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Mostra comemora 20 anos do Manifesto Dogma 95 de Von Trier e Vinterberg

CCBB exibe filmes do movimento dos diretores dinamarqueses

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2015 | 04h00

Conta a lenda que Lars Von Trier e Tomas Vinterberg teriam levado apenas 45 minutos para redigir as regras do documento que ficou conhecido como Dogma 95. Inicialmente divulgado como manifesto, em 13 de março de 1995, em Copenhague, o Dogma ganhou projeção internacional uma semana mais tarde, em 20 de março daquele ano, quando Von Trier, convidado a participar de um evento comemorativo do centenário do cinema, apresentou ao público do Odéon – Théâtre de l’Europe, em Paris, os dez mandamentos do novo cinema.

Começa nesta quarta, 2, no Centro Cultural Banco do Brasil um ciclo que vai lembrar não apenas os 20 anos do Dogma, mas também os grandes momentos e a herança do movimento dos monges-cineastas dinamarqueses. Tudo se iniciou com uma conversa entre amigos, Lars (Von Trier) e Tomas (Vinterberg). Em 1995, o cinematógrafo dos irmãos Lumière comemorava 100 anos. Em termos de arte, de humanidade, um século representa um período muito curto, mas bastou isso para que Von Trier e Vinterberg chegassem à pessimista conclusão de que o cinema estava em crise, se não esgotado.

Demasiados filmes industriais, excesso de efeitos. Nesse quadro, o Dogma 95 estabelecia regras para a criação de um cinema mais autoral, menos comercial. Filmagem local, som direto, nenhuma música que não faça parte da cena, cor, câmera na mão, nada de ação (de gênero), etc. Logo, outros diretores somaram-se a Von Trier e Vinterberg. Soren Kragh-Jacobsen, Kristian Levring, etc. O Dogma converte-se num movimento de cinema com desdobramentos na França, com Jean-Marc Barr, ator e discípulo de Von Trier, e até no Brasil, com o Dogma feijoada de Jefferson De.

Passaram-se três anos e o Festival de Cannes de 1998 virou a vitrine para o lançamento e consagração do Dogma. O repórter estava lá. Assistiu a Os Idiotas, de Lars Von Trier, e a Festa de Família, de Tomas Vinterberg. Entrevistou os dois diretores. O Dogma já nascia sob o signo da controvérsia. Von Trier admitiu que sempre quisera fazer um filme de sexo explícito – e faria depois Ninfomaníaca (1 e 2). Os Idiotas contesta o comportamento social. Mostra homens que agem como idiotas e abusam de uma mulher, que ela, sim, é idiota de verdade. Mais do que qualquer outra coisa, o Dogma nascia subvertendo conceitos de correção política. A mulher, no filme, conduz o olhar do público. O que ocorre com ela é o que engloba a crítica do autor. Naturalismo, autenticidade? O Dogma, com seu visual cru – imagens com grão estourado –, já nasceu fraudado. Pois nas cenas de sexo, com direito a ereção e penetração, Von Trier, para não constranger seus atores, contratou profissionais do cinema pornográfico.

Em Festa de Família, Vinterberg foi mais tradicional, com uma dramaturgia clássica em três tempos. Família reúne-se na casa de campo para comemorar o aniversário do patriarca. Um dos filhos levanta-se, pede a palavra e lança a bomba. Anuncia que a irmã e ele sofreram abuso por parte de papai. Estabelece-se o caos. Para tumultuar ainda mais, todo o grupo hostiliza o namorado negro da outra filha. Dois anos antes, em pleno Dogma, Von Trier mostrara em Cannes Ondas do Destino, um dos filmes mais suntuosos, em termos de mise-en-scène e beleza da imagem, já feitos. Ainda não era Dogma. Dois anos depois, em 2000, o festival celebrava as novas tecnologias por meio de um seminário internacional. E Von Trier ganhou a Palma de Ouro com Dançando no Escuro, musical dramático (com Björk) cujo marketing estava nos números de canto e dança gravados com nada menos de 100 câmeras digitais.

O Dogma agregou, diversificou-se. Tudo isso estará na programação do CCBB. Dogville, de Von Trier, é um filme do Dogma? Em 2003, o diretor ainda era queridinho em Cannes. O Blu-Ray do filme tem o telefonema de Gilles Jacob, que ligou para o diretor em sinal de deferência, para dizer que ele não ganhara a (segunda) Palma de Ouro. A lua de mel na Croisette terminou no ano de Melancolia, 2011. Inspirando-se no depressivo romantismo alemão, Von Trier fez declarações consideradas nazistas. Virou persona non grata. É tempo, agora, de revisar o que fica desses anos de mudanças e provocações.

DOGMA 95. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, Centro, telefone 3113-3651. Ingressos: R$ 4. Até 14/9. 

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