Mostra abre discussões sobre cinema digital

Como quase todos os festivais deste ano, a Mostra Internacional de São Paulo teve um grande número de inscrições de filmes rodados em tecnologia digital. A criação de categorias novas (e até mesmo de um novo festival, o Brasil Digital, de cinema para Internet) é só uma das conseqüências dessa grande reviravolta no mundo cinematográfico. Aquilo que mais tem acontecido, no entanto, foram ciclos de debates sobre o tema. Merecidamente, pois não é sempre que aparece uma nova tecnologia que permite uma captação mais definida de imagem, além de sua manipulação e edição mais prática por um preço muito mais baixo. A Mostra inicia suas mesas redondas sobre o assunto nessa quarta.O primeiro alvo de discussões é o longa Angelitos, do português Humberto Santana. O diretor é, principalmente, um animador que desenvolveu um trabalho cinematográfico a partir de sua arte como cartunista. Começou a conhecer e apreciar o trabalho do brasileiro Angeli e o convidou para colocar seus personagens num filme animado integralmente por tecnologia digital. Assim, Angelitos conta, em 60 minutos, diversas historietas com os tipos criados pelo cartunista, que vão desde a mitológica Rê Bordosa até os endiabrados Skrotinhos.Após a primeira exibição, hoje às 20 horas, na Sala Uol, haverá um debate sobre cinema digital. Os convidados são o diretor Santana, Bob Lambermont, diretor da Barco Instruments (que fornece tecnologia digital para a sala), e o próprio Angeli.A Sala Uol está operando desde o dia 23 de outubro com o equipamento Barco, para projeção de filmes digitais. Até então, tudo que era produzido em tecnologia digital não tinha definição correspondente à captação, pois os filmes digitais tinham que ser convertidos para película para que pudessem ser exibidos nas salas convencionais. Nesse processo, chamado kinescopia, perde-se muito da qualidade da gravação em digital. O problema se repete - mas no sentido inverso - com alguns filmes exibidos na Sala Uol que estão em película e são projetados em equipamento digital. Excetuam-se dessa lista os digitais, como Angelitos, Meu Transumano e Time Code, e a Retrospectiva Luis Feuillade, cujos filmes foram recuperados em técnicas digitais pela Cinemateca Gaumont, na França.Na quinta, dia 26, haverá outro ciclo de debates, sobre o tema "Visões Sobre o Cinema Digital", após sessão do americano Time Code, de Mike Figgis, também na Sala Uol às 19h30. O debate contará com a presença do roteirista americano Syd Field, do produtor Richard Guay (Janis e Ghost Dog), do professor de cinema e TV da City University de Nova York Jerry Carlson, e da diretora brasileira Tata Amaral.O novo filme de Figgis, o mesmo de Despedida em las Vegas, foi um dos mais principais destaques do último Festival de Locarno. Também foi integralmente filmado com câmeras numéricas. Quatro, para ser exato, uma delas conduzida pelo próprio diretor. Figgis não só aproveitou para transgredir a forma usual de fazer cinema, como também subverteu a maneira normal de absorver cinema. Time Code são quatro planos-seqüências de 97 minutos, dividindo a tela em quatro partes, cada qual narrando histórias diferentes com vários personagens. Essas tomadas se encontram e nos ápices do filme as cenas convergem. Figgis aproveita-se do som para dar maior ou menor destaque para uma das quatro partes na tela, aumentando ou diminuindo seu volume. Assim, ele convida o espectador a escolher aquilo em que deseja concentrar sua atenção, e construir assim sua própria história, fixando as partes de maior interesse.O enredo não importa, é a parte mais fraca de todo o filme. Trata de forma irônica a vida de pessoas envolvidas na produção do filme Bitch of Lousiana, fazendo uma crítica ácida ao estilo de vida de Los Angeles (no elenco estão Golden Brooks, Salma Hayek, Saffron Burrows e Holly Hunter). Mas o conjunto de Time Code é instigante. A desestruturação do filme, carregada pela linguagem digital, vale uma discussão à parte.Na 24ª Mostra também está sendo exibido o primeiro longa brasileiro feito em tecnologia digital: De Cara Limpa, de Sergio Daniel Lerrer, cuja última projeção aconteceu nesta terça-feira, às 12 horas, para estudantes no Cinearte.

Agencia Estado,

25 de outubro de 2000 | 15h15

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.