Mostra de cinema aborda reflexões culturais e políticas

Cinusp exibe filmes no campus da Universidade de São Paulo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2014 | 10h14

Começa nesta segunda-feira a terceira edição da mostra Cinema da Quebrada no Cinusp, que exibe filmes no campus da Universidade de São Paulo e em outros locais da cidade (Maria Antônia, Biblioteca Roberto Santos etc). Pela primeira vez, o Cine Olido integra-se ao circuito, mas lá a programação inicia-se somente nesta terça-feira. Com curadorias de Wilq Vicente, a seleção de filmes inclui obras de realizadores das quebradas das grandes cidades, e também outras produzidas nos grandes centros e que contribuem para a discussão de temas ligados à produção cultural da periferia. O evento deste ano, reunindo projeções e debates, divide-se em quatro eixos - cultura negra, luta por moradia, terra e cultura, manifestações de junho de 2013. Também comemora os 30 anos da Associação Brasileira de Vídeo Popular.

Entre os filmes estão Luto como Mãe, de Luiz Carlos Nascimento, do coletivo Nosso Cinema, que já esteve na sala da Galeria Olido, e Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queiroz, que foi exibido e premiado na Mostra de Tiradentes e no Festival de Brasília deste ano. Luto como Mãe baseia-se numas estatística cruel - nas mortes de jovens da periferia mortos por agentes do Estado. Desde as UPPs, os casos de mortes foram substituídos por desaparecimentos. Se não existe corpo, não existe crime. As famílias, principalmente as mães, organizam-se. Transformam o luto em luta. Branco Sai, Preto Fica mostra a violência institucionalizada contra os negros e os quilombos urbanos espalhados pelas grandes cidades brasileiras, no caso específico, em Brasília. Em, ambos os casos, e em muitos outros títulos da programação - O Dia de Jerusa, de Viviane Ferreira -, o que se propõe como tema de reflexão ultrapassa o relato de 'casos'. Diz respeito a algo mais profundo e conceitual - a representação dos tipos periféricos pela produção audiovisual.

O importante é que o espectador dê-se conta de que estão ocorrendo outras manifestações de cinema pelas cidade, e que elas têm tudo a ver. No quadro de uma programação de direitos humanos, houve na semana passada o debate sobre o filme de Theresa Jessouroun, À Queima-Roupa (que também entrou em cartaz em alguns horários diários). Theresa foi premiado no Festival do Rio por seu filme que documenta a violência do Estado contra as comunidades no Brasil e, em especial, no Rio de Janeiro. O Brasil tem a polícia mais violenta - e que mais mata - no mundo. A do Rio é a que mais mata no País. Compilando 20 anos de chacinas, desde a de Vigário Geral, em 1993, Theresa faz um levantamento impressionante sobre como a cultura da violência está arraigada no imaginário coletivo. Pesquisas confirmam que 44% dos brasileiras aprovam as mortes nas comunidades, convencidos de que bandido bom é bandido morto, só que a polícia está matando trabalhadores. Sobreviventes e familiares dão depoimentos no filme dela. Mães, filhas e irmãs gritam sua dor e apontam o dedo acusador. À Queima-Roupa complementa Luto como Mãe. Um é deste ano, o outro, de 2010.

No Mix Brasil, entre muitos outros filmes que participam da competição nacional de médias e longas, está Favela Gay, de Rodrigo Felha, que já assinou um dos episódios de Cinco Vezes Favela. Favela, o filme, conta histórias de gays e como eles se arranjam nas comunidades, vencendo a discriminação e o preconceito. Muitos jovens terminam se prostituindo, mas nem todos. Rodrigo Felha conta histórias de pessoas que conseguem se fazer respeitar e se afirmam. Alguns viram personagens de si mesmos, como o garoto que se traveste e frequenta a universidade como mulher, mas para a mãe evangélica permanece o seu menino, e ela não deixa de tratá-lo como homem. Essa representação dos tipos periféricos - das quebradas ou não; a meta de Felha é mostrar que o gay da favela não é diferente daquele do asfalto - é um dos temas do evento desse ano.

A discussão ultrapassa os gêneros. Não estamos falando apenas de 'masculino' e 'feminino'. De gêneros de cinema, também. Branco Sai, Preto Fica não deixa de ser uma ficção científica. Na fantasia do brasiliense Adirley Queiroz, tiros num baile de black music de Brasília deixam dois homens brutalmente marcados. Um terceiro vem do futuro investigar o caso. Descobre a cidade dividida em setores, na qual é preciso passaporte para trafegar nas áreas de 'pretos' e 'brancos', Na quinta, comemora-se o Dia da Consciência Negra. Mais debates e projeções. Não é preciso lembrar Yoko Ono, que nos anos 1970 proclamava - 'A mulher é o negro do mundo' -, dessa maneira bradando contra a discriminação e o preconceito. A mulher e o gay ampliam seu espaço, mas o mundo e o 'sistema' continuam discricionários. Se você é negro, pobre e vive na periferia, vira alvo preferencial nas fuzilarias documentadas por Theresa Jessouroun. Cada um desses eventos tem o seu local, o seu público. O ideal é trafegar entre eles, porque o cinema, quando é bom, não tem fronteiras e debate, em muitas frentes, termina sendo um só.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.