Morre o mito Anthony Quinn

Tudo começou quando Ricardo Bravo, querendo adaptar o romance O Carteiro e o Poeta, de Antonio Skármeta, entrou em contato com Anthony Quinn, que considerava o ator perfeito para o papel de Pablo Neruda. O filme não foi feito. Ou melhor, foi, mas com outro diretor (Michael Bradford) e outros atores (Massimo Troisi, como o carteiro, e Philippe Noiret, como o poeta). A linha direta com Quinn permitiu ao diretor convidá-lo para fazer, anos mais tarde, Oriundi no Brasil, mais exatamente no Paraná. Não foi o êxito que se esperava, nem de público, nem de crítica. Havia informações de que Quinn queria remontar o filme, para ver se o melhorava. Ele morreu ontem, aos 86 anos, de insuficiência respiratória em Boston, e vai ser enterrado no sábado. Vai-se um dos últimos mitos da velha Hollywood que ainda estavam em atividade diante das câmeras.Poucas carreiras se comparam à dele. Quinn foi índio, caubói, gângster, pintor, pugilista, guerrilheiro, esquimó, profeta (o próprio Maomé) e até papa - Kiril I, no filme As Sandálias do Pescador, que Michael Anderson adaptou do best seller de Morris West sobre o que, nos anos 60, parecia a mais louca das ficções - um pontífice que vinha do Leste europeu para mudar a estrutura secular da Igreja. Quinn gostava de dizer que, como ator, não conhecia nacionalidades nem fronteiras. A arte é universal ou não é, acreditava. Comentou isso quando a reportagem foi visitá-lo no set de Oriundi, em Curitiba. Foram dois dias de visitas. No primeiro, foi possível vê-lo rodar cenas importantes, acompanhado, à distância, pela mulher, de 36 anos, e os filhos, um menino de 2 e uma menina de 4. Era a imagem de uma família feliz, embora Quinn, já com 83 anos, parecesse bisavô dos próprios filhos. No segundo, a reportagem foi admitida na mansão em que ele se hospedava em Curitiba - e na qual conversou com o repórter enquanto cortava o cabelo e fazia a barba, desvestindo-se do visual do patriarca italiano Giuseppe, que interpretava naquele filme. A história do velho que reencontrava a mulher morta não era muito bem contada, mas, aqui e ali, percebiam-se detalhes do belo filme que Oriundi poderia ter sido. As cenas de Quinn e Paulo Autran eram primorosas. Entenderam-se perfeitamente no set, dois grandes atores que se comunicavam por meio da arte. E havia, claro, as cenas no mar.Que mistério tem o mar nos grandes filmes de Quinn? Ricardo Bravo, com certeza, deve ter pensado em A Estrada da Vida, de Federico Fellini, e em Zorba, o Grego, de Michael Cacoyannis, ao escrever a cena do velho na praia. Em La Strada, Quinn criou o brutamontes Zampanò, incapaz de perceber que o amor o tempo todo estava perto dele, representado pela frágil e chapliniana Gelsomina, interpretada pela mulher do diretor, Giulietta Masina. Desesperado com a perda de Gelsomina, Zampanò, diante da imensidão do mar, cai na areia da praia soluçando e daí retira a força para reerguer-se, a mesma que impulsionava a própria Giulietta como outra notável heroína felliniana, a prostituta de bom coração de As Noites de Cabiria. E havia, claro, o sirtaki que Zorba e o inglês, Quinn e Alan Bates, dançavam no desfecho do filme que Cacoyannis adaptou do romance de Nico Kazantzakis, após outra desgraça que os lançava no desespero, mas da qual emergiam esperançosos porque Quinn, no cinema, representava uma força vital que nada, nem ninguém, podia destruir.Ele nasceu em Chihuahua, no México, em abril de 1916, filho de pai irlandês e mãe mexicana. O pai, cinegrafista, mudou-se para Hollywood com toda a família e ficou amigo do lendário Rodolfo Valentino. Foram duas influências decisivas para Quinn. Com o pai, ele aprendeu que era possível ser romântico e durão. E, com Valentino, descobriu o que queria - ser respeitado pelos homens e desejado pelas mulheres. Fez o primeiro filme em 1936 - Parole, de Lew Landers. Nos anos seguintes, estabeleceu-se como coadjuvante, fazendo todo tipo de personagem. Permaneceu coadjuvante até os anos 50, quando foi fazer A Estrada da Vida com Fellini. Começa aí sua carreira de protagonista, embora ele ainda tenha voltado aos papéis de coadjuvante - em Os Canhões de Navarone, de J. Lee Thompson, participando de uma aventura de guerra que pode não ser clássica mas marcou época, no começo dos anos 60, e em Lawrence da Arábia, de David Lean, fazendo o impressionante xeque Auda Abu Tayi. Para tornar viável a produção de A Estrada, trabalhou por uma porcentagem, que vendeu por migalha, como gostava de dizer. Quando o filme estourou em todo o mundo, foi outro, e não ele, que encheu o bolso. Zorba foi outro filme barato que só se tornou possível quando ele, além de trabalhar praticamente de graça, convenceu o tycoon da Fox, Darryl Zanuck, a investir dinheiro na produção, em troca dos direitos internacionais de distribuição.Ação - Analisando a carreira de Quinn, pode-se ver que ela passa por fases bem distintas. Os primeiros filmes americanos são de ação, só mais tarde, no cinema europeu, ele fez a passagem para um cinema da indagação existencial. Ganhou duas vezes o Oscar de coadjuvante - em 1952, por Viva Zapata!, de Elia Kazan, no qual fazia o irmão do revolucionário mexicano interpretado por Marlon Brando, e em 1956, por Sede de Viver, a cinebiografia de Van Gogh, por Vincente Minnelli, na qual fazia Paul Gauguin. Ele próprio gostava de dizer que seus melhores papéis tratam sempre do conflito entre corpo e alma. Os que melhor o definem são os de Zampanò e Zorba. Zampanò radicaliza essa brutalidade do físico que aprisiona a alma e impede a livre manifestação dos sentimentos e Zorba pronuncia a frase que Quinn transformou em divisa: "A única morte real é a que sofremos a cada dia, quando nos recusamos a viver."Até por essa divisa, ele gostava de dizer que representar era a sua missão na vida. Mas acrescentava que era representar um certo tipo de personagem, capaz de levar esperança às pessoas. Acrescentava, também, que, por não ter conseguido dizer tudo o que queria nos filmes - um deles, Lafitte, o Corsário, só como diretor -, virou pintor e escultor. Pode-se pensar que a origem do artista plástico ele a tenha descoberto ao interpretar Gauguin, outro de seus personagens marcantes. Embora morasse nos EUA, o ateliê ficava em Carrara, região da Itália famosa por seus mármores. Ele dizia que desde os 14 anos gostou de pintar, só bem mais tarde tendo coragem de assumir essa paixão. Tendo conseguido triunfar como ator, tinha medo de colher críticas negativas como artista plástico.No fim da vida, Quinn havia conseguido serenar seus demônios, mas na autobiografia Tango Solo conta que sofreu muito com o complexo de inferioridade, que tinha origem na sua condição de chicano em Hollywood. Quase enlouqueceu ao casar-se com a filha de Cecil B. de Mille e descobrir, na noite de núpcias, que ela não era virgem. Conta que a vida dos dois foi um inferno, agravado quando o filho morreu na piscina. Ainda no terreno das confissões, faz uma divertida em Tango Solo, que ajuda a entender como era (será que ainda é?) Hollywood. Durante a rodagem de Sangue e Areia, de Roubén Mamoulián, teve um caso com a sexy Rita Hayworth, que fazia Doña Sol. O marido da estrela descobriu e achou que, se era para ser traído pela mulher, que ela, pelo menos, tivesse um caso com Tyrone Power, que era um astro e não com um mero coadjuvante do filme.Anthony Quinn morreu sem ter realizado dois sonhos. Tentou muitas vezes tornar viável o projeto de Os Velhos Marinheiros, baseado no romance de Jorge Amado, convencido de que o personagem era talhado para ele. Em Curitiba, contou que perdeu US$ 500 mil do próprio bolso pagando um roteirista que lhe apresentou um script insatisfatório. O marinheiro que vive de mentiras que um dia se transformam em verdades sempre exerceu profundo fascínio sobre ele. O outro filme que queria fazer era sobre Tolstói. Por que o gênio da literatura? "Porque além de ser um grande escritor, foi um profeta, um demiurgo e esse é o tipo de gente que me interessa." Ao deixar o Brasil, estava convencido de que ainda conseguiria fazer os dois filmes e dizia que o de Tolstói sairia antes. Não houve tempo.

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