Morre nos EUA o último dos diretores de western

Ele era o último dos diretores que ajudaram a esculpir a grandeza do gênero que, nos anos 40 e 50, chegou a ser definido como "o cinema norte-americano por excelência". O western, claro. Anthony Mann morreu em 1967, John Ford, em 1973, Howard Hawks, em 1977, Delmer Daves, tambémem 1977, Raoul Walsh, em 1980, Sam Peckinpah, em 1984, Henry Hathaway, em 1985, John Sturges, em 1992. Ao deles é preciso acrescentar o nome de Sergio Leone, que morreu em 1989 e conseguiu o prodígio de elevar um produto tão falsificado quanto o spaghetti western à condição de uma das mais belas artes. Budd Boetticher era o único que restava, solitário. No sábado, ele perdeu a batalha que, há anos, travava contra o câncer e morreu na sua casa em Ramona, na Califórnia, aos 85 anos.Pode ser que a grande arte de Boetticher permaneça um segredo de poucos, aqueles mesmos que se mantêm fiéis à chama do western. Hoje em dia, somente Clint Eastwood ainda se esforçapara manter vivo o gênero e, mesmo ele, há quase uma década, deve ao seu público a realização de outro bangue-bangue tão bom quanto Os Imperdoáveis, que ganhou o Oscar de 1992.Boetticher não filmava desde o fim dos anos 60. Sua memorável série de westerns com Randolph Scott foi realizada entre 1956 e 1960. O primeiro daquele bloco de seis filmes foi Sete Homenssem Destino. O último, Cavalgada Trágica. Entre esses extremos surgiram: O Resgate do Bandoleiro e EntardecerSangrento (1957), Fibra de Herói (1958) e Um Homem deCoragem (1959). Quatro foram escritos por Burt Kennedy. E todos estão entre o que de melhor se fez no cinema do Oeste.Houve um tempo em que o fascínio do cinema podia ser resumido numa fórmula: um homem, um revólver, um cavalo e a pradaria imensa. O western surgiu do encontro de uma tradição de heroísmo com um meio de expressão. E criou uma mitologianorte-americana, até porque, como disse o mestre Ford em O Homem Que Matou o Facínora, há momentos em que é melhor "imprimir a lenda". É verdade que essa lenda escondeu ogenocídio dos índios e estabeleceu a cultura das armas como a ideologia do (meio) Oeste dos EUA. Mas o próprio cinema se encarregou de desmistificar a conquista do Oeste, por meio deobras memoráveis assinadas por John Ford e Sam Peckinpah.Budd Boetticher era o nome artístico de Oscar Boetticher Jr. Sua vida é daquelas que dariam um romance. Boetticher foi pugilista e jogador de rúgbi. No México, aprendeu a tourear e virou um toureiro famoso. Foi o que lhe abriu as portas deHollywood. No começo dos anos 40, foi contratado como consultor técnico para as cenas de touradas de Sangue e Areia, que Rouben Mamoulian adaptou do romance de Blasco Ibañez, com TyronePower no papel do toureiro. Fez um punhado de filmes anódinos e, então, em 1951, surgiu The Bullfighter and the Lady, quepassou no Brasil como Paixão de Toureiro. O filme foi supervisionado por John Ford. E, por tratar de um assunto que era a especialidade do diretor, ele se saiu bem, assinando umtrabalho mais interessante e pessoal que todos os anteriores.No mesmo ano fez o western O Último Duelo, com AudieMurphy, seguido por Seminole, com Rock Hudson, e Sanguepor Sangue, com Glenn Ford. Prepararam o caminho para aexplosão de Sete Homens sem Destino, que foi como se chamou,no Brasil, Seven Men from Now. O crítico francês André Bazinfoi o primeiro a chamar a atenção para a importância desse filmeextraordinário. Percebeu que, com ele, algo de novo se passavano gênero. É preciso observar o momento do western em queBoetticher realizou sua obra-prima. Nos anos 50, diretores comoFred Zinnemann em Matar ou Morrer e George Stevens em OsBrutos também Amam (Shane) deram ao western umarespeitabilidade que ele, por ser popular, ainda não lograraalcançar entre os intelectuais. Tanto o western como o musicalcelebram uma estética do plano geral, mas o segundo eraconsiderado mais "artístico". É conhecida a história de JohnFord, pedindo a palavra numa reunião para debater o macarthismo.Para se definir, ele disse que fazia westerns. Já era umvencedor de três Oscars, mas nenhum deles veio por No Tempodas Diligências (Stagecoach) nem por qualquer outro deseus faroestes. Vieram por filmes como O Delator, que nãoresistiu bem ao tempo, por Vinhas da Ira e Como Era VerdeMeu Vale. Nos 50, viria mais um, por Depois do Vendaval.Quatro Oscars e nenhum por filmes de faroeste. O gênero,decididamente, era discriminado. Aí vieram os westerns deZinnemann, supervalorizado mas importante por enfocar omacarthismo, e o de Stevens, que revisava criticamente amitologia e transformava Shane no grande herói norte-americano.Em 1956, Ford faria Rastros de Ódio, mas não foram muitos oscríticos que, desde a primeira hora, reconheceram na história deEthan Edwards a obra-prima de um grande do cinema e um dosmaiores filmes de todos os tempos, independentemente de gênero.É nesse contexto, contemporâneo de Rastros de Ódio, quesurge o primeiro grande western de Boetticher. Admiradores comoBazin saudaram nele o retorno do western à simplicidadeessencial. Na época dos enfoques mais pretensiosos de Zinnemanne Stevens e das tentativas de Anthony Mann de psicanalisar owestern, Boetticher mantinha-se fiel às tradições do gênero. Massua simplicidade era enganosa. Na verdade, era depuração, oudecantação, pois esses filmes movimentados e diretos, queraramente ultrapassam 80 minutos de duração, exibem grandecomplexidade dramática.Nos westerns de Boetticher, o vilão é sempre a projeçãonegativa do herói. Em O Resgate do Bandoleiro, RandolphScott, como um homem ético que cede à violência, se opõe aRichard Boone como um bandido que, sendo excepcionalmenteviolento, não deixa de se pautar por um rigoroso código moral.Essa complexidade de Boetticher se repete, o filme de gângsteres O Rei dos Facínoras, de 1960, que Jean-Luc Godard,empolgado, definiu como o mais brechtiano dos filmes. Começaram,em seguida, as dificuldades de Boetticher: quatro anos parafazer seu semidocumentário sobre o toureiro Aruzza e as cenas detouradas desse filme são as mais belas já filmadas, depois umúltimo filme com Audie Murphy, nunca exibido no Brasil (A Time for Dying). O homem que morreu no sábado foi um daqueles diretores subestimados que um dia será preciso colocar no panteão dos grandes da tela.

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