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Mostra abre janela para conhecer produção do Equador

Filmes do país na Galeria Olido somam à qualidade estética o desejo de revelar uma realidade ainda pouco conhecida

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 de março de 2014 | 19h17

Uma das garotas chama-se Tristeza, a outra, Esperança. Tristeza cai na estrada em busca do namorado que desapareceu, e que agora ela descobre que está se casando com outra. Tristeza reflete que sua vida não tem finais felizes. Jesus, que compartilha a estrada, diz que o happy ending é só uma questão de timing. De cair fora na hora certa, não esperando que as circunstâncias virem as coisas contra a gente. O filme é A Que Distância, Qué tan Lejos, de Tania Hermida. Todos esses nomes, essas atitudes – o filme poderia ser simbolicamente pesado, e até naïf, mas tem um encanto todo particular.

A Que Distância integra a Mostra de Filmes Equatorianos que começou em 18 de fevereiro e rola até 16, no Cine Olido. Tem gente que nem sabe onde fica a sala – do lado da Galeria do Rock. É ignorar um espaço que tem se firmado como a cinemateca do pobre. Muita gente que vai ali, pagando um preço simbólico pelo ingresso, não é necessariamente cinéfila, mas o Cine Olido tem abrigado ciclos e filmes que não encontram outro espaço nem no circuito alternativo da cidade. A Que Distância terá mais uma exibição na terça, às 19 h. Mais do que dar ao filme uma chance, você deve se dar a chance de conhecer um pouco de uma cinematografia pouco conhecida no Brasil (leia ao lado).

São filmes bem interessantes. Abrem uma janela para que você conheça um pouco do próprio Equador, um país de maioria índio/mestiça, como o Peru e a Bolívia. É curiosa, inclusive, a forma como os filmes dialogam entre si. Pescador, de Sebastián Cordero, conta a história de um homem que quer romper com a tradição familiar. Ele não quer se dedicar à pesca, sonha com a cidade. Seu futuro talvez seja o protagonista de Atrás de Ti, de Tito Jara, que trabalha num banco em Quito e tem como principal preocupação evitar que os companheiros descubram sua origem mestiça. É triste quando a questão da identidade vira problema mesmo num país de forte mestiçagem. A revelação da identidade pode transformar Fabino Torres num cidadão de segunda categoria.

O preconceito está em toda parte – em Prometeu Deportado, de Fernando Mieles, grupos da União Europeia passam livremente pela segurança de um aeroporto, mas equatorianos tornam-se suspeitos. De quê? Melhor não Falar de Certas Coisas. É o título do longa de Javier Andrade, que compõe uma espécie de Álbum de Família, versão do Equador. Dois irmãos, ambos drogados, terminam provocando a morte do pai. Um deles é amante de uma mulher casada e o outro, um músico, vira artista exclusivo e também amante do marido da cunhada, quando ela o abandona. Logo no começo, quando precisa de dinheiro para a droga, um dos irmãos rouba um elefante de porcelana da casa dos pais e o empenha. Ao tentar recuperar a relíquia, ele desencadeia um processo que vai culminar num banho de sangue, mas o filme ainda não terminou. O sobrevivente inicia carreira na política.

Chacina, violência – Com Meu Coração em Yambo, de Maria Fernanda Restrepo, é o Mataram Meu Irmão do cinema do Equador. Como no longa do paulistano Cristiano Burlan, a diretora conta a história, em chave documentária, do assassinato de seus dois irmãos pela polícia nacional. E você ainda pode/deve ver Os Muros Silenciosos, de Gabriela Calvache. No centro de Quito, há um monumento nacional, a Casa del Alabado. Museu de arte pré-colombiana num local de grande beleza, a Casa também oferece uma síntese das violências cometidas por colonizadores contra o índio equatoriano. Esse tema atravessa os filmes do ciclo. É revelador que muitos deles sejam filmes de estrada, como se o próprio Equador estivesse em processo de (re)descoberta.

Incentivo é recente, mas Cordero foi lutador da produção

Filmes nunca foram uma prioridade e somente em 2006 foi criada a primeira lei de incentivo à produção no Equador. Como consequência, nos últimos anos surgiu uma produção mais numerosa, que compõe a maioria da programação na Sala Olido. Mas o Equador teve seus guerreiros que fizeram filmes contra toda a adversidade. Raros venceram a barreira da distribuição e chegaram ao Brasil, via festivais. O grande destaque foi Ratos, Ratones, Rateros, de Sebastián Cordero, de 1999, que ganhou projeção a partir de sua apresentação no Festival de Veneza. É o diretor de Pescador.

FILMES EQUATORIANOS

Galeria Olido. Avenida São João, 473, Centro, 3331-8399. 6ª, 17 h; sáb., 15 h, 17 h e 19 h; dom., 15 h e 17 h. R$ 1. Até 16/3.

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