Mostra abre debate sobre novas tecnologias

Inaugurada na sexta-feira com o novo longa de Sérgio Rezende, o bom Quase Nada, a 2.ª Semana Brasil e Independentes não pretende apenas ser o veículo para mostrar em São Paulo (e no Brasil) aqueles filmes feitos fora do circuito hollywoodiano e que, por isso mesmo, têm dificuldade para chegar ao País. A semana também quer ser o fórum para discutir-se grandes temas que agitam os bastidores do cinema atual. Hoje haverá um debate sobre formas de financiamento. Quarta-feira haverá outro sobre o cinema que se faz fora do circuito - o bombeiro Afonso Brazza, de Brasília, o camelô Simião Martiniano, do Recife, propõem novas formas e formatos para o cinema dito popular.Horríveis, ótimos? Veja os filmes e participe do bate-papo com os realizadores. O debate quente ocorre nesta terça-feira à noite. Digital - Técnica do Futuro terá, na mesa, a participação do videomaker Marcelo Tas, do diretor espanhol Agustí Villaronga, do exibidor Luiz Gonzaga de Luca, do Grupo Severiano Ribeiro, e do crítico José Carlos Avellar.Diretor-presidente da Riofilme, indicada para o Prêmio Multicultural 2000 Estadão Cultura na categoria fomentadora, Avellar conversou na sexta-feira com a reportagem. Antecipou o que vai dizer amanhã à noite. Avellar gosta de cair matando sobre Dancer in the Dark. Não gostou nem um pouco do filme de Lars Von Trier que ganhou a Palma de Ouro, em maio, em Cannes e é mais ou menos considerado o arauto das novas transformações que estão mudando a face do cinema. Avellar faz questão de ressaltar que não é contra as novas tecnologias. É contra o uso que Von Trier faz delas no seu musical com Björk.Ele compara a tecnologia digital e tudo o que vem no seu bojo com as transformações técnicas ocorridas por volta de 1960. Novas câmeras mais leves e com dispositivos acoplados para captação do som levaram a mudanças radicais. A Arriflex instituiu o conceito de câmera na mão. Livres do peso das velhas câmeras, os diretores puderam colocar a câmera no meio da ação, mudando não apenas os ângulos, mas também o próprio estilo de representação dos atores. A Arriflex na mão levou mais tarde, ou mais recentemente ao aprimoramento das steadycams. A Nagra foi decisiva para que irrompesse e se consolidasse a vertente chamada de cinema-verdade (ou cinema direto).Vocabulário - Houve uma (r)evolução técnica por volta de 1960, mas a contrapartida, e isso é que é importante, ressalta Avellar é que ela criou um novo vocabulário para o cinema, estabeleceu os fundamentos de uma nova estética - representada pela nouvelle vague, o movimento que, da França, irradiou-se para todo o mundo. A nouvelle vague foi certamente uma das fontes em que beberam os diretores do Cinema Novo e a estética da fome que eles pregavam influenciou cinematografias como as africanas, para só citar um exemplo. Foi uma (r)evolução técnica e estética que fez avançar a linguagem e a política do cinema, diz Avellar.Não é isso que ele vê hoje com o digital. Há exceções, claro, e Avellar cita o filme mexicano de Arturo Ripstein, Así es la Vida. Considera genial a abertura do filme, com a movimentação da câmera dentro da casa, acompanhando a protagonista. O digital, nesse caso, muda tudo. Equipe mais reduzida, menor custo de produção e grande liberdade de movimento. Mas não é sempre que isso acontece. Hollywood incorpora com alarde a nova tecnologia digital e os filmes não ficam melhores por isso. A técnica torna-se a razão de ser desses filmes, quando o ideal, segundo Avellar, é que a técnica se apague por trás daquilo a que serve - o que o diretor quer dizer e, isso sim, é o importante. Avellar defende uma técnica invisível, para usar-se um conceito com freqüência aplicado ao diretor francês, ex-nouvelle vague, Eric Rohmer.Von Trier, segundo ele, é um grande marqueteiro. Sabe, como poucos, fazer o lobby de si mesmo. Em Cannes, falava-se mais das cem câmeras digitais que ele usou numa cena de canto e dança de Dancer in the Dark do que do filme, propriamente dito. Avellar acha que se trata de um melodrama bem convencional. A nova tecnologia poderá mudar tudo - as formas de produção e, principalmente de distribuição e exibição, pois é esse o grande problema do cinema atual, e não apenas o brasileiro.Como fazer para que os novos filmes cheguem aos espectadores? A promessa é de democratização. Filmes mais baratos, tecnologia menos complicada. Por enquanto, é só uma promessa, que filmes como o supervalorizado Dancer in the Dark, segundo Avellar, não ajudam a concretizar.Digital - Tecnologia do Futuro. Amanhã (11), às 21 horas, na Sala 1 do Espaço Unibanco de Cinema (Rua Augusta, 1475 tel. 288-6780).

Agencia Estado,

10 de julho de 2000 | 15h46

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