Morre Stanley Kramer, um contestador

Morreu na segunda-feira, em Los Angeles, com 87 anos, o cineasta norte-americano Stanley Kramer. O leitor mais jovem terá alguma razão para desconhecer o nome, porque a carreira de Kramer desenvolveu-se, de forma mais marcante, dos anos 50 aos 70. No entanto, talvez sirva para refrescar a memória situar Kramer como diretor de filmes como Adivinhe Quem Vem para Jantar, O Julgamento de Nuremberg, Deu a Louca no Mundo ou A Hora Final. Kramer foi seis vezes indicado para o Oscar e trabalhou com atores como Cary Grant, Sophia Loren, Tony Curtis, Sidney Poitier, Gregory Peck, Ava Gardner, Fred Astaire, Spencer Tracy, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Vivien Leigh, Anthony Quinn e Gene Hackman. Ou seja, com a nata. Mas não filmava desde 1979, quando assinou The Runner Stumbles, com Dick van Dyke e Kathleen Quinlan.A carreira de Kramer deve ser vista também por outro ângulo, por seu importante trabalho como produtor. Importante porque Kramer, numa época de conservadorismo nos Estados Unidos, teve a coragem de tocar em temas polêmicos como racismo ou os limites da competição liberal em Clamor Humano, de Mark Robson, ou A Morte do Caixeiro Viajante , de Arthur Miller, dirigida em sua versão cinematográfica por Lazslo Benedeck. Ou seja, durante um período de sua vida Stanley Kramer foi contestador dos valores da sociedade americana. Essa posição, digamos, política aparece nos filmes que produziu, mas também em alguns daqueles que dirigiu.Entre eles, o que talvez seja o mais conhecido do público brasileiro, Adivinhe Quem Vem para Jantar, no qual reuniu dois atores de carisma, Spencer Tracy e Sidney Poitier, em papéis antagônicos. Poitier é o namorado negro da filha de Tracy. O interessante é que a família não é particularmente racista ou intolerante. Ao contrário. Trata-se apenas de uma normal família norte-americana, que pode ser até tolerante, desde que não mexam com nossa filha. Para complicar a situação, Kramer põe em cena os pais de Poitier, que também concordam com Tracy sobre a inviabilidade do casamento interracial. Enfim, trata-se de uma comédia romântica capaz de mexer com os preconceitos mais arraigados e escondidos da classe média americana.Hoje, o filme pode parecer inocente. Mas na época em que foi feito, 1967, provocou reações e polêmica. Em especial porque criticava a má consciência liberal americana, protagonizada pelo casal Spencer Tracy-Katharine Hepburn - retratados, no fundo, como liberais de fachada. Foi o último trabalho no cinema de Spencer Tracy, despedida digna para um grande ator.Outro filme digno de nota (e que deveria ser reprogramado pelas TVs como homenagem) seria A Hora Final, um dos pioneiros, em 1959, da temática do holocausto nuclear. Em plena guerra fria, Kramer imagina um mundo devastado pela guerra atômica, no qual apenas a Austrália fora poupada. Com um elenco all star (Gregory Peck, Ava Gardner, Fred Astaire, entre outros) Kramer imagina as reações de uma sociedade terminal, porque mesmo na Austrália as ondas de radiação acabarão chegando e então o negócio é aproveitar a vida enquanto ela ainda for possível.Deu a Louca no Mundo foi uma das comédias mais comentadas do início dos anos 60. Ela começa num grande congestinamento de trânsito, quando um motorista, ferido em um acidente revela que escondeu uma fortuna de muitos milhões de dólares. Cada um procura chegar ao dinheiro antes do outro, ignorando que a polícia também está na pista, pois a grana é produto de roubo. A ação é sustentada ao longo de 154 minutos predominantemente por gags visuais e correrias, o que não é lá muito fácil. Foi considerada uma das melhores comédias dos anos 60 e funciona muito bem na tela grande. Na pequena não é lá essas coisas. Também se destaca pela capacidade de Stanley Kramer em arregimentar sempre o melhor elenco. Estão lá Spencer Tracy, o grande cômico Jimmy Durante, Mickey Rooney e Jerry Lewis, entre outros.

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