o mediador – “É um filme rigoroso, muito elaborado. Como foi feito?” O cineasta – “Nunca trabalhei com storyboard. O filme foi feito com muita liberdade, muita improvisação.” O trabalho de mesa na fazenda começou a incluir a câmera. “Lá pelas tantas, já estávamos filmando e as pessoas nem se davam conta.” Como no Rio, Carvalho precedeu a exibição pela intervenção de uma dupla de refugiados sírios da cidade de Alepo.

Patrimônio da humanidade por sua história de 8 mil anos – é habitada desde 6000 a.C. –, Alepo vem sofrendo sistemática destruição desde os bombardeios de 2012. É uma forma de protesto de Carvalho, e também para lembrar o confronto entre liberdade e autoridade na essência do texto, e do filme. André, o protagonista, tem uma paixão incestuosa pela irmã, Ana. “A palavra quer dizer ‘eu’ em árabe. É essa profundidade do texto, o confronto de um homem consigo mesmo, com seu ‘eu’ feminino, mais profundo.” Foi um grande fecho para a Mostra. Incluiu uma revelação surpreendente do diretor sobre seu filme tão cultuado. “Fui muito boicotado, festivais importantes queriam o filme e depois desistiam.” Por quem? Isso, Carvalho não conta. / L.C.M.

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