Moretti e Monteiro brilham fora da competição

Nanni Moretti esteve em Cannes apresentando dois curtas-metragens, The Last Customer e Il Grido d?Angoscia dell?Ucello Predatore: A Última Cliente e O Grito de Angústia do Pássaro Predador. O título em inglês do primeiro se justifica. Moretti estava de passagem em Nova York quando decidiu registrar os últimos dias de uma centenária farmácia que iria ser demolida para dar lugar a mais um arranha-céu. Casas não são objetos indiferentes. Não são coisas, como sabia o nosso Manuel Bandeira. Demoli-las é quase como matar um ser humano. Sem dizê-lo diretamente, o filme nos mostra isso de maneira clara. Já Il Grido d?Angoscia é feito de esquetes, sobras da filmagem de Aprile, um dos filmes mais populares do diretor. Tem seu interesse, ainda que relativo. Outra sessão concorrida (pelo menos em seu começo) foi a de Vai e Vem, filme-testamento de João César Monteiro, cineasta português que morreu em fevereiro deste ano. Ele mesmo está em cena, e desta vez seu personagem se chama João Vuvu. Temos aí o tom desabusado de Monteiro, que mais uma vez filma suas obsessões, mas registra também a própria morte. Depois de alguns planos fixos, com diálogos às vezes tidos por absurdos (é genial como Monteiro desconstrói os lugares-comuns da língua portuguesa), houve certa no Grand Théâtre Lumière. Para alguns espectadores, Vai e Vem parecia menos um filme que um objeto não-identificado que houvesse pousado na Croisette. Um corpo estranho num festival que, até agora, inclinou-se mais pelo lado comercial que pelo artístico. Quem ficou até o final, teve a sua recompensa.

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