Mostra apresenta o novo cinema português

Nem só de Manoel Oliveira vive o cinema de Portugal. É o que pode descobrir o paulistano a partir de hoje com a 3.ª Mostra de Cinema Português em São Paulo, promovida pelo Instituto Camões e pela Cinemateca Brasileira. O ciclo estende-se até o dia 24 e apresenta 13 longas-metragens inéditos no Brasil. Os filmes são de realização recente. Os mais antigos foram feitos em 1999: Em Fuga, de Bruno de Almeida, Glória, de Manuela Viegas, Jaime, de António Pedro Vasconcelos, e Quando Troveja, de Manoel Mozos. Os mais recentes - Joana, a Louca, de Vicente Aranda, e A Filha, de Soveig Nordlund - são deste ano. Novinhos em folha, e sem nenhuma oportunidade no mais do que restrito e conservador mercado de exibição do Brasil.No entanto, são filmes que mereceriam uma oportunidade. O escolhido para a abertura da mostra - Inferno, de Joaquim Leitão - chega cercado de muitos elogios. E, de fato, é uma obra forte, embora com problemas. Fala do passado colonial português e das seqüelas (físicas e psicológicas) dos ex-combatentes. Estes se reúnem regularmente em um bar, nos confins do Alentejo, para beber em doses industriais e recordar os tempos de luta em Angola. A reunião transforma-se em trip alcoólica que descamba para a violência. Como se aqueles homens, contaminados pela guerra, não pudessem mais se dar o direito de viver uma existência normal.Pode-se fazer alguns reparos à maneira um tanto prolixa como Leitão monta o material. Ou da mise-en-scène meio pesada, mas talvez em consonância com a densidade do tema. Dificuldades à parte, trata-se de filme forte, sem nenhuma concessão, e digno de ser visto. Notável, no filme, o trabalho de interpretação de Joaquim de Almeida, ator famoso e conhecido no Brasil por ter interpretado um Sherlock Holmes cômico na adaptação do livro de Jô Soares, O Xangô de Baker Street.Já O Rapaz do Trapézio Voador oferece menos atrativos aparentes. Dirigida por Fernando Matos Silva, essa co-produção entre Portugal e Espanha tem o tom de uma fábula moderna. Num vilarejo perdido no mundo e ameaçado pelas águas de uma barragem, um rapaz se enforca. E a narrativa passa pela rememoração do morto - uma espécie de Brás Cubas machadiano, sem a mesma verve, ironia ou imaginação. Há certa redundância na maneira como as cenas são encadeadas e não se pode dizer que a história cresça com isso.Falando em co-produções, desperta curiosidade Joana, a Louca, feito em conjunto por Portugal e Espanha e dirigido pelo conhecido cineasta espanhol Vicente Aranda (de Os Amantes). Filme histórico, conta a vida de Joana de Castela, filha dos Reis Católicos de Espanha e prometida em casamento ao filho do imperador Maximiliano da Áustria. O Delfim, de Fernando Lopes, traz a História, com agá maiúsculo, mais para perto do espectador contemporâneo, ambientando uma trama aparentemente de teor fantástico durante a agonia de Oliveira Salazar, em 1968.Nota-se que os filmes programados procuram, de uma maneira ou de outra, referir-se aos problemas da sociedade portuguesa. Pode ser o rescaldo do após-guerra, como em Inferno, ou a questão da identidade nacional, como em Duplo Exílio, de Artur Ribeiro. Ou ainda, o simples desafio de ser jovem numa sociedade sem grandes aspirações coletivas, como em António, um Rapaz de Lisboa, de Jorge Silva Melo.3.ª Mostra do Novo Cinema Português. Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 5084-2318. Até 24/8.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.