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Morre, aos 66 anos, o premiado cineasta gaúcho Sérgio Silva, de 'Anahy'

Diretor se inseria na tradição do 'cinema de bombacha', escavando tradições do seu estado de origem

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo,

15 de agosto de 2012 | 13h58

Sérgio Silva estava doente, com câncer. Seu estado de saúde agravou-se e nesta quarta-feira, 15, ele morreu em casa, aos 66 anos, em Porto Alegre. Sua morte ocorreu em plena realização do Festival de Gramado. Silva recebeu o prêmio de roteiro no evento, em 2009. Atores seus foram premiados com o Kikito e, na última segunda-feira, 13, a Mostra Gaúcha de Gramado lhe prestou uma homenagem. O troféu honorário foi recebido pelo jornalista e crítico Roger Lerina. Além do cinema, era homem de teatro, um professor respeitado. Apesar de sua importância, a terceira edição, revista e aumentada, da Enciclopédia do Cinema Brasileiro o ignora.

Quando o repórter do Estado elogiou o longa Anahy de las Misiones, ainda na fase de Retomada do cinema brasileiro - em 1997 -, houve quem pensasse (e até dissesse) que era solidariedade de gaúchos. Há um cinema urbano feito no Rio Grande - pela Casa de Cinema de Porto Alegre e seu arauto, Jorge Furtado - que ganhou o Brasil. Jorge passou pela escola da Globo, como roteirista e realizador. O longa de Sérgio Silva era um épico na tradição do cinema de bombacha, escavando na memória das guerras que forjaram o ímpeto guerreiro do gaúcho.

Anahy de las Misiones foi um pouco a Mãe Coragem de Sérgio Silva, bebendo na fonte de Brecht para contar a história de uma mãe e seus filhos que atravessam os campos de combates, pilhando os mortos. No momento mais intenso do drama, o diretor cria sua versão da Pietà, entre dois homens - uma Pietà gay, porque Silva não fazia segredo de suas preferências. Era um momento forte, e ousado, num filme que ainda enfrentava o desafio de ser de época. Terminava de forma muito intrigante, com a família diante do abismo - o imponente cânion do Itaimbezinho. Nada atesta melhor a qualidade do filme que os inúmeros Candangos que ganhou no Festival de Brasília, inclusive os de melhor filme e roteiro.

Sérgio Silva realizou 21 filmes, de diferentes formatos e bitolas. Formado em Letras pela UFRGS, lecionou literatura e língua portuguesa no Colégio Israelita Brasileiro de Porto Alegre e por 32 anos foi professor de disciplinas teóricas de dramaturgia no Departamento de Arte Dramática da UFRGS. Foi ator, produtor e cenógrafo, e também exerceu a crítica de cinema. Contava que descobriu sua vocação ao atuar na peça O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Dirigiu os curtas Sem TFP, Scorpion, A Divina Pelotense, Festa de Casamento e O Zeppelin Passou por Aqui, entre 1968 e 1993.

Em 1990, em parceria com o crítico e cineasta Tuio Becker, outra figura importante do cinema no Rio Grande do Sul, fez o longa Heimweh / Nostalgia, em super-8. O tema - a herança da cultura alemã, que ambos compartilhavam, Tuio de forma mais intensa, como descendente de imigrantes nascido e formado em Santa Cruz do Sul, um dos núcleos da colonização de germânicos no País, no século 19. Silva nasceu em Porto Alegre, em 1946.

Em 2003, seis anos depois de Anahy, ele fez Festa de São João, transpondo para uma fazenda no interior gaúcho, na noite do título, a peça de August Strindberg, Senhorita Júlia. O filme valeu a Marcelo Serrado o Kikito de melhor ator. Mais um hiato, outros seis anos, e Quase Um Tango lhe deu o Kikito de roteiro em 2009. Era culto e generoso. "Passava seu conhecimento enciclopédico não de uma forma soberba. Gostava de dialogar e dividir", sintetizou Roger Lerina durante a homenagem de Gramado.

FILMOGRAFIA

Heimweh/Nostalgia

Longa em super 8, de 1990, sobre a colonização alemã no RS

O Zeppelin Passou por Aqui

Curta de 1993

Anahy de las Misiones

Longa de 1997, multipremiado no Festival de Brasília

Noite de São João

Kikito de melhor ator para Marcelo Serrado, em Gramado, 2003

Quase Um Tango

Kikito de direção, em 2009

 
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