Jean-Baptiste Lacroix/AFP
Jean-Baptiste Lacroix/AFP

'Moonlight' é o grande vencedor do Spirit Awards, o 'Oscar Independente'

Filme de Barry Jenkins levou todos os cinco troféus que disputava, mais um especial para o elenco

Mariane Morisawa, ESPECIAL PARA O ESTADO

25 de fevereiro de 2017 | 22h12

LOS ANGELES - O clima do Independent Spirit Awards não poderia ser mais diferente daquele do Oscar. Numa tenda montada na praia de Santa Monica, ao lado do famoso píer e roda-gigante, a premiação dos filmes independentes, que aconteceu no sábado, 25, é mais relaxada, mesmo juntando alguns dos indicados da cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, no dia seguinte, como Moonlight - Sob a Luz do Luar. O filme, aliás, ganhou todos os cinco troféus que disputava - produção, direção, roteiro, montagem e fotografia -, além do Robert Altman Award para seu elenco, diretora de elenco (Yesi Ramirez) e diretor (Barry Jenkins). 

Por causa do prêmio, anunciado previamente, nenhum dos atores do filme concorreu nas categorias de interpretação. Indagado sobre como estava se sentindo ao ter um filme sobre inclusão num momento tão delicado dos Estados Unidos, Jenkins disse: “Estou muito bravo. Acho que a maioria das pessoas aqui hoje está. Moonlight é um farol de inclusão, que mostra uma versão válida da América, tanto quanto a história de uma família branca. Isso me deixa empoderado. Mas fiz este filme em outra administração, quando me sentia seguro. O espaço, agora, não é tão seguro”. A cantora e atriz Janelle Monáe, que está no elenco, acrescentou: “Estamos inspirados a fazer mais. A voz de todo o mundo importa, sem interessar de onde você vem, se é homem ou mulher, gay ou não. Todos merecemos ter nossas histórias contadas”.

O troféu de melhor filme internacional foi para a coprodução entre Alemanha e Romênia Toni Erdmann, de Maren Ade, numa categoria em que o brasileiro Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, também concorria. “Fico feliz e orgulhosa de estar aqui como uma cineasta mulher, porque ainda não é tão comum”, disse a alemã. Mas teve um pouquinho de Brasil na vitória de “A Bruxa”, de Robert Eggers, como melhor filme de estreia e melhor roteiro de estreia: o filme é produzido por Rodrigo Teixeira.

Já a francesa Isabelle Huppert ganhou o troféu de melhor atriz por seu trabalho em Elle, de Paul Verhoeven. A francesa, que saiu vitoriosa do César na noite de sexta-feira em Paris, chegou de última hora à festa do Independent Spirit Awards e pulou da cadeira ao ouvir seu nome. “Tanto reconhecimento me dá muita energia, e estou rodando um filme em Paris agora, então isso também me dá energia”, explicou a atriz mais tarde. “Para mim, o bom cinema sempre é independente”, disse. Ela também contou por que gostou da personagem. “É uma pessoa forte, não é uma vítima. É ferozmente independente”, explicou.

 

Com a predominância de Moonlight, vários latino-americanos que concorriam acabaram saindo sem troféus - os chilenos Pablo Larraín (diretor por Jackie), Sebastián Sepúlveda (montagem de Jackie) e Paulina García (atriz coadjuvante por Little Men), o mexicano Michel Franco (filme por Chronic) e o brasileiro Mauricio Zacharias (roteiro, em parceria com Ira Sachs, por Little Men).

Casey Affleck levou o prêmio de melhor ator por sua performance discreta em Manchester à Beira Mar. Affleck disse estar animado para a festa do Oscar. “Denzel Washington foi uma das pessoas que me ensinaram a atuar, e nunca o conheci”, afirmou. “É uma honra estar lá, espero que o apresentador Jimmy Kimmel não faça muita brincadeira em cima de mim.” Ele também brincou que gostaria de fazer um papel mais feliz. “Eu me acho uma pessoa feliz, apesar das aparências”, afirmou.

 

O melhor ator coadjuvante foi Ben Foster, por A Qualquer Custo - no Oscar, quem concorre pelo filme na categoria é Jeff Bridges. “Todos amamos histórias. Eu amo tanto que quero viver dentro delas”, disse. O prêmio de atriz coadjuvante ficou com Molly Shannon, por Other People”. “O.J. - Made in America, documentário de oito horas dirigido por Ezra Edelman, foi o vencedor na categoria.

 

Os apresentadores Nick Kroll e John Mulaney fizeram muitas piadas com a atual situação política dos Estados Unidos, dizendo, por exemplo, que Steven Bannon, consultor do presidente, só está no governo por causa de sua beleza e que Donald Trump tem as mesmas origens de Robert Durst (acusado de assassinar três pessoas e tema da série The Jinx), mas é menos adorável. Josh Welsh, presidente da Film Independent, a organização que promove o Spirit Awards, fez um discurso engajado. “Obrigado aos jornalistas. Nunca época em que vocês foram declarados inimigos do povo americano, me parece correto agradecer por seu trabalho. Obrigado aos sindicatos, por existirem. Obrigado ao National Endowment for the Arts (organização federal de apoio às artes, ameaçada pelo novo governo), que apoiou tantos artistas e organizações ao longo dos anos. Esperamos que os rumores sobre seu fim sejam falsos, mas estamos prontos para lutar. Obrigado aos cineastas por fazerem filmes tão lindos e poderosos, especialmente aos cineastas do México, Chile, Ucrânia, Alemanha, Irã, que viajaram aos Estados Unidos para estarem aqui hoje. O cinema transcende fronteiras e muros. Nós promovemos o globalismo.”

O clima leve voltou quando Andy Samberg, imitando o cantor Eddie Vedder, cantou Alive, sucesso do Pearl Jam, enquanto eram celebrados os artistas que não morreram este ano - ao contrário do Oscar e sua seção “in memoriam”, que homenageia os artistas mortos.

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