Topkapi Films
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Mostra 2020: Mescla de drama e comédia, 'Druk' encerra em alta o evento

Filme do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg tem participação de Mads Mikkelsen

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 05h00

Será um encerramento em alto estilo, o da 44.ª Mostra. Thomas Vinterberg tem anunciado aos quatro ventos que seu novo filme não é uma história de fundo moral. Druk, também chamado de Another Round, renova a parceria do autor com Mads Mikkelsen. Juntos fizeram A Caça, que venceu o prêmio de melhor ator em Cannes, 2012, e foi indicado para o Oscar. O filme também impulsionou a carreira internacional de Mikkelsen, que fez a bem-sucedida série Hannibal nos EUA. Rememorando, Vinterberg foi signatário, com Lars Von Trier, do célebre Dogma que, nos anos 1990, revelou ao mundo os assim chamados “monges cineastas” dinamarqueses.

Dogma 95 foi um documento que estabeleceu dez regras para a realização cinematográfica. Von Trier seguiu uma carreira marcada por obras provocativas. Embora mais irregular, a filmografia de Vinterberg também lhe valeu não poucas polêmicas. Festa de Família, seu primeiro longa – e o primeiro filme do Dogma –, é sobre abuso familiar. Na festa de aniversário do patriarca surge a acusação de que papai abusava do casal de filhos. Em A Caça, Mikkelsen é um professor de jardim de infância acusado de abusar de uma garotinha em sua classe. A vida do protagonista desmorona, mas ele pega em armas para reverter o jogo – de caça, torna-se caçador. O novo Vinterberg faz o fecho da 44.ª Mostra nesta quarta, 4. Se o evento começou sob o signo da polêmica com Nova Ordem, do mexicano Michel Franco – a revolta dos excluídos que gera uma resposta violenta do sistema –, o encerramento também promete repercussão.

Na ficção de Vinterberg, Mikkelsen é um professor que não aguenta mais sua vida insossa. Os alunos, os filhos, a mulher, nada mais parece fazer sentido para ele. Nesse quadro de desalento – social e individual –, Mikkelsen e seus amigos assimilam as teorias do psiquiatra norueguês Finn Skarderud. Simplesmente o que Skarderud sustenta é que as pessoas estão vivendo com pouco álcool no sangue. Ele não é pela sobriedade, mas pela bebedeira. Mikkelsen e os três amigos passam os dias bêbados. Alcoolizados, a vida consegue melhorar? Embora anterior à pandemia, o filme surge num momento em que a quarentena aumentou o consumo de bebidas alcoólicas. Em alguns países – e até Estados do Brasil –, autoridades manifestaram preocupação e tentaram restringir o consumo de álcool. Vinterberg vai na contracorrente da maioria dos filmes que, abordando a bebida, são contra.

A sessão de encerramento será presencial no Parque do Ibirapuera, na parte de trás do auditório, onde, na segunda, 2, já foi apresentado Ladrões de Cinema, na homenagem ao diretor Fernando Coni Campos. A expectativa é de uma noite com temperatura mais amena. Na segunda, em plena natureza, o protocolo do distanciamento foi cumprido, as pessoas usavam máscaras, mas havia gente enrolada em cobertores para aguentar o gelo. Nesta quarta, as homenagens e a premiação começam às 8 da noite, e só depois passará o Vinterberg, que é distribuído no Brasil pela Vitrine e pela Sofá Digital. A produtora Sara Silveira receberá o prêmio Leon Cakoff e Walter Salles será homenageado pela Fiaf, Federação Internacional de Arquivos de Filmes, por seu trabalho na preservação de filmes. O destaque para Walter é tanto mais importante porque é simultâneo à premiação dos funcionários da Cinemateca Brasileira com o Humanidade – todos empenhados na luta para salvar a Cinemateca, que atravessa talvez sua pior crise.

Renata Almeida conversou na terça com o Estadão sobre a 44.ª Mostra. O fato de haver sido remota, para todo o Brasil, expandiu o universo dos espectadores. Ela recebeu e-mails emocionados como o da espectadora de Manaus que havia visto o Malmkrog de Cristi Puiu e lhe agradeceu pela oportunidade. Sem a Mostra ela talvez nunca tivesse assistido àquele filme que tanto a impressionou. Renata ainda fechava na terça a programação da repescagem. 

A Mostra termina oficialmente, mas prossegue até domingo, 8, com um número de filmes que ela estima que seja elevado, mas que ainda não conseguia antecipar. Essa programação adicional estará disponível em 44.mostra.org para que o público providencie os ingressos. O caso de Druk é especial: o filme poderá ter somente 500 visualizações. Na escolha do público que norteou a seleção de 15 filmes de autores estreantes – ou até o segundo filme – a que o júri formado por Sara Silveira, pela montadora Cristina Amaral e o diretor Felipe Hirsch assistiu para outorgar o troféu Bandeira Paulista, havia seis brasileiros, dois em coproduções internacionais. “Isso prova como o público estava carente de filmes brasileiros”, avalia Renata.

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