"Moro no Brasil" e "Sou Feia mas Tô na Moda"

Mika Kaurismaki é finlandês. Veio do frio, gosta do calor, e gosta mais ainda de música. Adora este país. Por isso, algum dia teria mesmo de fazer um filme como Moro no Brasil, no qual descreve sua trajetória de estrangeiro encantado por uma terra que muita gente (inclusive nativos) considera incorrigível e virtualmente inabitável. Pois bem, o finlandês acha o contrário. Pensa que aqui é um bom lugar para assentar acampamento. Em especial para quem gosta de música, como ele. Já a funkeira Deise Tigrona é brasileira da gema. Tão brasileira como as meninas de grupos chamados As Danadinhas, Gaiola das Popozudas, Juliana e as Fogosas, entre outros. Esse pessoal, que em sua maioria mora em Cidade de Deus e cercanias, teria bons motivos para se sentir maltratado neste país. Mas, pelo contrário, parecem todos e todas de muito bom humor, embora não abdiquem de uma postura de reivindicação social. São personagens do documentário que tem um título irreverente como elas: Sou Feia mas Tô na Moda, de Denise Garcia. Na verdade, um documentário parece a conclusão de outro. Moro no Brasil faz um mapeamento musical do País, que começa na Zona da Mata pernambucana e vem descendo pelo Nordeste, passa por Salvador e chega até o Rio. Pode ser que as seqüências iniciais sejam as que mais bem definem seu estado de espírito: no primeiro plano, temos um personagem (o próprio diretor), agasalhado como um urso em meio a uma nevasca em Helsinque. Corte rápido, e eis o mesmo personagem numa estrada poeirenta, num dia ensolarado dos trópicos. Entre um plano e outro o termômetro deve ter dado um pulo de mais de 50º Celsius. Mas o interessante não é ver o europeu branquelo suando em bicas enquanto dirige seu jipe pelas estradinhas vicinais do agreste. Bom mesmo é vê-lo em pleno exercício da sua curiosidade amorosa pela cultura brasileira, em especial por sua vertente sonora. Para nós, nativos, já parece quase uma banalidade falar da diversidade musical brasileira. Por isso é bom quando de vez em quando alguém vem de fora e constata que, de fato, o País é um imenso melting pot, um cruzamento de etnias e costumes que redundou numa cultura rica, sólida e variada. A música talvez seja a vertente que melhor expressa essa hibridação feliz. E então Kaurismaki se envolve com maracatus e com cocos, encanta-se com a música da capoeira, o samba-de-roda e a axé music, até se encontrar em plena Estação Primeira de Mangueira, onde, pasmo, constata que o mais puro samba de raiz começa também a se misturar com o rap, com o hip-hop, com o funk, ou melhor, com o funk-rock dos grotões cariocas. E é aqui que o cantadores e emboladores do documentário de Mika Kaurismaki se encontram com as popozudas de Denise Garcia. Porque o fim do percurso de Kaurismaki em seu mapeamento musical de Moro no Brasil coincide com o começo de Sou Feia mas Tô na Moda. Mas é uma continuidade com algumas fraturas no percurso. Kaurismaki percebe como a apropriação do rap e do funk pela juventude carioca da Mangueira ainda mantém intacta a base rítmica do samba. Por trás da letra basicamente falada do rap, subsiste a seção rítmica que fez a fama da melhor escola de samba no pé do Rio. Mas acontece que essa raiz parece muito menos presente no DNA dos funkeiros de Cidade de Deus. Tanto assim que eles nem falam em "composição" mas em "montagem" das músicas. A base rítmica é tirada de um computador, sampleada, e, sobre ela e uma melodia muito simples ("sempre a mesma coisa", diz um dos compositores) se alojam as letras. Estas sim são a grande atração, e sujeitas a polêmica. Divulgação /Cena de Sou Feia mas Tô na Moda, de Denise GarciaAlgumas delas são francamente provocativas e elogiam a marginália. Outras são maliciosas e de apelo sexual. "São sensuais", dizem as garotas do grupo As Danadinhas, que vieram do Rio para lançar o filme em São Paulo e, depois da sessão, fizeram um show no espaço ultracult da Avenida Paulista chamado Reserva Cultural. Era o funk de Cidade de Deus chegando aos modetes e culturetes de Sampa. As meninas e os líderes dos grupos fizeram questão de desvincular o funk da marginália, uma associação que servia para desqualificá-los e aumentar o preconceito, segundo dizem. E, de fato, o filme mostra um outro lado do funk, esse lado que já víramos associado mais ao rap - o protesto, o grito de uma periferia desassistida e olhada com medo e preconceito pelas classes média e alta das cidades grandes. Certo, é a voz da periferia, o grito rouco dos que estão por baixo na escala social de uma sociedade muito injusta. Mas, para além do protesto, articulado ou não, há essa extraordinária pulsão jovem, cheia de adrenalina e outros hormônios. Esse é talvez o lado mais interessante a ser notado no funk, mais do que considerações estéticas de nariz em pé sobre a sua pobreza musical, ou neomoralistas obre seus versos. Talvez uma das seqüências mais impressionantes do filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, seja justamente a do baile funk, cheio de uma energia e agressividade que tanto assustam como atraem. Não por acaso, na vida real esses bailes vêm se espalhando, deixando a periferia e chegando às zonas "nobres" das cidades. Muitas garotas e garotos de classe média gostam de freqüentá-los, porque os consideram antídotos certos contra o tédio. Já não são um fenômeno carioca. Chegaram também a São Paulo. Antes de desqualificá-las como toscas ou agressivas, seria melhor abrir a alma (e a mente) para tentar ouvir o que essas vozes têm a dizer. Elas vão continuar gritando por aí, goste-se ou não. Moro no Brasil (Ale-Br-Fin/2002, 105 min.). Documentário. Dir. Mika Kaurism?ki. 14 anos. HSBC Belas Artes/M. de Andrade - 15h30, 17h30, 19h30, 21h30. Morumbi 1 - 13h10, 17h30, 19h40. Cotação: Bom Sou Feia mas Tô na Moda (Br/2005, 61 min.). Documentário. Dir. Denise Garcia. Reserva Cultural 4 - 15h30, 16h50, 18h10, 19h30, 20h50, 22h10 (sáb. também 23h30). Unibanco Arteplex 5 - 13h40, 15h20, 17h, 18h40, 20h20, 21h50 (sáb. também 0h). Cotação: Regular

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