David Bornfriend
David Bornfriend

'Moonlight', que estreia no Brasil, polariza o Oscar com 'La La Land'

Longa de Barry Jenkins fala sobre um homem que adquire sua identidade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2017 | 04h00

Ocorre neste domingo, 26, em Hollywood a batalha final do Oscar de 2017. Um filme continua polarizando as atenções, e é La La Land, o musical de Damien Chazelle que concorre em 14 categorias. O único com condições de lhe fazer frente é Moonlight - Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins, que concorre a oito prêmios e estreia nesta quinta, 23. Em janeiro, Moonlight venceu o Globo de Ouro de melhor filme na categoria drama. La La Land ganhou como melhor comédia ou musical. Agora, o confronto é entre eles. Os dois filmes integram a lista de nove indicados para o prêmio da Academia, que será atribuído domingo no Dolby Theatre, em Hollywood. O favoritismo é de La La Land, mas Moonlight virou bandeira, e tem força.

No ano passado, havia apenas dois concorrentes negros no Oscar. Este ano, são 19, e espalhados por várias categorias. Existem afro-americanos indicados para melhor diretor, ator, atriz, e ator e atriz coadjuvantes. Os indicados para melhor documentário privilegiam a questão negra numa ‘América’ que, desde a posse do presidente Donald Trump, anda confrontada como nunca antes com seus fantasmas. Os EUA seguem sendo o paraíso dos imigrantes? Os direitos civis estão consolidados?

Tem gente dizendo que, na segunda, 27, consolidada a vitória anunciada de La La Land, as coisas serão (re)colocadas em perspectiva e a fantasia do protesto do ‘Oscar so white’ será esquecida, pelo menos até a próxima premiação da Academia. Esquecida? É pouco provável. Elucubrações à parte, Moonlight, a grande estreia desta quinta, é um filme raro - como La La Land. O musical ‘demyniano’ de Chazelle não é uma fantasia alienante numa época de crise, como não eram os musicais do francês Jacques Demy. Moonlight também foge ao formato ‘social’ que tem dado a tônica das participações dos negros no Oscar.

Barry Jenkins é apenas o quarto negro indicado para o Oscar de direção, após John Singleton, Lee Daniels e Spike Lee. Na agenda de todos, estava a questão social. Ela ressoa em Moonlight - drogas, violência, etc. -, mas há uma outra, mais íntima, que se refere à própria identidade do homem afro-americano, e aqui Moonlight liga-se ao excepcional Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck. Moonlight é sobre a luta pela aceitação e sobrevivência de um negro pobre e gay. Divide-se em três partes, com três diferentes atores. A mais bela é a última. Independentemente de raça, cor, nunca houve outro filme como Moonlight sobre o contato íntimo (não explícito) masculino.

Ao longo da narrativa de Barry Jenkins, o protagonista Chiron é interpretado por três diferentes atores e também vai mudando de nome. A questão dos atores explica-se porque Chiron, afinal, começa criança e termina homem feito. Mas os nomes ajudam a explicitar o que, no fundo, é no tema de Moonlight - Sob a Luz do Luar. Durante todo o tempo, Chiron está querendo se integrar, ser aceito. Cria personas para si mesmo. O desfecho, e o que ocorre na cena - admirável -, talvez indique que vai finalmente deixar de viver as vidas dos outros para encarar a sua.

Moonlight, que estreia nesta quinta, 23, poderá não tirar o Oscar de La La Land, o musical de Damien Chazelle, favorito na premiação da Academia neste domingo, 26. Mas é belíssimo, e o elenco todo - não apenas Mahershala Ali e Naomie Harris, indicados para melhor ator e atriz coadjuvantes - são excepcionais. Ele vai ganhar, tem de ganhar. Ela vai trombar com Viola Davis que, na realidade, é coprotagonista de Fences/Um Limite Entre Nós, mas está indicada como atriz secundária e vai levar pelo filme de Denzel Washington.

Denzel já disse que essa profusão de artistas negros no Oscar de 2017 não é uma questão de cota nem respostas da Academia aos protestos pela ausência de afro-americanos na premiação de 2016. Um Oscar branco? Com 19 indicados negros neste ano, o Oscar está (um pouco) mais mestiço, digamos assim. São filmes bons como Estrelas Além do Tempo, um pouco menos bons como Um Limite Entre Nós. Ou então grandes como Moonlight. Uma pesquisa feita com quase 200 críticos de todo o mundo apontou Toni Erdmann, da alemã Maren Ade, como o melhor filme do ano passado. Em segundo, ficou o de Barry Jenkins. Para o repórter, que não curtiu tanto Toni Erdmann, Moonlight pode ser muito bem o primeiro. Ou Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, que, se não fosse aquela comissão, talvez pudesse estar no Oscar.

Garoto, Chiron sofre duplamente - com o que para ele é a rejeição da mãe drogada e com o bullyng dos colegas na escola. Negro e pobre, ele se indaga se também é gay? Face ao mundo hostil, Chiron cria nomes - e identidades. Pratica a violência. Persegue-o uma lembrança. O toque do colega, daquela praia. À luz do luar, todos os garotos negros são blues (azuis, ou tristes?). Em todas as suas fases, ele será sempre solitário, até o reencontro naquela lanchonete que se assemelha a um quadro de Norman Rockwell. Sem entrar em detalhes, para não correr o risco de spoiler, o desfecho de Moonlight é o mais belo que há - esse homem poderá agora, quem sabe, viver sua vida. Moonlight termina em aberto. Será...? Será que vai tirar o Oscar de La La Land? Difícil. O musical (não alienado nem alienante) é o favorito, mas Caetano, na trilha, quem tem é Barry Jenkins, Cucurrucucu Paloma.

 

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