Beni Jr./ Divulgação
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Morre no Rio o cineasta Ricardo Miranda

Mostra Tiradentes em SP faz homenagem ao diretor e exibe seu filme 'Paixão e Virtude'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2014 | 16h43

Embora pouco conhecido do grande público, Ricardo Miranda era um dos mais audaciosos diretores brasileiros contemporâneos. Era – no domingo, ele deveria estar debatendo em São Paulo com o público do evento Tiradentes em São Paulo, após a exibição de seu longa Paixão e Virtude. Mas Ricardo teve um enfarte e morreu nesta sexta-feira, 28, no Rio de Janeiro, aos 63 anos. A exibição do filme permanece, marcada para domingo. O que seria uma celebração vai virar homenagem póstuma.

Em dezembro de 1837, Gustave Flaubert escreveu Passion et Vertu – Un Conte Philosophique. Passdado todo esse tempo, o conto filosófico do escritor francês ganhou nova dimensão, em outra mídia. Natural de Niterói, Ricardo desenvolveu extensa atividade como montador de filmes de Paulo César Saraceni, Glauber Rocha e muitos outros. Só cinema de autor, e dos mais exigentes. Em janeiro, na Mostra de Tiradentes, ele ainda teve tempo de exibir – e discutir – sua transcriação da obra de Flaubert.

O filme propõe um jogo de asperezas e estranhezas para falar de sexo, desejo – e para decifrar a persona do narrador. Mazza, que vive uma relação histérica com o marido banqueiro, com quem não tem prazer, une-se a um cientista. Tinha de ser um químico, para que a ligação entre eles fosse tão explosiva. Mas Mazza começa a desestabilizar o cara com sua exigência crescente. Como se narra uma história dessas? Com quem deve ficar o ponto de vista?

Ricardo Miranda fez um filme belíssimo – e ousado, em muitos níveis. Paixão e Virtude foi selecionado para integrar a programação da Mostra Tiradentes em São Paulo, no Cinesesc. O diretor era esperado sábado na cidade, para o debate no domingo. Mas ele morreu nesta sexta no Rio, de enfarte, aos 63 anos (nasceu em 1950). Ricardo quem? Apesar de sua importância, permanecia um biscoito fino, um segredo de poucos, como muitos dos artistas com quem colaborou.

Em Djalioh, seu longa precedente, já delineara seu projeto. Não era um adaptador no sentido literal. E, quando reverenciava o texto, que está quase todo (todo?) na tela, era com um objetivo preciso – o cinema de Ricardo Miranda não busca correspondências visuais. É a encenação da palavra, do texto. Talvez Jean-Marie Straub tenha feito a mesma coisa, especialmente em sua obra codirigida pela mulher (que morreu) – Danièle Huillet.

A par do texto, Paixão e Virtude encena outro diálogo – com as artes visuais. Pode ser um exercício interessante identificar as referências de Ricardo a quadros famosos, mas você não precisa delas para entrar no – e usufruir o – clima do filme. O derradeiro deleite – para além das cenas intensas de sexo, que Ricardo filmava com o despudor de suia geração libertária – é a entrada em cena de Helena Ignez. No reduzido tempo que fica em cena, ela emcarna o próprio narrador, Flaubert, e diz o texto do escritor de forma luminosa. Deslumbrante.

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