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Mostra celebra cinema de Luis Buñuel, o mais iconoclasta dos surrealistas

Diretor subverteu os fundamentos da tradição, da família e da propriedade; evento será no Sesc Pinheiros; confira vídeos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 Março 2015 | 13h03

Em sua autobiografia, escrita em parceria com o roteirista Jean-Claude Carrière - Meu Último Suspiro -, Luis Buñuel ratifica seu ódio à informação, mas afirma que, morto, gostaria de erguer-se a cada dez anos, na tumba, e caminhar até a banca para comprar jornais. "Não pediria mais nada. Com os jornais debaixo do braço, lívido, esbarrando nos muros, retornaria ao cemitério e leria os desastres do mundo, antes de tornar a dormir, satisfeito, na proteção tranquilizadora da sepultura." Buñuel, que morreu em 1983, aos 83 anos, nunca duvidou de que a despeito do desenvolvimento tecnológico, a humanidade seguiria atrasada em termos de civilidade. Guerras, atentados, a religião alienadora, um sistema econômico baseado no consumismo e na desigualdade, ele certamente encontraria vasto material para sua obra crítica e demolidora.

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Parte dessa obra, uma das mais importantes do cinema, estará em revisão a partir desta terça, 3, no Sesc Pinheiros, dentro do projeto Tela Clássica. Em todas as terças-feiras do mês, o evento estará exibindo um filme importante do diretor. A programação começa com Um Cão Andaluz/Un Chien Andalou e A Idade do Ouro/L'Age d'Or e prossegue, pela ordem, com Os Esquecidos, Viridiana, O Anjo Exterminador e A Bela da Tarde. Filho de uma família da alta burguesia, Buñuel nasceu em Calanda, na Espanha, fez seus primeiros estudos com os jesuítas - e veio daí seu ódio à religião -, prosseguiu na Faculdade de Ciências de Madri, mas tudo mudou quando se mudou para Paris, em 1925, e encontrou os surrealistas. O encontro foi decisivo. O jovem Luís descobriu sua vocação. Em 1928, apadrinhado por André Bréton, mostrou no mítico cinema das Ursulinas o filme experimental que fizera com o pintor Salvador Dalí.

Aquela virou uma data na história do cinema.

Logo na abertura, uma navalha corta um olho, sinalizando que aquilo que o espectador vai ver não pertence ao domínio do real. No Cão e em A Idade do Ouro, Buñuel e Dalí não apenas propõem seus manifestos surrealistas. Todo Buñuel já está ali sinalizado, e pelos anos e décadas seguintes ele prosseguiu com sua obra revolucionária, subvertendo os fundamentos da tradição, da família e da propriedade. Odiava a religião - com que desgosto deveria encarar a escalada do fundamentalismo. De volta à Espanha, fez um documentário sobre uma das regiões mais pobres do país - Las Hurdes. A vitória do generalíssimo Francisco Franco na Guerra Civil representava tudo a que se opunha, e Buñuel, ligado aos republicanos, iniciou o exílio. Foi para o México e fez filmes de gênero, obras comerciais em que conseguiu deixar impressa sua marca, mas ele sempre lamentou que, em Os Esquecidos - seu olhar sobre a infância das ruas -, não tenha conseguido criar todas as cenas surreais que queria.

Superando a adversidade, Buñuel fez no México filmes que estão entre os seus maiores. El, a tragédia de um ciumento compulsivo - adorado por Lacan -, Ensayo de Un Crímen, Nazarín. No começo dos anos 1960, voltou à Espanha e realizou Viridiana, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes. Uma beata acolhe em casa mendigos que a violentam. Foi demais para o regime de Franco e Buñuel voltou ao exílio mexicano. Fez O Anjo Exterminador, baseado no livro Os Náufragos da Rua da Providência, sobre um grupo encerrado numa casa. As pessoas tentam sair, mas não conseguem. É uma situação que ocorre com frequência no cinema de Buñuel - Em A Idade do Ouro, o casal tenta se unir, mas não consegue; Esse Obscuro Objeto de Desejo é sobre a necessidade de um velho por sexo, que nunca se concretiza; em Ensayo de Un Crímen, o personagem quer inutilmente se matar; e em O Discreto Charme da Burguesia, o grupo quer jantar, mas também não consegue.

Os filmes de Buñuel usam personagens em situações e com objetos que poderiam ser reais, mas não o são. Objetos triviais são muitas vezes usados para coisas surpreendentes e o tom nunca é realista. Sévérine, em A Bela da Tarde - com o qual ganhou o Leão de Ouro em Veneza, em 1967 -, é uma burguesa casada, mas insatisfeita, que se emprega num bordel, onde vira a prostituta mais requisitada da casa. Sua fantasia é submeter-se às fantasias dos clientes. Buñuel baseou-se num livro de Joseph Kessel, mas em momento algum cede às tentações psicologizantes do autor. As lembranças de infância da protagonista são integradas num bloco compacto em que passado, presente e futuro não parecem propor outra coisa senão (meta)linguagem, uma nova maneira coesa de contar a história. Não sabemos o que o misterioso cliente oriental mostra a Sévérine na caixa nem porque o médico precisa de um tinteiro nem se o insistente olhar do marido para a cadeira de rodas é para ser premonitório.

No México, Buñuel queixava-se da falta de recursos. Não tinha dinheiro nem para compor um guarda-roupa decente para os personagens. O sucesso de público e crítica de A Bela da Tarde - além, de criar/consolidar o mito de Catherine Deneuve - forneceu-lhe, finalmente, os meios e condições de que necessitava. E foi assim um Buñuel mais sereno, mas não menos iconoclasta, que na fase final conseguiu fazer, como queria, os filmes que queria. Em muitos desses filmes, a partir de Belle de Jour, a palavra fim perde o valor semântico e vira recomeço. A própria obra de Buñuel estava tão adiante de sua época que a vemos sempre com espanto e admiração. Como um (re)começo da arte. Como parte da programação, a cineasta Gislene Santos Soares vai ministrar uma oficina sobre o diretor. Informações e inscrições no Sesc Pinheiros.

TELA CLÁSSICA LUIS BUÑUEL

Sesc Pinheiro. Auditório. Rua Paes Leme, 195, 3º andar, 3095.9400.

3ª, às 20 h. Grátis - retirada na bilheteria com uma hora de antecedência

Programação:

Dia 3 - Um Cão Andaluz (Un Chien Andalou) - França, 1929, 16 min. Preto e branco. Experimental. Este filme é um experimento cinematográfico surrealista envolvendo o sonho, a realidade e o subconsciente. Dalí (co-autor do roteiro) e Luis Buñuel exploram o inconsciente humano, numa sequencia de cenas oníricas, incluindo uma em que um homem, interpretado pelo próprio diretor, corta o olho de uma mulher com uma navalha. Com Luis Buñuel, Pierre Batcheff e Simone Mareuil.

A Idade do Ouro (L'Âge D'or) - França, 1930, 60 min. Preto e branco. Gênero: Drama/Comedia/Fantasia.Um homem e uma mulher loucamente apaixonados são impedidos pela família, pela religião e pela sociedade burguesa de consumar sua relação. Com Gaston Monot, Lya Lys e Max Ernst.

Dia 10 - Os Esquecidos (Los Olvidados) - México, 1950, preto e branco. Gênero: Drama. Duração: 85 minutos. A história de Jaibo, fugitivo de um reformatório e líder de um grupo de jovens delinquentes da cidade do México que um dia, em companhia de Pedro, espanca o menino Julian até a morte por achar que este o delatou. Obra prima da fase mexicana de Buñuel, premiado como melhor diretor do Festival de Cinema de Cannes em 1951. Com: Roberto Cobo, Alfonso Mejia, Miguel Inclan, Alma Delia Fuentes.

Dia 17 - Viridiana (Viridiana) - Espanha/México, 1961, preto e branco. Gênero: Drama. Duração: 91 minutos. A jovem noviça Veridiana vai visitar seu tio que está à beira da morte antes de se tornar freira. O velho, obcecado por sua beleza, tenta seduzi-la a qualquer custo, antes de morrer repentinamente. Veridiana decide então esquecer o convento e transformar a casa herdada do tio em um albergue. Com Silvia Pinal, Francisco Rabal e Fernando Rey.

Dia 24 - Anjo Exterminador (El ángel exterminador) - México, 1962, preto e branco.Gênero: Drama/Suspense/Surrealismo. Duração: 95 minutos. Depois de finalizarem uma farta e extravagante refeição, um grupo de convidados sente-se estranhamente incapaz de deixar a sala de jantar. Os dias seguem, as mascaras caem, as virtudes se dissipam e o grupo passa a agir irracionalmente. Com Silvia Pinal, Enrique Rambal e Antonio Bravo.

Dia 31 - A Bela da Tarde (Belle de jour) - França/Itália, 1967, colorido. Gênero: Drama. Duração: 102 minutos. Catherine é uma jovem bonita, rica e infeliz. Ama seu marido, um médico, mas, sexualmente insatisfeita, busca um bordel para realizar suas fantasias eróticas, encontrar o prazer e se sentir completa. Com Catherine Deneuve, Jean Sorel e Michel Piccoli.

 



 

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