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'Morangos Silvestres', de Ingmar Bergman, ganha cópia restaurada

Filme de 1957 refaz o percurso do médico Isak Borg pelos fantasmas e traumas de sua vida

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2015 | 04h00

É bem possível que Morangos Silvestres (1957) seja o mais comovente dos filmes de Ingmar Bergman. Nele, o mestre sueco talvez não tenha flertado com a experimentação mais radical, como fez em Persona. Ou atingido o paroxismo da beleza como em Gritos e Sussurros. Mas Morangos Silvestres é possivelmente seu trabalho mais carregado de emoção. Mesmo quem nele vê muitos defeitos, como a crítica da New Yorker Pauline Kael, não lhe nega a força de cenas das quais não se esquece jamais. E nem esse sentido de sinceridade e emoção que atravessam o filme do princípio ao fim.

Para quem ainda não o conhece, surge agora a oportunidade única de vê-lo em cópia restaurada, e na tela grande, para a qual foi concebido. Gente de geração mais antiga via esse filme em cópias esfarrapadas, em cineclubes, como se participasse de um ritual ou de uma missa laica em louvor do grande cinema. Agora é fácil. Existe em DVD, qualquer um baixa no computador, mas vê-lo na tela grande continua a ser uma experiência imbatível.

Morangos Silvestres descreve a viagem dentro de si, ao longo de um único dia, do professor Isak Borg (Victor Sjöström). Ele é o velho médico que vai receber uma distinção acadêmica em Lund por seus 50 anos de exercício profissional. Na noite que antecede a viagem, tem sonhos estranhos. Ao acordar, decide ir de carro e não de avião. Leva consigo sua nora, Marianne (Ingrid Thulin), que está separada do marido. No trajeto, reencontra a casa de verão onde passou a infância. Dá carona a uma moça e dois rapazes. É um road movie. Existencial.

Na história há muito, muitíssimo, de Bergman. Borg é um homem gélido e descobre que pagará a distância emocional com a solidão. São temas de Bergman. Ele também vinha de uma família emocionalmente fria e rígida. Ele próprio não escapava a esse aleijão afetivo, como testemunharam algumas de suas ex-mulheres. Não por acaso, as iniciais do personagem, Isak Borg, são as mesmas de Ingmar Bergman. Borg é ele. Ou como ele se vê na velhice, pois tinha apenas 38 anos quando filmou. Já o grande ator e diretor Sjöström tinha 78 anos na época, mesma idade do protagonista. Morangos Silvestres é, também, um dos grandes filmes sobre a velhice jamais feitos, como Umberto D., Balada de Narayama e Uma Viagem a Tóquio.

Mas vai muito além desses limites. A via crúcis do professor Isak Borg rumo a si mesmo não diz respeito apenas a idosos, ou a qualquer faixa etária em particular. Fala de todos e a todos, de maneira geral. Em sua viagem, Borg/Bergman revisita a paisagem um tanto estática do passado, com seu conjunto de traumas e alegrias, prazeres, decepções e lembranças que não querem se apagar. Usa o sonho, a fantasia, a recriação desse mundo mágico e, às vezes, assustador como formas de acesso a si mesmo.

Embora Bergman negue, Morangos Silvestres é bastante bafejado pela psicanálise, embora não de maneira técnica. O preto e branco contrastado empresta à atmosfera essa dimensão onírica. Boia entre o real e o sonho e estabelece a verdade de si como condição de liberdade. Profundo, o filme nunca perde esse liame emocional que toca o espectador. É das raras experiências cinematográficas capazes de tocar aquilo que Freud chamava “o âmago do nosso ser”. Bergman era obcecado, não tanto pela psicanálise, mas por essa experiência da profundidade, que ele sondou de maneira cada vez mais radical e corajosa ao longo de sua obra. Mas talvez nunca da maneira sensível e comovente como fez em Morangos Silvestres.

 

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