Reprodução
Reprodução

Morre a atriz Laura Antonelli, mito sexual dos anos 1970

Artista teve a vida e a carreira truncadas por denúncias de tráfico de drogas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2015 | 19h52

Ela foi uma das mais belas e sexys mulheres do mundo. Tendo iniciado sua carreira como modelo para anúncios de Coca-Cola na Itália, Laura Antonelli foi catapultada à categoria de mito erótico por filmes como Malícia, de Salvatore Samperi, no começo dos anos 1970. Na década mais gloriosa de sua carreira, ela fez filmes como O Inocente, de Luchino Visconti, e Esposamante, de Marco Vicario. E aí, sabe-se lá por quê – um desejo de aperfeiçoar o que já era belo –, Laura lançou-se numa série de cirurgias plásticas. A primeira não deu certa, as outras foram piorando. A donna belíssima tornou-se uma aberração. Para fugir ao próprio rosto no espelho, ela começou a se drogar. Em 1991, aos 50 anos, a polícia encontrou 36 gramas de cocaína em sua casa. Tratada não como dependente, mas como traficante, Laura, a freak, foi a julgamento.

Condenada a 42 meses de prisão, passou a década de 1990 recorrendo na Justiça. Em 2000, foi inocentada, mas o estrago já estava feito. Com a vida destruída, Laura Antonelli mandou um recado ao mundo – ‘Esqueçam-me’. Isolou-se em Ladispolli e foi lá que morreu. Nesta segunda, 22, aos 73 anos. Feche os olhos por um momento, e o que vem? Laura, esplendorosa, em Malícia, em Minha Mulher é Um Violonsexo, em Esposamante. Nascida em Pula, na Croácia, em 1941 – quando a região pertencia à Itália –, formou-se em educação física em Nápoles. Tornou-se professora até ser descoberta nos anúncios de refrigerante. Fez o primeiro filme em 1965 e, na sequência, já estava filmando em inglês, com Vincent Price. Só depois a carreira deslanchou na Itália.

Salvatore Samperi já havia feito Obrigado, Tia, quando, em 1973, carregou nas tintas da comédia lasciva – a definição é de Jean Tulard no Dicionário de Cinema – Malícia. Instantaneamente, o salário de Laura saltou de 4 milhões de liras para 100 milhões e ela virou a atriz mais bem paga da Itália. O filme é sobre garota contratada como doméstica na casa de mulher que morreu. Sobram o marido e os três filhos, e o quarteto inteiro vai se dedicar obsessivamente à tarefa de arrastar a jovem Laura para a cama. Transformada em estrela, e mito sexual, logo em seguida, Laura estava filmando com o grande Visconti, mas a experiência de O Inocente foi um tanto traumática.

Em 1976, quando fez o filme adaptado de um romance de D’Annunzio, Visconti estava com a saúde precária, preso à cadeira de rodas e com dificuldade de falar. Foram as sequelas da trombose que havia sofrido anos antes. Numa cena, Visconti queria que um véu ‘amassasse’ o rosto de sua estrela. O filme é sobre um marido que desconfia da traição da mulher e acha que o filho não é dele. O rosto amassado era uma metáfora, um desejo dele. Em condições normais, Visconti teria feito a cena como desejava, mas sem poder falar nem ajeitar o véu com as próprias mãos, o que seria simples virou um inferno para todo o mundo. Mais dois anos e Laura, em outro filme de época, encontrou talvez seu melhor papel – que um Visconti em pleno vigor teria lhe ofertado em O Inocente.

Em Esposamante, ela faz a mulher de Marcello Mastroianni. Ele faz um comerciante que vive viajando. Suspeito de crime, precisa esconder-se – na casa em frente da sua. Laura faz sua mulher histérica. É frígida e vive presa ao leito. Para suprir a ausência do marido, ela assume os negócios. Passa a viajar, como ele fazia. Da sua janela, incógnito, Mastroianni assiste à transformação da mulher. Vê como ela desabrocha, assume sua sensualidade e vai para a cama com outro(s) homem(ns). Mais do que o ciúme, corroído pelo desejo o macho não sossega enquanto não recupera a mulher e faz dela sua amante. Na militância feminista da época, a Laura Antonelli de Esposamante provocou polêmicas que extrapolaram o universo do cinema.

No filme, para se liberar, a mulher refaz a trajetória do marido. É significativo que seja o cavalo, na charrete que ele usava, que leve a mulher aos ambientes que o ex frequentava. Houve réplica e tréplica sobre se agir como homem era o que poderia liberar a mulher. O que não houve dúvida é que Laura, nas cenas de sexo, era um furor. Uma cena, na escada, ficou indelevelmente gravada na memória de quem viu o filme. Seios, bumbum, os lábios carnudos, a respiração ofegante, tudo fez de Laura Antonelli – em 1978! – um símbolo do empoderamento (palavra horrível) da mulher. A nova mulher, ciente do seu poder, da sua sexualidade.

Outros diretores importantes, como Ettore Scola e Mauro Bolognini, lhe ofereceram papéis à altura de sua beleza, talento – e cachê. Mas logo criou-se o inferno. A bela virou fera na suíte de experiências desastrosas com o próprio corpo. Nem David Cronenberg imaginaria uma história tão trágica – e triste. “Esqueçam-me”, pediu Laura. O mundo cumpriu seu desejo, e a esqueceu. A morte a resgata. E La Antonelli que agora se chora é a diva, a encarnação da malícia, a esposamante. La donna piú bella del mondo.

Mais conteúdo sobre:
Laura Antonelli

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.