Morre em SP a atriz Myrian Muniz

Morreu em São Paulo, aos 73 anos, a atriz e diretora Myrian Muniz. Ela sofreu um acidente vascular cerebral na madrugada deste sábado. Ela sempre se orgulhou de ser uma genuína mulher de teatro: intérprete, diretora, contra-regra, iluminadora, professora e até faxineira das salas de espetáculo, participou de momentos fundamentais da criação cênica nacional. Myrian estava em sua casa, no bairro de Higienópolis, preparando-se para ir a uma festa. Ao sair do banheiro, sentiu falta de ar e desfaleceu. Apesar da rapidez do resgate, a atriz morreu antes de chegar à Santa Casa.Como a atriz desprezava velórios, seus familiares não marcaram nenhuma cerimônia e seu corpo foi cremado nesta tarde, no crematório da Vila Alpina.Myrian consolidou uma carreira de 46 anos e seu talento pode ser admirado no filme Nina, de Heitor Dhalia, ainda em cartaz - sua voz gutural, a expressão carregada, a maldade destilada em palavras transformou o papel de Eulália, uma velha avarenta, em um honrado testamento.CarreiraEla fez balé clássico antes de iniciar a carreira de atriz, participando do Corpo de Baile do Municipal. Depois foi enfermeira até entrar na Escola de Arte Dramática, em 1954, por uma razão muito simples: vizinha da escola e amiga dos alunos, Myrian emprestava seu violão para eles. A convivência a convenceu a seguir a carreira de atriz.Em 1961, iniciou a carreira profissional, no Teatro Oficina, encenando José, do Parto à Sepultura, dirigida por Augusto Boal e ao lado de Fauzi Arap. Dois anos depois, com O Noviço, ganhou seu primeiro prêmio, o Governador do Estado.Desde o início, Myrian demonstrou não ter nenhum medo da polêmica - depois de passar pelo Teatro Brasileiro de Comédia, chegou ao Arena, onde criou uma consciência política sobre a sociedade brasileira daquela época, fim dos anos 1960.?Comecei a conhecer os ?Brechts? da vida e a entender melhor o teatro brasileiro. Tomei um gosto social pelo trabalho e reneguei o TBC e o Oficina, meu passado ?aristotélico??, contou ela, em entrevista ao Estado em 1998, quando do lançamento do livro Giramundo - O Percurso de Uma Atriz (Hucitec), organizado por Maria Thereza Vargas e que mapeia sua carreira.Enfrentando a ditaduraMesmo pressionada pelo grupo de direita Comando de Caça aos Comunistas, que ameaçava com violência os espetáculos supostamente subversivos, ela continuou em cena, abastecendo-se com dois copos de conhaque antes de entrar no palco para reunir coragem.Quando a polícia decidiu fechar o Arena, Myrian, que estava nas últimas semanas de gravidez de seu primeiro filho, Marcelo, postou-se parada na porta, sozinha, acreditando que sua barriga seria respeitada. De fato, foi, mas o teatro foi fechado mesmo assim.Lutar pelos seus direitos moveu a atriz a momentos escandalosos, como a briga com a cantora Elis Regina por causa do musical Falso Brilhante, dirigido por Myrian em 1975. O motivo foi a falta de pagamento de uma porcentagem da bilheteria, como combinado. Apesar de inocentar a cantora, a atriz resolveu o problema nos tribunais.Último trabalho na TVDeixou a televisão maldizendo o veículo depois do estrondoso sucesso em Nino, o Italianinho, na Tupi. Também deixou o teatro inúmeras vezes, sobrevivendo com aulas de interpretação, principalmente no Macunaíma, escola que fundou com o primeiro marido, Silvio Zilber.No cinema, foi dirigida por Ana Carolina em três filmes (Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Amélia) e Maurice Capovilla (Jogo da Vida), entre outros. Em todos, como no teatro e na televisão, construiu personagens em verdadeiro estado de graça.

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