Mostra da Bahia homenageia Othon Bastos

Vai ser uma festa bonita. A 27.ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia homenageia no sábado o ator Othon Bastos. O organizador do evento, Guido Araújo, quer fazer uma grande festa em Salvador. Espera reunir todos os amigos de Bastos, aqueles que esculpiram com ele o sonho do cinema brasileiro. A homenagem é mais do que merecida. Pouca gente se lembra, mas Othon Bastos inaugurou o palavrão no cinema nacional, dizendo um que deu o que falar em Sol sobre a Lama de Alex Viany. Também foi o jornalista sem escrúpulos de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte. Tudo isso é história, mas Bastos, no cinema, é o ator glauberiano por excelência.Não adianta dizer que sua melhor interpretação é como Paulo Honório, na belíssima adaptação que Leon Hirszman fez do romance de Graciliano Ramos, São Bernardo. Sempre que se faz a associação Othon Bastos e cinema, o que vem à cabeça é o Corisco de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Talvez seja, ainda hoje, decorridos 36 anos, o papel mais marcante da carreira do ator. Foi seu primeiro filme com Gláuber Rocha. Eles fizeram depois O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, mas o filme que marcou foi Deus e o Diabo. O mais surpreendente, considerando-se que filme e personagem viraram peças emblemáticas do Cinema Novo, é que Bastos não foi a primeira escolha de Gláuber para o papel.Hoje fica difícil imaginar outro Corisco, mas Gláuber estava convencido de que precisava de um ator de porte para fazer frente a Maurício do Valle, o Antônio das Mortes. Se não, ele achava, o público riria do duelo final. Escolheu Adriano Lisboa, que era alto e forte como Maurício do Valle. Mas Lisboa foi fazer outro filme e a solução de Gláuber foi chamar Bastos. Fizeram história. Deus e o Diabo é um dos cinco filmes que estão sendo exibidos na jornada, neste fim de semana, como parte da homenagem ao ator. Os outros programas são O Dragão da Maldade, também de Gláuber; Sol sobre a Lama, de Viany; Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra; e São Bernardo, de Hirszman.Sua participação em Deus e o Diabo é tão forte que nunca conseguiu livrar-se da imagem de Corisco nem do estigma de ator glauberiano. Por conta disso, integrou o elenco de A Terceira Morte de Joaquim Bolívar, que Flávio Cândido construiu à sombra de Gláuber, tendo o próprio diretor como um de seus personagens principais. Não foi aquela a única vez que teve sucesso como ator substituto. Ele também não foi a primeira escolha de Paulo César Saraceni para Capitu (era Gianfrancesco Guarnieri) nem a de Ruy Guerra para Os Deuses e os Mortos (Walmor Chagas). O importante é que foi sempre bem-sucedido. Reprodução/AECena do ator em Sermões, de Júlio Bressane Baiano, é neto de senhores de engenho de Tucanos, no alto sertão da Bahia, perto de Monte Santo. Jovem, ainda, foi morar no Rio, onde se formou em filosofia e começou a flertar com o palco, freqüentando o Teatro Duse, de Paschoal Carlos Magno, em Santa Tereza. De volta a Salvador, fez teatro e cinema. Nunca mais parou. Além dos papéis importantes em todos os filmes citados, apareceu em muitos outros - de Sermões, de Júlio Bressane, a Central do Brasil, de Walter Salles (para o qual teve de fazer teste), passando por A Próxima Vítima, de João Batista de Andrade, e O Que É Isso Companheiro?, de Bruno Barreto.No teatro, participou de montagens fundamentais - Eles não Usam Black-Tie, O Rei da Vela, Castro Alves Pede Passagem, Um Grito Parado no Ar, Murro em Ponta de Faca, Calabar, Patética, Caixa de Cimento. A relação é maior do que o espaço desse texto. Com a mulher, Martha Overbeck, fundou o Teatro Vila Velha, de Salvador, pelo qual passaram, nos anos 60, os doces bárbaros. Na TV, encarnou o supra-sumo da canalhice como o Ronaldo de Roque Santeiro e, no outro extremo, viveu um personagem essencialmente familiar em Éramos Seis. É um raro e grande ator brasileiro. Completo - no teatro, cinema e televisão. Uma força da natureza a serviço da arte da representação.

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